Prontos para lavar a roupa suja? Não, não se trata de mais uma versão de Big Brother/Secret Story. Escrevo-vos sobre Algodão a Frio, a nova série de Ricardo Leite, que se passa quase na totalidade dentro de uma lavandaria self-service. Sete pessoas, um mistério, meio hambúrguer e toda uma série que se pode ver de uma assentada na RTP Play.
Sete desconhecidos ficam presos no interior de uma lavandaria self-service, por consequência de um violento atropelamento e fuga. A única testemunha é Sara (Diana Lara), que esconde o paradeiro da vítima de Jorge (Paulo Calatré), um homem misterioso que procura a pessoa que foi atropelada por motivos sinistros.
Um thriller com um toque de Agatha Christie em que o Hercule Poirot somos nós é o gostávamos de encontrar na ficção nacional e o que Algodão a Frio entrega. Cada episódio tem uma linguagem própria, seja dominada pelo conflito em diálogo, seja pela tensão crescente que o silêncio causa, seja através de planos contínuos que nos transportam ainda mais para dentro deste espaço reduzido com estas pessoas. Não existe margem para desviar os olhos do ecrã, porque a sensação que temos é que algo de muito importante nos pode escapar a qualquer momento. Quando a acção toma conta dos acontecimentos somos envolvidos na centrifugação da máquina bem oleada do enredo, mas mesmo quando aguardamos pelo próximo passo da trama, são as personagens que nos escolhem o programa de lavagem e nos deixam sempre com a atenção na temperatura certa. O ar que respiramos é o mesmo destes indivíduos, a atmosfera transborda para onde quer que estejamos a visualizar a série.
Sete personalidades diferentes num espaço reduzido é uma premissa desafiante para uma série de 6 episódios. O peso nos diálogos e interação entre personagens aumenta exponencialmente, e num período da humanidade em que somos viciados em estímulos e em que os recebemos de toda a parte, até mesmo quando não os pedimos, a tarefa de manter o nosso interesse nesta história é ainda mais hercúlea. No entanto, Ricardo Leite e André Barbosa, argumentistas da série, criam maneira de nos prender a atenção e, mais importante até, de nos fazer jogar com as possibilidades que nos assaltam o pensamento em relação ao que realmente se está a passar nesta lavandaria e qual desfecho terá este enredo.
Cada personagem representa uma visão completamente diferente sobre o que fazer em situações limite, tanto pela diferença etária como pela sua motivação. Sara foi apanhada num imbróglio que a mantém num dilema, Noémia (Catarina Avelar) só pretende tratar da sua roupa como sempre faz naquela lavandaria. Já Américo (Dinarte Branco) é movido pela ideia de vir a ser útil para a comunidade, de arranjar as soluções que o façam sentir-se importante para os restantes. Enquanto isso, Fafá (Ana Marta Ferreira) aparece de paraquedas sem qualquer intenção de aqui estar, apenas um total acaso a levou a este confinamento, deixando-a inquieta por estar a perder uma oportunidade glamorosa de trabalho e socialização. Santos Milhões (Rodrigo Saraiva) vem abanar toda a dinâmica do grupo, trazendo consigo uma instabilidade e imprevisibilidade que rapidamente contamina os outros. Nuno (Vítor Silva Costa) começa a história como vítima, mas o que se esconde por trás do atentado que sofreu levanta sérias dúvidas sobre quem é e sobre os efeitos colaterais que a sua presença pode provocar em quem surgir pelo caminho. E por fim, Jorge tem um objectivo definido desde o início, a sua aparição na lavandaria não é aleatória, embora as razões não sejam claras para nós, o que adensa o mistério e desconfiança em torno de si. Estes elementos são utilizados como peças de xadrez num jogo muito bem calculado para que o xeque-mate suceda no momento certo.
Para uma história com estas características específicas de um só local, a exigência para com o elenco sobe significativamente, requerendo uma disciplina mais habitual em teatro do que em trabalho de câmera, pedindo uma atenção extra de cada um em relação ao próximo e uma concentração acrescida para se manter presente na cena mais tempo do que o normal. O resultado final revela um trabalho de equipa notável entre Ricardo Leite e o grupo de actores. Todos têm uma importância equivalente e conhecem bastante bem o que acrescentam à história, Catarina Avelar, Dinarte Branco, Vítor Nuno Silva, Diana Lara e Ana Marta Ferreira seguram a bitola bem lá em cima, mas é impossível não destacar Rodrigo Saraiva e Paulo Calatré pelas transformações realizadas por ambos em relação ao que por norma têm oportunidade de fazer. As escolhas de Rodrigo tornam Santos Milhões num homem muito mais profundo do que um simples “tolo” da aldeia, enriquecendo a personagem com uma tremenda entrega na credibilização de alguém facilmente descurado e desvalorizado pela maioria. Calatré ataca com um Jorge felino, de olhar aguçado e discurso que guarda um lobo à espreita, em pelo de cordeiro, que faz gelar o sangue de qualquer um. Nota também para o elenco adicional, com Soraia Sousa e Nuno Janeiro à cabeça, respeitando o tom e ritmo criado nos primeiros episódios.
A sociedade actual muitas vezes parece viver uma política de “cada um por si” e de incapacidade em cada pessoa se colocar num lugar que não o seu. Este contexto de vários desconhecidos presos numa lavandaria pública e com motivações distintas funciona quase como um estudo sociológico. A qualidade irrepreensível do departamento de arte por pouco não nos faz confundir ficção com um documentário, mas no final de contas Algodão a Frio oferece comportamento humano verosímil, sem esquecer o entretenimento. Um triunfo tuga a pedir e merecer continuidade.