Alice, Sweet Alice, ou a estreia de Brooke Shields no cinema, como ficou mais conhecido, estreou em 1976 com o seu título original, Communion. Contudo, após ser adquirido pelo estúdio Allied Artists, foi renomeado para o título atual, pois achavam que o anterior poderia levar o público a pensar que este seria um filme cristão – e não estaria errado.
Ironicamente, a própria realização e lançamento de Alice, Sweet Alice aliam-se com as duas principais temáticas debatidas no filme: o anticatolicismo e a negligência infantil. O realizador, Alfred Sole, criado como católico romano, foi acusado de obscenidade pelo seu filme de estreia Deep Sleep (1972), um dos seus filmes pornográficos, que o levou à sua excomungação da Igreja Católica. Além disso, devido à crescente fama de Brooke Shields após a sua atuação em Pretty Baby (1978), Alice, Sweet Alice foi relançado pela terceira vez em 1981 sob o título Holy Terror, com uma campanha que explorou a participação da atriz no filme e resultou numa ameaça de processo à distribuidora.
A história deste filme é, então, tão convoluta como as controvérsias ligadas à sua estreia, pelo que seguimos a rebelde e insurgente Alice Spages, de 12 anos, interpretada por Paula E. Shepard, que na altura já tinha 19 anos. Em oposição, a sua irmã mais nova, Karen (Brooke Shields), doce e angelical, é o exemplo da criança perfeita, que acaba por receber toda a atenção da sua mãe, Catherine (Linda Miller), e da Igreja Católica que habitualmente frequentam. Quando Karen é assassinada mesmo antes da sua Primeira Comunhão (totalizando cerca de dez minutos de tempo de ecrã para Brooke Shields, o que acaba por justificar a disputa mencionada há pouco), tudo indica que Alice foi a responsável. Mas seria uma criança, ainda que indomável, capaz de tal atrocidade?
Antes de mais, é de reconhecer todo o cenário onde se desenrola a história, focado em New Jersey nos anos 60′. É pintada uma realidade muito angustiante da vida urbana, marcada por ruas acromáticas e desalinhadas e casas que não são lares, mas apenas casas, saturadas e frias, partilhadas por pessoas que mal se entendem, além de hospitais psiquiátricos sobrelotados com falta de pessoal e uma polícia incompetente e impudica. Esta amargura move-se em sintonia com o tom slasher do filme, definido pelo assassino violento escondido por detrás de uma máscara horripilante, e, claro, com o terror presente essencialmente na música e iconografia religiosas.
O espantoso score original, caracterizado pelo uso de progressões de acordes dissonantes e órgãos de igreja, contribui para uma atmosfera pesada, funcionando como fundo para a constante simbologia católica em Alice, Sweet Alice, desde velas votivas, estátuas de Cristo lascadas a uma igreja muito vistosa, mas que se torna palco para algo completamente imoral e blasfemo. Aqui, é mostrado o lado opressivo da igreja, e como as instituições religiosas praticam a devoção desmedida a algo divino e que nos transcende. Algo que, inicialmente, tinha como propósito o bem e a aceitação, mas, ultimamente, como retratado no filme em concreto, revela-se algo preconceituoso e especialmente hostil para as crianças e mulheres. Em Alice, Sweet Alice a igreja é o santuário do horror, num mundo onde a família é um lugar de alienação e as crianças são psicopatas.
É-nos expressa uma realidade onde os adultos não respeitam e ignoram as crianças, apenas por o serem, algo muito prevalente no contexto religioso e, por alguma razão, sexual. Por um lado o fetiche pela rebeldia púbere, mas por outro, pela sua pureza e inocência, o que se traduz numa uma ameaça para Karen, para as outras crianças que conhecemos ao longo do filme e, sobretudo, para Alice – que num ambiente onde não a vêm sequer como digna de ter a sua comunhão, é percecionada como nada senão problemas, ou pior, uma assassina.No fim, só algumas têm o dom de ser escolhidas por Deus, e como o grotesco Mr. Alphonso (Alphonso DeNoble), um vizinho bastante pervertido da família Spages bem diz, “God always takes the pretty ones”.
Assim, não só seguimos o principal enredo sobre quem Alice de facto é e quem está por detrás das sucessivas mortes, como também é feito um estudo profundo a cada personagem que acrescenta uma camada extra ao filme e contribui para uma excelente reflexão sobre temas sensíveis que ainda hoje são tabu. A Catherine, como a mãe emocionalmente distante, a sua irmã, Annie (Jane Lowry), que negligencia a sua sobrinha Alice e venera Karen, o Mr. Alphonso com as suas tendências predadoras e, como referido, o desdém de todos os supostos portos seguros, a polícia, a igreja, os hospitais, para com a sociedade em geral.
Alice, Sweet Alice é um filme inconformado com a fé patriarcal e organizada que alega a proteção, mas incute a dominação. Condena dinâmicas familiares problemáticas e faz uma denúncia contundente à Igreja Católica e aos ciclos de violência que esta opera e perpetua, onde os filhos devem sofrer pelos “pecados” dos pais e assim sucessivamente, como forma de salvação. Mas quem está a ser salvo propriamente, no meio da negligência e do trauma religioso?
