Crítica | His & Hers – Minissérie (2026)

de Tomás Salavessa

His & Hers chega à Netflix como uma minissérie de seis episódios que aposta num suspense psicológico direto, sem grandes rodeios. Criada por William Oldroyd e adaptada do romance homónimo de Alice Feeney (2020), a série mergulha desde o primeiro episódio num ambiente de tensão, ressentimento e meias-verdades. “Há sempre dois lados. E alguém está a mentir.

A narrativa acompanha Anna Andrews (Tessa Thompson), uma antiga pivô que esteve desaparecida durante um ano e regressa precisamente no dia em que ocorre um homicídio em Dahlonega, a pequena cidade onde cresceu. A notícia reacende o seu instinto jornalístico e coloca-a no centro de uma história que mistura passado, carreira e identidade. Do outro lado está Jack Harper (Jon Bernthal), o detetive responsável pelo caso e também o seu marido (no papel), que nunca saiu da cidade e é confrontado com o regresso inesperado da mulher. A tensão entre os dois não é apenas profissional. É pessoal, carregada de silêncio acumulado, desconfiança e questões por resolver.

A estrutura da série joga constantemente com a dualidade sugerida no próprio título. À medida que os episódios avançam, a narrativa vai redistribuindo culpas e intenções, deixando o espectador num constante estado de dúvida. Richard Jones (Pablo Schreiber), o cameraman que acompanha Anna, não é necessariamente suspeito, mas também não é de se fiar. Zoe Harper (Marin Ireland), irmã de Jack, vive num estado emocional frágil, marcada por uma depressão e por uma dinâmica familiar complexa, onde o próprio Jack acaba por assumir grande parte das responsabilidades com sua sobrinha, Meg (Ellie Rose Sawyer). Priya (Sunita Mani), colega de investigação de Jack, funciona como o contraponto mais racional dentro da polícia, enquanto Lexy Jones (Rebecca Rittenhouse), que ocupou o lugar de Anna na televisão durante a sua ausência, vive com o receio constante de voltar a ser substituída. Ninguém está totalmente limpo.

O elenco está sólido no geral, mas Tessa Thompson é claramente o centro da série. Consegue transmitir fragilidade, determinação e manipulação sem nunca tornar Anna previsível. Jon Bernthal encaixa bem no papel do inspetor dividido entre dever profissional e envolvimento pessoal, trazendo intensidade à personagem e levantando uma questão interessante: até que ponto é compreensível mentir quando se quer proteger alguém, ou a si próprio?

Um dos pontos fortes de His & Hers é a forma como mantém a dúvida viva. A série vai constantemente alterando o foco, introduzindo pequenos twists e jogando com a perceção do espectador. Nem tudo é perfeito. Há momentos em que o ritmo abranda em demasia e alguns detalhes poderiam estar melhor explicados. O primeiro episódio pode gerar alguma confusão inicial, mas a narrativa acaba por ganhar consistência e direção.

Com apenas seis episódios, a série beneficia de uma duração equilibrada. Tem início, meio e fim bem definidos, encerra a história de forma satisfatória e evita alongar-se desnecessariamente. Não deixa portas escancaradas para uma segunda temporada, e isso joga claramente a seu favor.

His & Hers é um thriller eficaz, bem interpretado e envolvente. Vê-se com facilidade, prende o suficiente e entrega um desfecho que justifica o percurso. Uma minissérie sólida, que cumpre o que promete sem precisar de exageros.

3.5/5
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