Eu tenho um propósito. Se achas que isso é uma espécie de bênção, não é.
Sonhar tem se tornado um exercício progressivamente mais difícil. Atualmente, herdamos uma dívida pesada. As instabilidades sentidas, nas mais diversas vertentes do quotidiano, impregnam-se no inconsciente coletivo da nossa sociedade, traduzindo-se numa apatia e ceticismo generalizados que entenebrecem qualquer ambição individual percecionada como marginal. A mais recente obra de Josh Safdie é um dos gritos de revolta no meio desta passividade cultural.
Vagamente baseado na carreira do mítico tenista de mesa americano Marty Reisman, Marty Supreme conta a história da sua insurgência, através de Marty Mauser (Timothée Chalamet), part-time vendedor de sapatos e vigarista, full-time jogador de ping-pong. À semelhança de Reisman, Mauser tem como objetivo de vida a tarefa hercúlea de se tornar o melhor do mundo e, consequentemente, cimentar-se enquanto face do ténis de mesa americano. Infelizmente para Marty, o desporto não apaixona o país da mesma forma, obrigando o jovem a procurar desesperadamente todas as formas de financiamento possível apenas para garantir a sua participação em competições internacionais. O resultado é um embate furioso entre a ambição individual e a coerção de uma sociedade que levam à destruição do comportamento ético para alavancar qualquer vantagem possível.
Tendo Nova-Iorque dos anos 50’ como palco, a narrativa utiliza eficazmente o seu contexto histórico-cultural para elevar o peso de cada ação. Com as feridas de uma guerra mundial ainda a sarar, Marty, enquanto jovem judeu, vê-se num mundo polarizado, marcado pelas memórias de um ódio tão profundo que apagou da existência grande parte do seu povo. Talvez resida aí a ambição de Mauser. Um desejo estrutural pela imortalidade intocada por eventos externos, um reconhecimento coletivo da sua existência e valor num campo em que é, indiscutivelmente, melhor que os outros.
Um sucessor espiritual das colaborações de Josh Safdie com o seu irmão Benny, em Good Time (2017) e Uncut Gems (2019) ancoradas tematicamente num anti-herói que personifica uma realidade nova-iorquina marginal, Marty Supreme herda, em grande medida, a dimensão e impacto formal de ambas as obras. Esta observação não será de todo uma surpresa ao verificar-se que a equipa nuclear, presente na colaboração anterior – à exceção de Benny que procurou, de igual forma, realizar um filme biográfico solo em The Smashing Machine (2025) – manteve-se praticamente intacta, com as presenças do argumentista e editor Ronald Bronstein e o diretor de fotografia Darius Khondji. Naturalmente, o trio consegue captar, de forma eficaz, a ambientação necessária para complementar a força da sua narrativa. A montagem frenética ilustra perfeitamente as flutuações emocionais de Marty e restante elenco que vão do céu ao inferno em segundos. De igual modo, a aposta numa composição, maioritariamente, vertical e iluminada de alto impede que atenção da audiência se disperse pelos detalhados cenários de época desenhados por Jack Fisk que, indiretamente, sustentam o peso do contexto histórico na narrativa.
É, decerto, possível provocar Safdie com o seu claro fascínio por este lado mais infernal de Nova Iorque à la Scorsese que vai monopolizando a sua filmografia. Contudo, será imprudente assumir que esta obra é uma repetição puramente estética das suas percursoras. Ao analisarmos esta relação sociedade-indivíduo, é possível observar uma diferença basilar entre Marty, Connie e Howard. Os protagonistas das anteriores obras de Safdie não lutavam contra um contexto sociocultural adverso, aproveitavam-se dele. Mauser quer desesperadamente escapar deste cenário, sendo forçado a desenvolver uma persona exagerada de si próprio para materializar a realidade que sempre ambicionou. Nesse sentido, Mauser, enquanto protagonista, estará mais próximo de Eddie Felton em The Hustler (1961) e The Color of Money (1986) do que dos seus parentes de filmografia. Contudo, é importante destacar que esta atuação junguiana revela o pior em Marty, com o personagem a tentar compensar, não olhando para consequências, as imposições de uma sociedade castradora de modo a contrariar a sua posição social.
O embate é carregado por uma performance magnética de Chalamet que vai, habilmente, alternando entre a confiança megalómana e o cansaço da sua farsa. O ator consegue entregar a urgência da personagem de tal forma que atinge perfeitamente as nuances desta máscara que Marty vai colocando e, apenas por breves momentos, deixa cair. Odessa A’zion é também um destaque na interpretação de Rachel Mizler que, ao lado de Gwyneth Paltrow (Kay Stone) se apresentam enquanto pares românticos do protagonista e personificam, enquanto “objetos” de desejo, o conflito interno entre quem este é e quem deseja ser. O restante elenco é surpreendentemente eficaz nos seus papéis, nomeadamente, os estreantes Tyler, The Creator (Wally), Kevin O’Leary (Milton Rockwell) e Koto Kawaguchi que, no papel do silencioso némesis Koto Endo, amplia não só o discurso da obra na sua dimensão histórico-desportiva, contrapondo um jogador fortemente apoiado pela infraestrutura do seu país a alguém que não sabe como pagará a próxima refeição, mas também personificando num oponente a ambição idealizada de Mauser.
Marty Supreme é, acima de tudo, uma revolta contra a mediocridade. A afirmação de que a nossa paixão, independentemente de qual for, tem lugar neste mundo. É, portanto, uma história de aceitação da nossa condição, limitações individuais e da força do comunitarismo. Nunca venceremos sozinhos, então sonhemos em grande!