Crítica | Eleanor the Great (2025)

Eleanor the Great é um filme que aborda com grande sensibilidade e sem clichês o recorrente tema da velhice como território de invisibilidade social. Não apenas a solidão física está no centro, mas a simbólica. A ideia de que, a partir de certa idade, deixamos de ser prioridade, deixamos de ser “história em curso” e passamos a ser ruído de fundo. É aqui que o filme é moralmente provocador. Ao colocar uma personagem idosa no centro, ele não pede pena. Propõe reflexão. E, sobretudo, faz uma pergunta desconfortável: o que acontece quando a única forma de seres visto é inventares uma versão de ti que o mundo esteja disposto a escutar?

Assim, a mentira surge não como truque gratuito, mas como estratégia de sobrevivência emocional. Pode ser condenável, mas o filme empurra-nos para um lugar mais difícil: o da compreensão. Há mentiras que não nascem do cinismo ou de olho na tentativa de se aproveitar dos outros, assim como há verdades que só se conseguem dizer disfarçadas. Nesse caminho, Eleanor (June Squibb, indicada ao Oscar por Nebraska), uma mulher de 94 anos, perde a sua melhor amiga e vê-se arrancada do pouco equilíbrio que tinha construído para essa etapa da sua vida. Entre o luto e a deslocação, ela muda de cidade e tenta recomeçar com a filha e o neto. Um dia, ela entra por engano num espaço onde se depara com um grupo que carrega histórias de dor absoluta e, por impulso, por carência, por desejo de ligação, assume para si um relato que não é seu. A partir daí, forma-se uma amizade improvável dela com uma jovem estudante, e sua “história” ganha vida própria – primeiro como ponte afectiva, depois como problema ético e finalmente como espelho para o peso do luto e a fome de sentido.

Fora da pele da Viúva Negra, e de tantos outros papeis que marcaram sua carreira, Scarlett Johansson surpreende positivamente na sua estreia na realização. Ela mostra segurança no seu primeiro filme, que é sóbrio e, apesar dos momentos de humor, depende de atuações nem acima, nem abaixo do tom. Eleanor the Great pode ser apontado como exemplo do que se chama de “filme de actores”, o que exige ainda mais cuidado de quem comanda as filmagens. O seu olhar mostra-se mais interessado no interior do que no exterior, mais no que se evita dizer do que no que se grita. E é isso que sustenta o filme: um realismo emocional que não se constrói com grandes artifícios, mas com o rigor de colocar a câmara onde dói e manter-se lá tempo suficiente para incomodar.

Eleanor the Great é também o primeiro argumento de Tory Kamen, que consegue chegar à qualidade de não transformar a premissa numa lição de moral, e sim numa situação humana. O filme poderia cair facilmente no melodrama edificante ou no castigo moralista, mas resiste. Em vez de fazer as personagens escolherem entre “bem” e “mal”, o texto obriga-as a escolher entre dor e sobrevivência. Tudo isso trazido à luz por mais um belo trabalho de fotografia de Hélène Louvart. Depois da série L’amica Geniale (2018-2024) e de filmes como os recentes Reading Lolita in Tehran (2024) e The Salt Path (2024), e do excelente brasileiro A Vida Invisível (2019), ela ajuda a dar corpo a essa ambiguidade. O olhar é delicado, realista, porém humano, sem embelezamento gratuito, o que de facto ilumina a atuação de um elenco que tem a colaboração de actores como a também experiente Rita Zohar, a jovem Erin Kellyman e Chiwetel Ejiofor, nomeado ao Oscar por 12 Years a Slave (2013).

June Squibb é o pilar absoluto. Não apenas pela idade, impressionante por si, mas pela forma como carrega uma personagem complexa com uma naturalidade desarmante. Eleanor é divertida, sim, mas também é frágil, teimosa, contraditória, egoísta em pequenos detalhes e comovente nos lugares que não pedem aplauso. Kellyman funciona como contraponto geracional de uma juventude que procura sentido, que romantiza a verdade, mas que também está ferida e à deriva. Ejiofor dá densidade emocional à história, trazendo o peso de quem tenta manter a vida de pé enquanto tudo por dentro está em ruínas. E Zohar, mesmo quando aparece como presença narrativa e emocional, é decisiva: representa aquilo que a memória guarda como ferida e como herança.

O filme tem coragem ao mostrar a terceira idade sem a reduzir à santidade nem à decadência. Ao colocar a possibilidade de intimidade – inclusive sexual – no horizonte de Eleanor, o filme faz algo político sem gritar, que é recusar a ideia de que a velhice é o fim da vida interior. É a proximidade do fim da vida, decerto, o fim de certas ilusões, talvez, mas não o fim do afecto. Sob outro aspeto, a mentira apresenta-se não como tragédia, e sim como uma forma de superar a morte. Eleanor está de luto, que aqui não é feito de lágrimas, mas de deslocação, perda literal de chão. Neste contexto, a mentira é quase uma prótese emocional. O filme acerta na ideia de que qualquer possível redenção raramente nasce do isolamento. Eleanor the Great é sobre o encontro e o conforto que só se encontra no outro.

Sobre a questão ética que envolve a mentira, é interessante como o rabino conta à Eleanor a fábula bíblica dos gémeos Jacob e Esau. A história é mais conhecida porque o primogénito vendeu o seu direito à herança para Jacob em troca de um prato de lentilhas. Só que o que é visto como trapaça, também pode ser visto como a vontade divina de alguém que estava destinado a ser o pai do povo de Israel. A questão colocada é: até que ponto mentir é errado? Na situação mais específica de Eleanor, se uma história contada deixa de ser apenas de quem a viveu, e se quem a contou gostaria que mais pessoas soubessem, justifica-se o artifício? No fundo, Eleanor the Great pergunta: o que é mais sagrado – a verdade exacta ou a verdade humana?

Sem ser genial, o filme é uma obra muito humana e agradável.

3.5/5

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