Disco Boy (2023)

de Pedro Ginja

A ideia desta crítica é começar pelo final pois é lá que Disco Boy ganha um significado que ultrapassa a lógica e entra no campo do imaterial, do inatingível. Há que o ver, para além da razão, e escolher entrar no mundo espiritual, com o risco de não obter uma explicação racional. Mesmo vários dias depois continua comigo como um sonho/pesadelo. Ainda não decidi qual.

Alex (Franz Rogowski) decide abandonar o seu país, a Bielorússia, para procurar uma vida melhor na Europa. A maneira de o fazer, sem ser deportado, é entrar na Legião Estrangeira, que concede a nacionalidade francesa a quem lute 5 anos pela França, independentemente do seu percurso de vida. Quase como uma tábua-rasa dos nossos pecados do passado. A sinopse parece simples mas a forma como Giacomo Abbruzzese constrói a narrativa, num intenso vai-e-vem de sensações, cores, tempo e até de culturas, dá a Disco Boy uma infinidade de interpretações. O trabalho de edição nunca é óbvio e reforça essa sensação do desconhecido, enquanto a fotografia procura adaptar-se ao que a história pede – a história é sempre a chave. Quando pede razão mantém-se sóbria e competente, mas ao entrar no mundo espiritual procura novas linguagens e arrisca-se por caminhos inesperados mas marcantes. Tudo isto graças ao trabalho de direcção de fotografia de Hélène Louvart.

O próprio passado, do qual nada sabemos directamente no argumento, “infecta” o modo como Alex vê o presente e como nós, os espectadores, desconstruímos o futuro de Alex. E é nessa desconstrução de Alex e do seu futuro que o significado escondido na história se revela. As referências à cultura africana, e a sua influência no desenrolar da narrativa, revelam um trabalho de investigação profundo sobre este poder de transformação individual, e que continua um completo mistério para o mundo ocidental. A música, composta por Vitalic, e o poder da dança, são vitais para atingir esse patamar e servem como o único momento de verdadeira liberdade para a sua personagem principal.

Não há, no entanto, como fugir do tema central do argumento, a identidade humana que Alex procura, seja na pátria-mãe (Bielorússia) ou como refugiado em busca da nacionalidade francesa, com a qual espera ser “alguém”. Franz Rogowski tem essa característica de permanecer em constante sofrimento mesmo quando o ambiente é leve ou de diversão. Há uma qualidade camaleónica que lhe permite descascar as várias peles da sua personagem e criar um retrato complexo de um homem em busca de outra maneira de ver o seu mundo. O constante adicionar de camadas e subtextos, criam uma teia complexa de ideias, teorias e razões para a catarse de Alex, deixando o espectador a equacionar a sua própria sanidade, mas extasiado com o resultado.

Ficam as dúvidas, levantadas no início, e como única certeza o nome Giacomo Abbruzzese. Uma nova voz, com uma visão própria do que significa a palavra cinema, é sempre algo a celebrar.

4.5/5
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