Entrevista | Ana Vilaça – Actriz de “Entroncamento”

de Fio Condutor

Laura, em fuga de um passado turbulento, refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte – onde toda a gente só quer uma vida melhor.

Esta obra reúne atores profissionais e não atores, criando uma combinação interessante entre a expressividade e intensidade emocional dos primeiros e o naturalismo e autenticidade dos segundos. Dentro do elenco, Ana Vilaça entrega uma performance magnetizante como a intensa Laura.

Perante a estreia deste seu novo filme, o Fio Condutor teve a oportunidade de entrevistar a actriz Ana Vilaça e falar sobre a sua carreira, a sua personagem e o futuro do cinema português.

Entroncamento estreia nos cinemas portugueses no dia 26 de Março.

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Fio Condutor: Antes de mais, muito obrigado por esta oportunidade de entrevista. É um prazer saber mais sobre o teu percurso como artista e sobre os teus novos projectos, incluindo o filme Entroncamento.

Ana Vilaça: Eu também vos agradeço e é com todo o gosto que respondo às vossas perguntas.

FC: Tens vindo a afirmar-te como um dos nomes emergentes do cinema português. Como começou o teu percurso como actriz? O que despertou essa vontade de representar?

AV: Fico sempre na dúvida se devia começar a contar de quando comecei a fazer teatro, de quando comecei a estudar ou de quando comecei a trabalhar, porque uma actriz vai-se construindo e todas essas fases são importantes. Talvez o mais justo seja começar a contar a partir de 2006, mas a vontade de representar surgiu muito antes disso. Foi sempre muito claro para mim que sentia e percecionava o que me rodeava de uma forma diferente das pessoas que conhecia. Era uma criança curiosa e deslumbrada, mas compreendi muito cedo que a tragédia e a comédia (vamos simplificar assim) andam sempre de mãos dadas. Um dia, com 4 anos, tive o impulso de subir ao palco numa festa de natal da empresa onde o meu pai trabalhava, pedi a toda a gente para fazer silêncio e cantei uma canção a capella. A forma como o tempo ficou suspenso, o silêncio, a sensação de hiperfoco, de levitação, quase…foi como se tivesse chegado a casa. É essa a sensação que continuo a procurar. De vez em quando, acontece e, quando acontece, não há nada que se equipare a isso. É nesses momentos que processo o mundo, que compreendo o que me rodeia. Não tenho outra forma de o fazer, é uma necessidade.

FC: Ao longo da tua carreira tens passado pelo teatro, televisão e cinema. De que forma cada um destes meios influencia o teu trabalho enquanto actriz? Sentes que há aprendizagens que transportas de uns para os outros?

AV: Claro que sim, sempre. É difícil isolar que aprendizagens é que transporto de uns projetos para os outros, mas acontece. Especialmente em projetos longos, acabo sempre transformada. Isso é uma das coisas mais bonitas desta profissão. Se nos permitirmos a isso, passamos a vida inteira a aprender e a descobrir coisas novas.

Ana Vilaça na curta-metragem By Flávio

FC: A tua colaboração com Pedro Cabeleira já vem de trás, nomeadamente com a curta-metragem By Flávio, onde também participaste na escrita. Tiveste uma participação ativa na construção da Laura? E o que te fez aceitar a participação em Entroncamento?

AV: Com o Pedro os actores têm sempre uma participação ativa na construção das personagens, respeitadora do processo de cada um. Esta foi uma construção que durou anos, houve muitas e longas conversas, várias trocas de ideias e uma construção detalhada desta pessoa que estávamos a descobrir como é que poderia vir a existir. Para mim as coisas fazem sentido assim, quando é uma construção e um verdadeiro trabalho de equipa. A Laura metia-me medo no papel, por não saber como chegar a ela. Acho que tínhamos os dois dúvidas, mas fomos na mesma.

FC: A Laura é uma personagem muito enigmática, cujo passado nunca é totalmente revelado. Como é que se constrói alguém a partir desse vazio? Quais foram os maiores desafios na interpretação da personagem e o que mais te atraiu nela?

