Espero que seja a última vez que estamos a falar de qualquer um destes dez filmes durante os próximos meses. Esta caminhada em campanha – que cada vez mais parece um teste à paciência – está mais longa e mais aborrecida todos os anos. Mas faz parte. Os Óscares têm destas coisas: podemos estar todos um bocado fartos e achá-los algo patetas, mas são incontornáveis. Daí, e mantendo a tradição do Fio Condutor, deixamos abaixo por ordem crescente, o nosso top dos filmes nomeados à categoria de Melhor Filme deste ano. Quando digo “nosso”, digo “meu”. Devia ser o “nosso” se os meus colegas ouvissem a razão. Quando digo “a razão”, digo “eu”.
10. F1: THE MOVIE
O Ricardo Esgaio deste ano: ninguém sabe como chegou, mas lá apareceu no meio dos outros 9 em campo. Esta é a presença mais difícil de explicar entre os nomeados deste ano. Mesmo que alguém – que garantidamente não serei eu – queira argumentar que F1: The Movie não é um filme assim tão pobre, essa mesma pessoa dificilmente conseguiria dizer que merecia estar nomeado para Melhor Filme sem começar a ganir de riso. Este veio naquela altura do Verão em que o cinema blockbuster faz mais falta, como havia sido também Top Gun: Maverick (2022) há uns anos e com resultados mais ou menos semelhantes. O problema é que enquanto este segundo foi tão eficaz que devia começar a ser apresentado nas escolas da Marinha Americana como peça de propaganda, F1 foi um espetáculo frouxo que, mesmo quando inventivo, nunca ofereceu uma experiência autêntica, nem em termos emocionais nem em termos automobilísticos – pois tanto o mundo à volta do filme é descartável como a própria indústria de velocidade parece longe da realidade. É verdade que possivelmente ninguém pagou bilhete para ouvir personagens a falar e sim para ver carros a andar à volta de uma pista. Para isso, pessoalmente, eu prefiro ver Fórmula 1: não preciso de ser submetido a mais 2h à frente de um ecrã em que a Ferrari não ganha nada.
9. HAMNET
É possível que a minha paciência com a Chloé Zhao esteja a chegar ao fim. Se The Rider (2017) mostrou uma realizadora que mostrava uma capacidade rara de fundir a ficção e o documental de modo orgânico e ponderado, Nomadland (2020) já abriu portas a um sentimentalismo meio postiço que parecia agoirar o que aí vinha. Fingindo que a sua passagem conturbada pela Disney não aconteceu, Hamnet segue a mesma trajetória descendente de Zhao, que a cada filme veio perdendo aquilo que a distinguia em troca de reações construídas em laboratório. Hamnet está desenhado cirurgicamente para obter o máximo de reação em cada cena, em que cada emoção é elevada ao seu nível mais estridente e nada é deixado nas entrelinhas – tudo tem de ser regurgitado em voz alta para que fique absolutamente claro o que Will ou Agnes sente em cada determinado momento. Alguns destes problemas podem ser atribuídos a decisões de Zhao que procura esbater as linhas entre o cinema e o teatro – desde o diálogo até à forma como os atores utilizam o espaço como se de um cenário se tratasse -, mas por mais ousadas que sejam, raramente oferecem momentos que pareçam honestos na sua totalidade.
8. BUGONIA
Quando Yorgos Lanthimos fez a sua passagem anual por Veneza, as más-línguas diziam que este seria o seu filme mais acessível e profundamente atual; como que uma reflexão do grego sobre o estado anarco-capitalista que vivemos e afins. O facto de ser escrito por Will Tracy, um dos guionistas principais de Succession (2018-2023), também ajudava à festa. Festa essa que pareceu uma daquelas promessas que já todos tivemos: dizem-nos que vai ser uma celebração de arromba e um jantar incrível; e na realidade é karaoke e um bacalhau com natas com três dias. Não é que os intérpretes lá no palco com os microfones não sejam bons – aliás, são tão bons que te perguntas o porquê de estarem num karaoke e não a dar concertos numa sala mais digna que esta cave em Arroios – porém a página que têm para trabalhar nunca vai muito além da superfície. Vai oferecendo aqui e ali umas gargalhadas e sequências bem montadas, porém espera-se sempre um pouco mais de Lanthimos do que um filme que podia ser um sketch do SNL com algum budget e atores talentosos. Uma das desilusões do ano ainda que o seu final, pelo menos, arrisque o suficiente para ficar na memória.
