Depois de umas quantas curtas e de uma longa-metragem pouco conhecida, DRIB (2017), o realizador norueguês Kristoffer Borgli atinge a ribalta com Sick of Myself (2022), um filme que vai beber à fórmula nórdica de Ruben Östlund, onde o cinismo e o desconforto social servem de bisturi para dissecar as vaidades e hipocrisias da classe média. Um ano depois, já nas trincheiras de Hollywood (se é que ainda podemos chamar isso à A24), dirige Nicolas Cage no hilariante Dream Scenario (2023), onde volta a atacar o narcisismo digital e a fome de atenção. Mas é com The Drama (2025) que atinge o mainstream.
Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) são um casal como qualquer outro. Prontos para casar, recordam as peculiaridades da sua relação de modo a escrever um discurso para o casamento, em particular o momento em que se conheceram – Charlie fingiu que conhecia o livro que Emma estava a ler para meter conversa e depois passou vergonhas quando percebeu que ela estava a ouvir música e que o ouvido para o qual estava a falar é surdo. Esta mentira vai servir de presságio para o resto do filme, onde a imagem idealizada é confrontada com a verdade perturbadora que a sustenta.
O que acontece quando a imagem de alguém que admiramos é despedaçada pela descoberta de um ato hediondo cometido no passado? Deixamos de conseguir olhar para a pessoa da mesma forma… Mas será que isso anula a pessoa que conhecemos hoje? Aquela com quem passámos vários anos, de quem vimos vários lados… É precisamente esse terreno que Borgli pretende desbravar, colocando perguntas desconfortáveis ao espectador que assiste ao desmoronar de uma relação aparentemente perfeita, de um momento para o outro.
O filme volta às bases de Borgli, recorrendo ao humor negro e desconfortável para meter o dedo na ferida: no quão pouco os casais realmente se conhecem, na falta de comunicação sobre o que importa e na necessidade de proteger uma imagem perfeita, sobretudo à frente de terceiros. Apesar disso, é um filme relativamente leve e divertido, que vai seguramente levar as suas salas a alternarem entre rir às gargalhadas e levar as mãos à cabeça, desejando poder meter o filme na pausa, tal é o desconforto.
E se esse equilíbrio entre riso e mal-estar resulta, é sobretudo graças ao elenco. Robert Pattinson passa o filme inteiro num estado de paranóia crescente depois do acontecimento marcante, incapaz de largar o assunto. Zendaya trabalha em subtração: mostra pequenos tiques nervosos que aludem ao seu passado turbulento. A grande surpresa é Alana Haim como Rachel, capaz de nos arrancar gargalhadas nos momentos-chave apenas com expressões faciais. O som é particularmente eficaz, tanto nas alturas em que procura a tensão como naquelas em que nos faz sentir a surdez de Emma. Já a cinematografia, embora competente, deixa a desejar que fosse mais inventiva e tivesse mais a dizer.
The Drama corrige a maior falha de Dream Scenario (2023) ao conseguir conter-se e fechar muito melhor. Mas essa contenção acaba por ser o seu maior defeito: sentimos que havia muito mais a explorar. Nunca assumimos a perspectiva de Emma e a forma como esta situação a afecta interiormente, e é genuinamente estranho como a componente racial e de género é completamente ignorada. Para além disso, há pouca evolução narrativa, o filme estabelece a questão central e esmiúça-a até à exaustão sem nunca introduzir novas ideias. Apesar das excelentes atuações e de ser uma experiência divertida, o filme faz a pergunta certa mas tem medo de ouvir a resposta.
