Uma adaptação cinematográfica de um livro popular de ficção científica, protagonizada por Ryan Gosling, era tudo o que sabia sobre este filme e foi uma agradável surpresa descobrir que Project Hail Mary, para além de tudo isso, é um buddy film que contraria a tendência negra e distópica deste género. Ainda que isto não seja um spoiler, porque faz parte da premissa da história, foi bom não ter qualquer tipo de expectativa e emocionar-me com um bromance intergaláctico.
Para apreciar este filme, para além de recomendar ignorar o trailer e a sinopse, recomendo um grande reforço de suspension of disbelief que é posto à prova muitas vezes, mesmo para “pessoas das artes” como eu, que não percebem nada de ciência mas entendem que nem tudo pode ser resolvido com “fita adesiva preta”. Apesar disso, é possível desfrutar da viagem e rir enquanto assistimos a uma espécie de Arrival (2016) da Disney que coloca o foco na construção de uma amizade cheia de falhas de comunicação e gags linguísticos.
“Fist my bump!”
Ao contrário de The Martian (2015), filme adaptado do livro homónimo e também escrito pelo mesmo autor, Andy Weir, que venceu o prémio de melhor filme na categoria de comédia/musical nos Golden Globes, este é uma verdadeira comédia com piadas de guião e momentos de comédia física. Este aspeto humorístico é muito fruto do trabalho da dupla de realização Phil Lord e Chris Miller, que são veteranos da comédia e conseguem manter-nos entretidos durante mais de duas horas, preenchendo todos os minutos da longa-metragem com apontamentos que cativam a nossa atenção. Outro aspeto notável da realização foram as escolhas a nível técnico onde privilegiaram a criação de cenários reais, maquetes e marionetas, e a adição mínima viável de VFX sem comprometer o visual. O que, nos dias que correm, é de louvar e uma vitória para os Humanos.
Project Hail Mary começa numa nave onde vemos Ryland Grace (Ryan Gosling) a acordar de um coma, extremamente confuso. O tom cómico fica bem explícito desde os primeiros minutos com uma série de trapalhices e piadas entre este cosmonauta e o robot que cuida dele. A sua confusão é exacerbada quando percebe que está no meio do espaço e o resto da tripulação está morta. O que faz com que esteja completamente perdido, sem memória, e a navegar pelo espaço. À medida que o filme se desenrola, Grace recupera a memória gradualmente, enquanto vamos saltando entre uma série de flashbacks que nos mostra que está numa expedição para salvar o planeta Terra.
No meio desta aventura forçada, Grace vai recuperando as suas capacidades, que por vezes parecem demasiado competentes, e ao aproximar-se do destino, cruza-se com uma nave alienígena. Na tripulação dessa nave está um extraterrestre que batiza de Rocky, por motivos óbvios, e apesar de não ter cara, Rocky revela-se muito humano. A partir deste contacto, sentimos que começa uma nova história, sobre comunicação, cooperação e empatia. Esta doce jornada tem, na minha opinião, um único problema, pouco risco, nunca sentimos que realmente algo de mau vai acontecer a estas personagens e mesmo se acontecer não sentimos bem a consequência disso. Bom, isto e um epílogo que não acrescenta muito para além de lamechice mas isto posso ser eu que sou mais fria que uma pedra.
Por outro lado, temos uma consolidação de Ryan Gosling como ator de comédia que não precisa de mais provas do seu bom timing cómico ou da amplitude do seu leque de expressões depois do filme Barbie (2023) e de The Fall Guy (2024) mas que não deixa de fazer um trabalho impressionante a encher a cena sozinho ou a contracenar com uma marioneta. Depois de uma atuação tão marcante como a de Ken corria o risco de se repetir mas conseguimos vê-lo durante 156 minutos sem sentir um déjá vu.
“I put the ‘not’ in astronaut! I’ve never done a space walk, I can’t even moonwalk.”
Não me parece que seja por acaso que as aventuras pelo espaço estejam a ressurgir em tempos tão conturbados para o nosso planeta, a fantasia de encontrar um sítio melhor ou a de nos unirmos todos para lutar contra um mal comum é tão utópica que nos faz esquecer por momentos a realidade. Esta tentação de mergulhar no desconhecido, às vezes, é tudo o que precisamos para satisfazer o nosso desejo de escapismo, isso e um enredo que tenha a profundidade de um balde de pipocas e algumas palavras de encorajamento no final, como diria o Rocky:
“Words of encouragement!”
