Como o nome indica este é um filme que explora o tema da solidão, sentimento universal e exclusivo da nossa adquirida consciência. Adapta essa consciência à nossa relação com o mundo animal, tantas vezes distante mas onde as pontes criadas entre Homem e “Besta”, aqui “personificada” num cão abandonado por todos mas que uiva ininterruptamente por algo, são o cerne da narrativa.
Cão Sozinho é uma história autobiográfica de Marta Reis Andrade relacionada com os seus regressos à casa da família em Portugal depois de largas temporadas no Reino Unido em trabalho. Quando espera o retomar da rotina feliz partilhada com a família, após temporadas de solidão num país estranho e distante, encontra o avô também ele em processo de adaptação à viuvez, preso no seu mundo. Ouve-se à distância o uivo de um cão, também ele há muito abandonado e há muito tempo deixado à sua sorte, clamando por ajuda. Marta, movida pela pena, decide ir ao seu encontro mas o que encontra é bem mais para além da gratificação de o salvar.
Esta é uma história onde é fácil para o espectador encontrar pontos de conexão com o que a realizadora pretende comunicar. Mais do que através de palavras, a mensagem passa através da minúcia de que se reveste a narrativa. Um exemplo concreto desta afirmação é a forma como o aspecto visual das suas personagens é tão distinto entre o Reino Unido, terra onde todos surgem cinzentos, se confundem visualmente e comunicam de modo ininteligível, e Portugal, em que a cor, a individualidade e as personalidades vincadas brilham intensas. Uma maneira inteligente por parte da autora de reforçar a alienação num país estrangeiro e o sentimento de pertença quando se regressa ao nosso país de origem, mesmo que para nós a sensação que passa seja outra bem diferente.
Este e muitos outros exemplos revelam um estilo visual muito próprio que mesmo não parecendo muito apelativo, à primeira vista, se revela dotado de nuances deliciosas e de uma complexidade considerável. Não há aqui busca de uma representação fidedigna ou realista dos cenários mas de criar uma viagem emocional onde o destino final, dos seus heróis, se pinta a cada traço no papel. Há ainda muitas brincadeiras, como a variação constante de tamanho e proporções entre os animais e os humanos, como forma de transmitir diferentes sensações e sentimentos. Uma autêntica batalha de percepção entre o que é real e o que é imaginado e sobre quem é o herói ou o vilão desta história.
Todas estas impressões funcionam na maior parte do argumento excepto nas cenas com diálogos entre as personagens, que sempre surgem fora de tempo e pouco naturais. Fica a questão se a história não poderia ter sido transmitida exclusivamente através de animação e do design sonoro e ter, ainda assim, um maior impacto sobre o espectador. Há aqui, no entanto, mais um claro talento a emergir, do filão inesgotável que é a animação portuguesa.
Cão Sozinho retrata como a solidão nos envolve, sem darmos conta, e nos transforma em quem não queremos ser. Um sentimento difícil de transpor para o ecrã e em que a escolha da animação, para o mostrar, se prova como a decisão acertada. Nem tudo é perfeito nas escolhas do argumento, mas o seu destino final carrega nele toda a emoção que a história precisa. Uma que nos transporta para tempos mais simples, e acima de tudo mais felizes, passados em família.
