Crítica | Hamnet (2025)

Ser ou Não Ser, eis a questão.

Uma citação que pode ser acusada de cliché. Conhecida por todos. Repetida até ao fim dos tempos. No entanto, estas palavras sobreviveram mais de 400 anos porque continuam a capturar a nossa dor, a nossa angústia, o espectro das emoções humanas. A arte, a melhor arte, com cuidado, atenção e amor dos seus criadores e do seu público consegue simplesmente ser. Acredito que Hamnet, de Chloé Zhao, vai ficar comigo.

Baseado no romance homónimo de Maggie O’Farrell, esta é a história do romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal), a paixão que floresceu entre ambos, e a vida e a morte que inspirou um dos maiores contos de Shakespeare, Hamlet. Chloé Zhao compõe um filme simples mas de emoções complexas. A realizadora reveste este conto com as temáticas que perseguiram eternamente o celebrado autor nas suas peças: amor, morte, destino e o livre arbítrio. Momentos definitivos para estas personagens são filmados na perspectiva de Deus, aliás do nosso verdadeiro Deus – a natureza, como se as suas vidas estivessem traçadas nos caules, o seu sofrimento nas raízes e o seu amor no fruto.

Na extraordinária fotografia de Łukasz Żal, coberta com verdes e castanhos, sentimos o cheiro da madeira húmida, do musgo nas árvores, a textura das pedras molhadas, o aperto do solo debaixo dos nossos pés, o toque de um vestido encarnado roubado pela chuva. São imagens sublunares que transportam-nos para um mundo espiritual, idêntico à nossa realidade, onde os ramos abraçam as nossas mentes e as folhas cobrem os nossos corpos. Nos seus frames, a escuridão chama pelas nossas almas enquanto as nuvens do céu cantam para ficarmos. Neste azul celeste, notas musicais caem como lágrimas – um dilúvio causado por Max Ritcher que rega os campos com uma harmonia enfeitiçada e sons doces, tocantes e envenenados. Podemos acusar o artista de repetir excessivamente a sua famosa composição, On the Nature of Daylight, no cinema (especialmente em filmes sobre luto). Eu diria Ser ou Não Ser? O seu impacto permanece celestial.

Ainda assim, este paraíso cinematográfico carece de significado sem a humanidade presente neste magnífico elenco para pintar a sua paisagem. Agnes, uma mulher referida constantemente como a filha de uma bruxa, uma pessoa que consegue ver o que os outros não conseguem, é interpretada magistralmente por Jessie Buckley. Os seus olhos revelam infinitudes, realidades desconhecidas, todavia completamente sentidas. Os seus gritos de desgosto e aflição partem o nosso coração com a mesma velocidade que um sorriso seu consegue nos remediar. Tem sido mencionada como a favorita aos Oscars e mesmo com uma competição excessivamente forte, com inúmeras prestações de acting fenomenais, é impossível não atirar um ramo para as suas mãos. Ao seu lado, ficamos naturalmente apaixonados pelo encanto de Paul Mescal, a encarnar Shakespeare com bondade e soturnidade; um homem desolado pela sua família, à procura de criar uma desprovida da violência que experienciou na sua infância. Marcado pelo silêncio, pela restrição, pelas suas obrigações como filho mais velho, e pela brutalidade que ergueu uma ponte para a sua imaginação, onde Will é convocado a exprimir o que a sua voz é incapaz, num palco. A dupla é absolutamente maravilhosa. Aliás, todos os actores nesta produção são fantásticos, desde as crianças até aos extras que assistem o espectáculo. É tudo demasiado forte para não sentirmos na nossa pele. Somos compelidos a estender a mão a estas personagens, perdidos e descobertos nas suas actuações.

Apesar da sua linguagem floreal, Shakespeare escrevia propositadamente histórias simples para aprofundar as suas emoções. Ele acreditava que o povo merecia compreender estes contos, para poderem ouvir, ver e encontrar o que procuram nas suas vidas, dentro da arte. Hamnet é previsível, é directo nas suas palavras, sem twists narrativos ou elementos técnicos complicados. Não pretende surpreender na sua jornada. Quer contar uma história. Esse é o seu poder. É um filme que quer dar ao seu público aquilo que procura na vida. O resto é silêncio. Só posso falar por mim próprio mas eu encontrei o que procurava. Um conto intenso, emocionalmente devastador mas sempre telúrico. Uma história que recusa enterrar o público num caixão, escolhendo carregar-nos nos seus braços, enrolados num airoso lençol branco, até à terra, onde diante de todo o sofrimento, ainda podemos continuar a ouvir o universo a cantar para nós.

5/5

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