7. TRAIN DREAMS
Um fenómeno estranho este Train Dreams. Adquirido pela Netflix depois de uma receção apoteótica em Sundance, seria uma espécie de ressurreição da americana: o homem do trabalho, do operário, que volta a casa ao final do dia para o calor da sua família. O filme de Clint Bentley é efetivamente isso, e beneficia muito de ter a cara de Joel Edgerton para focar durante duas horas (de conhecimento geral, um absoluto íman dos olhares). Bentley mostra-se um realizador deveras competente, diga-se. A sua construção visual e de montagem é belíssima. Pelo menos até esta começar a parecer algo familiar. E atenção, a familiaridade, em si, não é pecado. Não há cineasta que não tenha as suas influências: olhe-se para J.J. Abrams que fez uma carreira inteira a tentar ser Spielberg para acabar com uma produtora B-tier. O problema é que os visuais de Clint Bentley fazem demasiado lembrar a forma etérea e poética como as câmaras de Terrence Malick vão flutuando por campos de relva verde e de sol incandescente, mas sem os versos e o espiritualismo que são a marca de Malick. Estes são substituídos por uma história de amor e ausência que parece nunca levantar voo, restringindo-se aos carris de uma narrativa bem-comportada e sem grandes aventuras.
6. FRANKENSTEIN
Não me vão apanhar a mim a falar mal do que quer que seja que o Guillermo Del Toro toque. Isto quer dizer que o que quer que seja que Frankenstein tenha de errado, eu vou atribuir à Netflix (seja verdade ou não). Este é o projeto que o mexicano anda a querer fazer desde que pegou numa câmara, mas já se estabeleceu que a visão de Del Toro requer sempre um nível de orçamento considerável, resultado do seu compromisso com os efeitos práticos. Frankenstein é em tudo um filme de Del Toro: é o “monstro” como a personagem mais humana e o humano como a personagem mais monstruosa. Desta vez esta visão fica mais clara com a divisão em capítulos, deixando as ideias de Del Toro totalmente espelhadas na estrutura do filme, que visualmente tem aquele aspeto terrível e sem cor típica das produções da Netflix, mas com cenários e maquilhagem que apenas podiam sair da imaginação do homem que modernizou os contos de fadas no cinema. É um filme com momentos muito altos e alguns momentos menos bem conseguidos, mas é aquilo que todos os filmes de Del Toro são: cheios de coração e empatia para com o mundo e os seus renegados.
5. O AGENTE SECRETO
Depois de Fernando Meirelles e Walter Salles, Kléber Mendonça Filho é o terceiro realizador brasileiro em anos recentes a ver o seu filme nomeado para o maior prémio da noite. Dos filmes apresentados, apenas estes dois últimos são na sua língua mãe, e é este Agente Secreto o mais ousado, à boa maneira do homem por trás de Bacurau (2019). Filmado com película 35mm escaldante e suada, tem o descaramento de brincar com género – com a sua duração considerável e permanente estado de efervescência – sem nunca perder a seriedade do tema central. O novo filme de Mendonça Filho é sobre os pequenos atos de resistência; aqueles invisíveis que a História raramente recorda – quer porque o seu heroísmo é silencioso quer porque os finais são habitualmente trágicos – mas é mesmo para isso que serve o cinema: para espicaçar as recordações; para nestes tempos de memória seletiva, sermos recordados das atrocidades que foram cometidas e agora repetidas em nome do protecionismo. O Agente Secreto é um filme pouco espetacular composto por personagens com que nos podíamos cruzar (e provavelmente cruzámos) na rua; inseridos nas nossas comunidades, todos os dias, a resistir, nas suas lutas muito pessoais que continuam a ser muito sociais. Wagner Moura é um poço inesgotável de carisma e de bravado e a sua nomeação, apesar de surpreendente, não é menos merecida.
4. MARTY SUPREME
Talvez a prova máxima que há sempre um irmão mais talentoso que o outro. Num ano em que The Smashing Machine presenteou-nos com uma mão cheia de mediocridade, este Marty Supreme – que é tanto de Josh Safdie como de Timothée Chalamet -, é um filme muito mais próximo daquilo que foi Uncut Gems (2019) ou Good Time (2017) do que tentou Benny Safdie com Dwayne Johnson. Tem o frenesim que marcou a carreira dos irmãos e o american grindset apocalíptico do filme com Adam Sandler, que mesmo não sendo particularmente profundo, é uma barrigada de entretenimento e belíssima realização que ganharia bem mais se fosse mais comedido no tempo que nos obriga a despender. De forma alguma aqueles 150 minutos são justificáveis. Ainda assim, é uma versão dantesca do que é o american dream e a tour de force de Chalamet mantém-nos colados ao ecrã bem depois do filme mostrar que já não tem muito mais para dizer. É drenante e cansativo como Marty Mauser (e como Chalamet nesta reta final da campanha aos Óscares) mas não isento de charme, e beneficiaria de um final mais arrojado do que a saída algo cobarde que Safdie orquestrou.
