Crítica | Amélie et la Métaphysique des Tubes (2025)

Baseado no romance autobiográfico de Amélie Nothomb lançado em Agosto de 2000, Amélie et la Métaphysique des Tubes marca a estreia nas longas-metragens de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang. O filme procura traduzir cinematograficamente a forma como uma criança experiencia o mundo nos seus primeiros anos de vida, acompanhando Amélie (Loïse Charpentier e Emmylou Homs) num momento decisivo do seu crescimento: a passagem dos dois para os três anos.

Amélie e a sua família de origem Belga vivem no Japão, e ao longo do filme a menina estabelece uma ligação significativa com a sua ama, Nishio-San (Victoria Grosbois) cuja presença marca várias etapas do crescimento emocional da protagonista. É através desta relação que surgem momentos de aprendizagem fundamentais, incluindo o contacto com temas mais complexos como o luto e a experiência da perda, apresentados de forma subtil e sensível.

Desde o início, é introduzida uma ideia que estrutura toda a narrativa: as crianças observam o mundo como se fossem Deus. Esta metáfora, formulada pela própria Amélie, não se associa a qualquer noção de poder ou domínio. Pelo contrário, Deus surge como uma entidade que não controla, mas que recebe tudo sem filtro. É essa abertura total que define a experiência da protagonista, que absorve o mundo antes de conseguir organizá-lo.

A narrativa desenvolve-se, assim, a partir de uma lógica sensorial que se manifesta nas pequenas descobertas do quotidiano: o contacto com a natureza, a curiosidade perante os animais, a relação com os membros da família ou o simples fascínio por elementos como flores, água ou paisagens. Em vez de privilegiar acontecimentos dramáticos, o filme constrói-se através destas experiências mundanas que, vistas pelo olhar de Amélie, ganham uma dimensão quase mágica. Sem recorrer a dramatizações excessivas, o filme acompanha também um percurso que se aproxima de uma iniciação ao mundo. Inspirado no material de origem, segue os contornos do nascimento de uma sensibilidade artística que procura eternizar as primeiras sensações da infância.

Visualmente, a obra destaca-se pela sua delicadeza e pelo uso expressivo da cor, construindo uma experiência que privilegia a emoção e a percepção. As ideias são expressas através das cores, dos jogos de escala e da fusão entre animação digital e traços que evocam o desenho a lápis, criando um universo que reflete a descoberta constante do mundo e a forma como o banal se transforma numa experiência sensorial intensa.

No final, Amélie et la Métaphysique des Tubes afirma-se como uma adaptação sensível que não procura contar uma história tradicional, mas sim recriar a experiência de crescer — transformando a infância numa vivência emocional e estética.

4/5

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