O Mistério Indecifrável Que É The Piano

de Rafael Félix

Quase 30 anos depois, The Piano, escrito e realizado por Jane Campion em ’93, continua a manter os seus mistérios bem junto a si, permanecendo indecifrável e pairando, quase que em desafio, por entre interpretações ou definições, e é talvez por isso que ganhou o estatuto gigantesco que a BBC lhe atribui há uns anos atrás como “O Melhor Filme de Sempre Realizado por uma Mulher”.

No entanto The Piano é um quebra-cabeças consideravelmente mais complexo do que aquele que se podia esperar de um drama vitoriano centrado num triângulo amoroso entre um colono, um semi-colono e uma mulher muda, passado na mais chuvosa Nova Zelândia que se pode imaginar. E um Piano. Obviamente. Está no nome.

Anna Paquin e Holly Hunter em The Piano

Campion preenche o seu filme com uma atmosfera de quasi conto de fadas com imagens icónicas cheias de significado como o Piano pousado nas praias implacáveis do Novo-Mundo ou Harvey Keitel a deambular a sua nudez à volta do piano apenas iluminado pela luz que entra através das frestas da sua cabana.

Mas toda essa beleza e quase poesia visual, cobre (ou romantiza) algo que corre mais efusivamente nas profundezas do guião de Campion. A palpável sensualidade e tensão sexual que banha o filme, centrada numa mistura de (re)descoberta e curiosidade que Ada (Holly Hunter) nutre por Baines (Harvey Keitel) e antagonicamente não nutre por Alisdair (Sam Neill) é coberta de dilemas morais, não só para as personagens, mas para o espectador, e é também a razão de existir este texto.

The Piano lida muito claramente (mas não só) com dois temas centrais: a sexualidade da mulher e a toxicidade masculina. Estes homens premeiam Ada com todo um leque de comportamentos abusivos e possessivos, desde avanços sexuais indesejados e talvez concretizados até ao cortar do dedo no climax, entrando entre eles numa espécie de batalha alimentada a testosterona, não necessariamente pelo amor desta, mas pelo controlo sobre ela. Pela posse dela. Pela posse da sua voz. Por assim dizer.

É por este espetáculo de patriarcado que toda a densa camada de subtexto e flagrante erotismo me deixa puramente intrigado com The Piano.

Porque à primeira vista, o pensamento que fica quando Baines começa a negociar a devolução do Piano em troca de “fazer coisas que ele gosta” enquanto ela toca, é um bocado desconfortável, para ser simpático. Já vimos esta história antes, no cinema, no mundo lá fora e nos jornais desde a explosão do #MeToo em 2017. Aqui temos uma mulher que tem de negociar a sua voz, retirada por um homem após um casamento arranjado, em troca de algum tipo de favor sexual a um segundo homem. Vamos observando Ada a “vender” partes de si, em troca das teclas negas do seu instrumento, na tentativa de comprar de volta aquilo que era originalmente seu. No entanto, é a forma como Campion monta as cenas que oferece um romantismo erótico pleno de sensualidade e que provoca um conflito moral interessante de discutir nesta altura. 

Harvey Keitel e Holly Hunter em The Piano

É inegável que existem cenas de pura violência sexual neste filme, essa discussão não podemos ter, mas podemos discutir as cenas entre Baines e Ada e aquela coação (ou não) de trocas afetivas. Estaremos nós tão habituados a ver mulheres serem maltratadas e mal representadas no cinema que automaticamente esperamos o pior e fechamos os sentidos à possibilidade de ser Ada quem na verdade está no controlo daquela relação e ela própria está a retirar prazer desse mesmo controlo? Estaremos nós a fechar-nos ao prazer feminino capturado de uma forma diferente e desafiante em prol de uma visão menos otimista em que vemos nisto a romantização de algo verdadeiramente problemático? 

É que embora a personagem de Holly Hunter esteja constantemente a sofrer avanços por parte do marido e do amante, é possível observar que pode ser ela que está a ditar o controlo e o ritmo destes, e quando não o está, a câmara como que vira a cara a estes momentos, como é o caso da cena de perseguição de Sam Neill. Com isto não quer dizer que tudo o que estejamos a ver no ecrã seja tratado com romantismo e ternura, bem pelo contrário, a violência é uma parte integrante de The Piano e se o visual não o mostra o suficiente, a banda sonora bela – mas absolutamente ensurdecedora de Michael Nyman – garante que a mensagem é passada. Mas entre esta agressão, também há delicadeza, momentos em que a música tempestuosa que sai dos dedos de Ada se transforma lentamente numa melodia diferente e suave quando sente na sua pele o toque de Baines; quando aquilo que começa com Ada a bater-lhe acaba numa cama partilhada; ou estranhamente quando esta passeia as mãos pelo corpo de Alisdair sem lhe permitir que ele lhe devolva esse mesmo toque. 

Holly Hunter em The Piano

As contradições de The Piano são tão complexas como o das suas personagens, o que o torna um misto interessante de conto de fadas com uma nuance mais realista do que aquela que oferece à primeira vista e que abre dilemas interessantes a quem o vê. Aquilo que ali acontece é, não raras vezes, horrível e abjeto, no entanto, existirá outra maneira de ver isto para a qual os nossos olhos, mesmo 30 anos depois, ainda não estão habituados a ver? Estaremos tão condicionados a agoirar o pior que em nós nasce uma espécie de paternalismo que não nos permite ver um retrato complexo da sexualidade feminina? Ou será que apenas o facto de colocar esta hipótese já é irremediavelmente problemático? Inicialmente inclinava-me para esta última hipótese, mas com o primeiro impacto ultrapassado, é como que se o feitiço de Campion tivesse ficado na minha cabeça e me deixasse ver que os mistérios de Ada McGrath são mais complexos do que aquilo que a minha mente me permitiu processar após serem proferidos os versos finais de The Piano:

There is a silence where hath been no sound,
 There is a silence where no sound may be,
In the cold grave – under the deep deep sea.
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