Crítica | Train Dreams (2025)

Train Dreams é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador sensível e solitário que vive no noroeste dos Estados Unidos da América desnorteado pela aparente falta de sentido da sua vida e dos acontecimentos em volta dela. O trailer é melhor do que o filme, isto porque a história parece querer extrair poesia da vida comum que retrata, mas não sustenta, no tempo de uma longa-metragem, tudo o que a linguagem poética deixa por dizer. Assim, os silêncios e plurissignificados oriundos das múltiplas conotações que uma mesma palavra tem, são sufocados pelo melodrama e uma opção por deixar tudo explicado depois de 1h42.

Contribui para essa sensação a bela fotografia que se vê no trailer, mas que, durante a exibição, logo leva a questionar os motivos de terem feito um filme inteiro, com paisagens tão belas, num formato de imagem curta. O diretor de fotografia de Train Dreams, o brasileiro Adolpho Veloso, disse que a ideia de usar o formato 3:2 foi inspirada nas fotos antigas de exploração madeireira dos anos 1920. “As memórias, penso eu, estão associadas ao rácio de aspeto que encontras em fotografias antigas, ou até em fotos novas no teu telemóvel. Usámos isso para transmitir a sensação de que estás a olhar através de memórias e a construir uma vida a partir dessas imagens.

Veloso foi nomeado ao prémio da American Society of Cinematographers pela sua colaboração anterior com o realizador Clint Bentley por Jockey (2021). De facto, a fotografia aqui não é tecnicamente má. Ela usa muita luz natural e um foco no rosto do protagonista. A solução, entretanto, parece realmente servir mais ao drama do que à poesia, e nesse aspeto a história não oferece nada de excecional. Como diz a personagem da nomeada ao Óscar de Melhor Atriz Secundária por The Banshees of Inisherin (2022), Kerry Condon (enquanto não vemos seu rosto por causa da proporção de imagem): “O mundo é um lugar antigo. Provavelmente não há nada que ele não tenha visto.

Assim, a fotografia procura agarrar essa oportunidade de oferecer uma janela para o “mundo antigo”. Em tempos de inteligência artificial generativa, contudo, quando se vê nas redes sociais os extraterrestres que, “de facto”, como as imagens “comprovam”, trabalharam na construção das pirâmides do Egito, não é mais garantido ver para crer. Ainda que as palavras também estejam desvalorizadas pela tecnologia, é na abstração da linguagem que pode estar alguma saída para o sentido que ainda se busca sobre de onde viemos e para onde vamos. É aí que o filme falha na promessa inicial ao oferecer uma breve experiência, que seja, desse mundo antigo, por intermédio da poesia. De outra forma, apesar do flerte com a abstração poética, Train Dreams faz uma aposta na literalidade expressa nas explicações detalhistas e nas fotos realistas. Como diria Zaratustra: “Será possível! Esses homens de cinema não ouviram na sua floresta que o realismo está morto!”

Enquanto o trailer do filme pode gerar a expetativa de sensações como as provocadas por The Thin Red Line (1998), a longa-metragem não faz jus à obra poética e filosófica que Terrence Malick erigiu sobre a Batalha de Guadalcanal, com base no romance autobiográfico passado na Segunda Guerra Mundial. Train Dreams também é baseado em material literário, a premiada novella homónima escrita por Denis Johnson. Outro caminho que não funciona bem, neste sentido, é o argumento optar por um narrador externo que explica a história e os sentimentos do protagonista. Num filme que escolhe usar este aspect ratio, entre outros motivos, para retratar mais intimamente o rosto de Joel Edgerton – numa bela atuação contida e que foge do óbvio –, a adição de narração é como explicar a piada para garantir que o público vai entendê-la e rir. Obviamente, o efeito acaba por ser o contrário.

Uma alternativa seria o narrador ser utilizado para comentários mais poético-filosóficos, como o da abertura: “Houve uma vez passagens para o mundo antigo. Trilhas estranhas. Passagens secretas. Viravas uma esquina e de repente encontravas-te cara a cara com o grande mistério, a fundação de tudo. E mesmo que esse mundo já não exista, que já tenha sido enrolado como um pergaminho e guardado em algum lugar, ainda se sente o seu eco.

Train Dreams vale pelo filme de uma geração que poderia ter sido. Ainda sim, vale, até por apontar para esse mundo antigo, mítico e de sonhos que se encontra realizado com mais consistência e maestria noutro filme que talvez pudesse ser mais aclamado, se lançado hoje: Dreams (1990), de Akira Kurosawa.

3/5

Related posts

Crítica | Alice, Sweet Alice (1976)

Crítica | Send Help (2026)

Crítica | Kidnapped: Elizabeth Smart (2026)