AV: Da mesma forma que imagino que um pintor pinta um quadro, que um escritor escreve um livro ou que um poeta descobre um poema. Uma parte do trabalho é com o Pedro, outra é sozinha, outra é com o resto do elenco e com os diferentes departamentos (guarda-roupa, cabelos, make-up, arte, etc.). Para mim são importantes períodos de solidão, em que pego no argumento, em tudo o que já foi conversado até ali e mergulho em papéis, em música, pintura, fotografias, livros. Preciso de pintar esse esboço antes de começar um tipo de trabalho mais físico, que normalmente envolve um desporto (mas não só). Neste caso, foi Muay Thai. O corpo tem memória. Vou construindo essa memória sensorial com tempo. Quando cheguei aos ensaios, a Laura já existia. Só precisava de saber como se comportava na presença dos outros. Não havia forma de recusar. Era muito tentador dar vida a esta mulher, cheia de contradições, que define a sua própria trajetória e que usa a condescendência e a misoginia a seu favor. Ao mesmo tempo, não é uma heroína. Não me interessa trabalhar personagens heroicas. Interessa-me trabalhar a luz e a sombra, construir personagens que sejam mulheres por inteiro, que existam na tela como na vida: cheias de contradições, defeitos, dor, raiva, força, doçura, vulnerabilidade – todas as coisas que fazem parte da condição humana e às quais todos temos direito.

FC: A Laura é uma outsider que chega ao Entroncamento de comboio e o espectador acompanha a adaptação dela à cidade. Como foi a tua própria experiência em rodar nessa localidade e de que forma é que a tua perspectiva sobre a cidade influenciou a interpretação?

AV: Eu própria era uma outsider a viver no Entroncamento. Fiz um esforço consciente para falar pouco e observar muito. Foi, desde logo, evidente a misoginia, o machismo, o preconceito. Mas também era evidente o desalento, o abandono, o marasmo, a inquietação. Bebi muito dessa experiência.

Ana Vilaça no filme Entroncamento

FC: Entroncamento mergulha num conjunto de temas muito ligados à realidade social: precariedade, marginalidade, solidão, vícios, mas também pertença e sobrevivência, retratando um lado mais invisível da sociedade portuguesa. Que leitura fazes desse retrato? E que responsabilidade sentiste ao dar corpo a uma personagem inserida nesse contexto?

AV: O meu dever é pôr-me ao serviço do que observo, sem reservas, nem preconceitos. Nesse sentido, sinto-me sempre responsável pelas personagens que construo, venham do contexto que vierem. Acredito que a forma como estamos na vida é diametralmente proporcional à forma como estamos na arte. Quando olho para as pessoas, não vejo vilões, nem heróis. Na verdade, somos todos muito parecidos, procuramos todos coisas muito idênticas. Mas vimos de contextos diferentes, sim. De realidades socioeconómicas muito dispares e isso muda tudo. As trajetórias vão-se traçando e as pessoas vão fazendo escolhas. Mas nunca poderemos falar sobre quase assunto nenhum sem falarmos sobre privilégio de classe, porque tudo vai desaguar a isso. A responsabilidade que tenho é muito simples: trato cada personagem com dignidade, empatia e respeito. Com a Laura não foi diferente. Acho que a forma como vivemos concede muito pouca dignidade à maioria dos seres humanos e isso está na raiz de muitos problemas.

FC: O filme cruza atores profissionais com não atores. Como foi trabalhar nessa dinâmica? Que tipo de energia ou verdade é que essa mistura trouxe às cenas?

AV: Foi óptimo, aprendi muito com todos eles. Trabalhei com pessoas extraordinariamente disponíveis e presentes. Resultou em muitas das melhores contracenas que já tive.

FC: Há sempre um equilíbrio delicado entre representar um lugar de forma autêntica e construir uma narrativa cinematográfica. Como foi esse processo em Entroncamento? E tens tido algum feedback dos próprios habitantes da cidade?

AV: Independentemente das narrativas que se criam, o importante é criar personagens enraizados em verdade, personagens que pudessem mesmo existir. Fugir dos bonecos, das caricaturas e dos lugares comuns. A melhor forma de fazer isso é com uma boa dose de franqueza, empatia e entrega. Foi o que tentámos fazer. Acho que conseguimos.

FC: O filme tem tido um percurso muito interessante em festivais, incluindo a seleção ACID no Festival de Cannes. Como tens vivido esta recepção internacional? Quais são as diferenças que sentes na forma como o filme é interpretado fora de Portugal?