3. SINNERS
Nesta altura parece um dos dois principais candidatos ao galardão e por boas razões. O novo filme de Ryan Coogler – que, aqui e ali, ainda demonstra alguns maus hábitos adquiridos durante a estadia na Disney – é a prova que um projeto original e com orçamento pode, nas mãos das pessoas certas, ter impacto significativo. Sinners é espetáculo e extravangaza de uma ponta à outra e oferece uma miscelânea de géneros e ambições que fazem dele uma peça única do cinema de 2025. São exatamente estas as razões que podem fazer as pessoas detestar ou amar Sinners, que, mesmo com tantas nomeações, mantém-se algo divisivo devido à sua excentricidade – com números musicais que parecem vir de o estúdio ao lado e efeitos especiais que flutuam entre o camp e o pateta. Há também um terceiro ato que não está ao nível do que lhe precedeu. Porém, apontasse o que se quiser a Coogler, não se pode dizer que esta novela com dentes pontiagudos, ressurreições, música, suor e sexo não está cheio de aspirações, que mesmo quando parecem tiros ao lado, não deixam de impressionar pelo seu descaramento.
2. ONE BATTLE AFTER ANOTHER
Paul Thomas Anderson teria de fazer um esforço dantesco para conseguir produzir um mau filme. Não é algo que lhe venha naturalmente. Em termos de dimensão parece que PTA finalmente teve um orçamento correspondente à sua ambição e de alguma forma conseguiu convencer a Warner Bros. a desencantar-lhe quase 200 milhões de dólares para este colocar no ecrã a substituição geracional dos revolucionários. DiCaprio no seu mais patético, Penn no seu mais ham, Del Toro no seu mais cool, Teyana Taylor no seu mais caótico e Chase Infiniti é uma revelação. Fotografia em Vistavision deslumbrante com inesgotável criatividade e a banda sonora de Jonny Greenwood é tão desconcertante e peculiar como as suas personagens, fazendo lembrar o trabalho de Jon Brion em Punch-Drunk Love (2002) daqui a nada há 25 anos. A verdade é que o cinema de PTA parece simplesmente uma máquina bem oleada quase fácil, não soubéssemos nós que tudo aquilo que está no ecrã (e página, que Vineland dizia-se tão inadaptável como era Inherent Vice) é detalhado até ao último milímetro. É um filme que torna mais opacas as linhas que separam um herói de um vilão; de como a revolução é feita por pessoas falíveis com princípios falíveis. A revolução é frágil. Atual e cirúrgico.
1. SENTIMENTAL VALUE
Para os desgraçados que tiveram de me aturar depois de Sentimental Value, as minhas desculpas. Eu sei o quão insuportável tenho sido. Todavia, também sei o quanto o novo joint de Joachim Trier mexeu e ficou comigo desde a primeira vez que o vi, portanto, será de supor, e após uma longa análise dos dados disponíveis, continuarei a ser insuportável em relação a ele. Com traços “bergmanescos”, mas muito seu, Sentimental Value é um filme sobre família, ciclos e trauma geracional; sobre as consequências imprevisíveis que esperam quem foge do passado; sobre o processo criativo como refúgio e esconderijo. Seria fácil destacar Renate Reinsve e Stellan Skarsgård pelo seu trabalho superlativo. Seria também redutor pois todo o restante elenco eleva o nível de tal forma que é difícil lembrar-me de um filme que dependesse tão nuclearmente da conexão entre os seus protagonistas como este. Um filme que continuará a dar mais e mais a cada visita e que nos convida a olhar além do ecrã. Pede-nos para ver além dos significados que atribuímos a uma jarra que era da nossa mãe ou uma peça de arte feita por um qualquer artista que gostemos. Diz-nos para que, em vez disso, valorizemos, não as memórias e a nostalgia, mas o presente e aqueles que o populam. É talvez o único filme deste grupo que irá sobreviver ao teste do tempo, como apenas o melhor cinema o faz. Nada mais há a acrescentar.