Crítica | Sentimental Value (2025)

O cinema que olha para si mesmo tem tido boa vida nos últimos anos. Só nos últimos 5 anos tivemos Spielberg, Linklater, Chazelle ou Fincher a passear-se por cenários, guiões e génios loucos de película em punho. Mas a coisa não é nova, diga-se. Kiarostami, Fellini e DeMille são só alguns realizadores de uma lista interminável que, nalgum momento da sua carreira, viraram as câmaras para trás das cortinas e deixaram-nos espreitar para a magia dos sets ou as para as possibilidades infinitas da verdade a 24 frames por segundo, como dizia Godard.

Aliás, citar um cineasta de ego maior que uma capital europeia é adequado quando falamos de Sentimental Value, pois a cidade de Oslo continua a ser a personagem recorrente dos filmes de Joachim Trier. A nova trama do norueguês – que tinha aqui a tarefa miserável de suceder a The Worst Person in the World (2021) – centra-se na relação complexa das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com o pai, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um realizador de renome que se afastou das filhas após um divórcio pouco saudável para se focar na carreira. Gustav regressa da Suécia para o funeral da ex-mulher e apresenta a Nora o seu primeiro guião em 15 anos: um filme que junta momentos e recordações da sua mãe, que se suicidou, sem explicação, quando este era criança. O pai quer a filha para o papel principal. Nora recusa-se.

É bem possível que este seja um simplismo do ouvido português habituado ao sueco de Bergman, mas é difícil ver e ouvir o norueguês de Sentimental Value e não pensar em filmes como Autumn Sonata (1978) ou Cries and Whispers (1972). Estas relações complicadas de pais e filhos, irmãos e irmãs, trabalhadas com micro-agressões quase impercetíveis sobre uma superfície que parece manter-se impávida e serena é um marco do cinema de Bergman, e Trier habilmente segue a mesma tradição. O guião escrito a duas mãos, como já é habitual, com Eskil Vogt, tem esta sensibilidade e maturidade, deixando os silêncios entre frases carregar o peso das palavras ditas por alguns segundos; enquanto Gustav diz a Nora que ela é difícil de amar ou quando a filha lhe atira que o suposto amor que este pai tem à família nada mais é que uma performance, como se as únicas relações que Gustav consegue manter sejam aquelas que coloca nos seus filmes. São coisas que se dizem com o à-vontade que apenas se tem com aqueles que nos são íntimos, às vezes quase em tom de desabafo ou entre risos nervosos; são também as palavras que ferem mais profundamente: aquelas que são ditas com a honestidade desprendida de alguém que não tem noção do quanto podem magoar. O argumento de Trier é cheio destes momentos; de conversas dilacerantes tidas num tom simpático no meio de gargalhadas e copos de vinho ou na serenidade de um teatro vazio. É um filme que raramente levanta a voz, mas que grita enraivecido nos seus longos silêncios.

Este trabalho na página transfere-se e mistura-se com a linguagem visual das câmaras de Kasper Tuxen. Há diversas sequências onde a objetiva é mantida em frente dos intérpretes mais tempo do que seria de esperar, os olhares arrastam-se e vão além da performance. Encontramos algo profundamente humano em cada um deles, intensificando o conforto dos sets iluminados de luz branca e sombras carregadas de tal forma que a capital norueguesa aparenta ser uma cidade que vive numa permanente manhã fria de Outono. Sentimental Value é uma peça cheia de dor e mágoa mal resolvida, mas o calor que emana das atuações e do seu mise-en-scene é capaz de hipnotizar durante 130 minutos e fazer-nos acreditar que, chegados ao fim, é possível que o Cinema tudo cure.

Com tudo isto, é nas feições de Reinsve que o filme se sustenta. Esta Nora é muito diferente da Julie, cheia de inocência e possibilidades, que encontrávamos a correr pelas ruas de Oslo em 2021, quando Trier apresentou a atriz ao mundo. Há galáxias a nascer e a desabar por trás do olhar de Nora – traumas de uma ligação frágil a um pai ausente e as cicatrizes deixadas numa criança obrigada a crescer demasiado depressa. É também difícil de descrever esta relação com o pai – um homem que parece não conhecer, mas que ao mesmo tempo é tão parecido com ela. Quando Gustav oferece o papel que Nora recusa a uma atriz de Hollywood, Rachel Kemp (Elle Fanning) é impossível não sentir a farsa por trás desta decisão. É claro desde o primeiro momento que o realizador procura desesperadamente a filha na performance que está a tentar tirar de Kemp e a enganar-se a si mesmo em cada ensaio com a atriz. Gustav quer utilizar o cinema como tantos o fazem: como ferramenta para fazer as pazes com o passado, todavia, sem Nora, nada do que tenta o leva a lado algum além de à próxima bebedeira. O mérito maior de Renate Reinsve é que também nos faz a nós, o público, procurá-la nos table reads de Kemp. Não conhecemos o guião nem conhecemos Nora assim tão bem, mas sabemos o suficiente para sentir, instintivamente, que aquele papel, sem ela, não existe.

Sentimental Value é um filme que divide a sua atenção entre dois centros de gravidade gigantescos – o de Reinsve e de Skarsgård – que fazem tudo o humanamente possível para se manterem afastados – ela devido ao ressentimento, ele por não saber lidar com uma relação saudável – mas que continuam a ver a vida insistir em arrastá-los um para o outro. Os constantes cut to black ao fim de cada cena sentem-se como pontos finais de vinhetas que constroem um mosaico familiar profundamente disfuncional, mas unido por um fio invisível que persiste em manter estas personagens, mesmo que contra a sua vontade, intimamente ligadas.

Há camadas e camadas em Sentimental Value; é um filme sobre quebrar ciclos e trauma geracional, sobre as consequências imprevisíveis que esperam quem foge do seu passado e como o processo criativo pode funcionar tanto como esconderijo ou como a gasolina que inflama uma mente já de si em chamas. A única coisa que iguala as representações superlativas de Reinsve e de Skarsgård é a profundidade e honestidade com que Joachim Trier nos traz o sucessor da sua obra-prima do início da década. Um filme que continuará a dar mais e mais a cada visita, onde cada momento pode conter um mundo de significados distintos, mas que essencialmente, como o nome indica, convida-nos a olhar além do ecrã. A ver além dos significados que atribuímos a uma jarra que era da nossa mãe ou uma peça de arte feita por um qualquer artista que gostemos, mesmo que este seja nosso pai. Em vez disso, Trier, com toda a complexidade do seu filme, sugere-nos algo relativamente elementar: nada é mais valioso do que aqueles que nos rodeiam.

5/5

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