AV: Os cineastas da ACID com quem tive oportunidade de falar perceberam mesmo o filme e deixaram-se contaminar por ele. Mais do que qualquer outra coisa, é isso que se quer. Trazer o filme para Portugal e assistir à forma como tem sido recebido é muito gratificante. Ver como diferentes pessoas se vêm representadas no filme tem sido o mais bonito. Chamam-lhe um filme de gangsters, mas a verdade é que há tanta gente que não o é que vê ali retratado um povo, em várias das suas dimensões. No final, não há festival ou reconhecimento internacional que supere o facto de estarmos a conseguir chegar às pessoas.

Ana Vilaça na curta-metragem Eva

FC: Tendo já experiência como co-argumentista, tens vontade de continuar a explorar a escrita ou até a realização? Que tipo de histórias gostarias de contar?

AV: A escrita, sem dúvida. Já estou a fazê-lo. Realizar é uma vontade que expresso, repetidamente, há muitos anos, mas ainda não chegou a hora. Sei que quero continuar a contar histórias sobre mulheres, em todas as suas dimensões. Quero provocar. Ir a lugares desconfortáveis e, num mundo onde o machismo resiste como ervas daninhas, continuar a subverter ideias pré-estabelecidas sobre o que as mulheres deviriam ser.

FC: Do ponto de vista de quem trabalha em diferentes áreas artísticas em Portugal, o que sentes que ainda precisa de mudar ou evoluir no meio audiovisual?

AV: Tanta, tanta coisa. Entre muitas outras, há duas coisas que considero muito urgentes. A primeira é a criação de medidas estatais que acabem com a situação de extrema precariedade em que tantos artistas vivem, que transforma a sua permanência no meio artístico num verdadeiro acto de resistência – viver num estado de pânico permanente, sem qualquer rede de apoio, num estado interminável de “lutar ou fugir” que não mata, mas mói (muito). É um espelho concreto de como o país olha para a cultura e para os seus agentes culturais, como se o que fazemos fosse visto como um hobby. A maioria continua a trabalhar a recibos verdes, sem usufruir dos direitos básicos de qualquer outro trabalhador. Pergunto-me, até quando? E quando é que vamos parar com as tentativas falhadas de estatutos de intermitente que não funcionam e vamos, de facto, analisar outros modelos que deem possibilidade aos artistas portugueses de viver dignamente da sua arte? Esses modelos já existem noutros sítios e funcionam. Aqui, o acto de criar fica, a priori, estrangulado porque a sobrevivência do indivíduo não está garantida, perpetuando uma lógica antiga que confere o direito à criação a uma fatia privilegiada e, por isso, há muitas histórias que continuam e continuarão por contar. O país teria muito a ganhar, porque um país não é mais do que a cultura do seu povo. Continua a tratar-se a cultura como secundária ou ornamento folclórico. Não é secundária, é essencial.

Outro problema grave que continuamos a ter, é o quase-monopólio da empresa de telecomunicações e exibidora de filmes NOS, que trata quase todos os filmes portugueses (à exceção dos que eles próprios distribuem) com um desprezo absoluto. Alega que os filmes portugueses não fazem espectadores numa tentativa de justificar o seu claro desinvestimento nos mesmos. Para mim, é evidente que os horários do meio dia a que põe os filmes é uma estratégia deliberada para os assassinar na primeira semana de exibição e ter justificação para os tirar das poucas salas onde os exibem o quanto antes. Iniciativas como disponibilizarem três das centenas de salas que têm espalhadas pelo país para filmes portugueses soa a manobra de diversão por parte de uma empresa que está pouco interessada em investir na cultura do seu povo. É, a meu ver, da máxima urgência, o ICA criar cotas que obriguem a NOS a exibir os nossos filmes em lugares e horários que permitam, de forma concreta, que os filmes cheguem às pessoas.

FC: Para terminar, que projectos tens atualmente em mãos e que possas partilhar connosco?

AV: Estou a escrever dois projetos: um de ficção e um documentário. De resto, várias coisas em fase de pré-produção, inclusive a longa-metragem do Daniel Soares, com quem colaborei em “Mau Por Um Momento” e para a qual estou muito entusiasmada.

Entrevista Realizada por João Iria, Leonel Menaia e Sara Ló.

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