Crítica | Romería (2025)

de Pedro Ginja

Carla Simón regressa onde se sente bem. Um registo autobiográfico, do seu processo de crescimento, e alguns elementos ficcionados assentes em fundações profundas da sua verdade como ser humano. Em Alcárras (2022), vencedor do urso de Ouro de Berlim em 2022, explorava a sua família de coração, com quem cresceu e que cultiva pêssegos em Lleida, e funcionava como uma celebração da mesma, mesmo perante acontecimentos traumáticos. Em Romería, o seu filme mais recente, procura o passado da família de sangue, oriundos de Vigo, e mergulha fundo no desconhecido e no questionamento pessoal da sua herança biológica. Uma clara descida ao abismo e aos segredos que se escondem por detrás da fachada dos bons costumes.

Marina (Llúcia Garcia) é o seu alter-ego, uma jovem de 18 anos, que procura a família biológica como forma de obter uma bolsa, apenas acessível com a apresentação da certidão de nascimento. Viaja de Barcelona, cidade onde cresceu, até Vigo, a terra que a viu nascer, não apenas como transacção económica mas para se conectar com as suas origens. Ao mesmo tempo passagens do diário escrito pela mãe, única ligação de Marina com o passado, revelam a relação com o pai e o seu passado conturbado. O presente e o passado colidem e revelam segredos há muito escondidos.

Romería é um retrato igualmente luminoso visualmente, quando comparado com os anteriores filmes de Carla Simón, mas uma viagem bem mais negra, e carregada de simbolismo, do que era já a sua imagem de marca. A nostalgia, sentimento dominante nas suas anteriores longas-metragens, é substituída por uma percepção de estarmos perante um ajuste de contas com o passado. É, de longe, também o filme mais pessoal e em que existe um maior risco na exposição e na partilha do que é dito ou inferido. Aqui, aos vilões aponta-se o dedo, seja o responsável material por a afastar do pai biológico, seja os brandos costumes ou o estigma familiar que a sida despertava, sobre os ignorantes e mal informados, no início do seu reinado de terror na década de 80 em Espanha.

A este conjunto de constantes tiros, em todas as direcções, acrescenta ainda vários excertos de passagens do diário da mãe, lidas por um narrador omnipresente na história. São pensamentos soltos, relatos, na primeira pessoa, do consumo de drogas ou dos estágios de evolução da doença dos seus pais mas também de momentos íntimos da relação e de viagens que a marcaram. Estes momentos, para além de permearem e influenciarem toda a estrutura do argumento, são fundamentais para porem em perspectiva tudo o que está em jogo nesta viagem. A verdade acaba por libertar a sua protagonista para voos maiores, livre dos bloqueios, ao que o sufocante secretismo a relegou. Mais do que a verdade é a dor e o sofrimento de a conhecer, em toda a sua extensão, que a libertam. Bem perto do final, esse momento é claramente visível no modo como os sinais inferidos de uma metáfora, que pontuam toda a narrativa, sofrem uma mutação de uma ideia objectiva palpável para um sonho temporal abstracto. O ajuste de contas, de onde ninguém sai ileso, permite transportar a realizadora para um novo estágio de evolução. Com ela está também o espectador, comovido com o descambar dos preconceitos que travam Marina e da elegância demonstrada na resolução do argumento. Uma, onde os céus de Vigo se tornam literalmente, o limite.

Este primor repete-se nas escolhas de direcção de fotografia escolhidas para a representar. Emulando o seu estilo visual das colaborações com Alice Rohrwacher, em que combina diversos formatos de filme, Hélène Louvart cria aqui uma relação próxima com a história através das suas opções. As suas imagens, mesmo que nem sempre precisas tecnicamente, estão aqui para servir o argumento e criar uma atmosfera de intimidade. As variações temporais da narrativa são notórias nas opções de luz e de contraste, reminiscente neste caso do seu trabalho em Disco Boy (2023), e em que o passado adquire uma ambiência onírica e a transmuta para outra bem diferente, quase alucinatória, nas sequências filmadas à noite. A própria presença de vídeos caseiros, filmados em VHS, introduz mais uma variação nas opções visuais, em que predomina o aspecto documental descuidado de um turista a descobrir o desconhecido, enriquecendo ainda mais as leituras possíveis da narrativa. Um trabalho digno de ser ainda mais dissecado, tal é a sua influência na condução da história e no modo como transporta Marina, junto com o espectador, nas transformações pessoais que sofre nestes 114 minutos.

Omnipresente no argumento está também Llúcia Garcia, no papel de Marina, que demonstra talento e um instinto certeiro nas escolhas para a sua personagem. Sem dúvida uma decisão arriscada, visto ser estreante em longas-metragens, mas que acaba por se revelar perfeita pois também, ela própria, aparenta estar numa viagem de descoberta. Uma onde o destino final parece ser um de grande sucesso. A ideia para Mitch Martín, no papel de Suso, seria similar mas o resultado final é um bem diferente. Em parte porque o tempo dedicado a Suso não é tão grande e não se vislumbra nada de particularmente marcante na sua interpretação mas essencialmente por acabar irremediavelmente diminuído pelo instinto emocional preciso de Llúcia Garcia.

Romería marca o regresso de Carla Simón aos temas que lhe são queridos, a família e como a mesma determina, durante o crescimento, no que nos tornamos em adultos. Há, no entanto, uma raiva inferida a borbulhar aqui e cuja bolha acaba por rebentar num belíssimo desabrochar cinematográfico pleno de liberdade e intencionalidade. Assim como Marina encontra o seu lugar no mundo também a realizadora parece ter aprimorado a sua visão para além do terreno. Em grande parte porque o que é dito é traduzido em imagem, de forma superlativa, pela incontornável Hélène Louvart, criando o que baptizarei como um evento singular nas salas de todo o país. O ano promete, e muito, para o cinema no feminino.

4.5/5
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