Rescaldo da 2ª Edição do Tribeca Festival Lisboa: “Yes, We Can”

Aconteceu nos dias 30, 31 de Outubro e 1 de Novembro de 2025, a segunda edição do Tribeca Festival Lisboa, que trouxe, do famoso bairro de Nova Iorque até ao Beato, os maiores nomes do talento norte-americano para conversas inéditas e estreias exclusivas de cinema e televisão.

Mentoria é a chave”, explicou Jane Rosenthal, uma das criadoras do Tribeca Festival, em 2002, em Nova York, com o seu então marido, Craig Hatkoff, e o ator Robert De Niro. “Porque todas as pessoas têm a sua arte e a capacidade de contar histórias dentro de si, mas às vezes não sabem como o fazer e isso consegue ser muito humilhante. Então, ser capaz de criar essa comunidade que pode apoiar em todos os diferentes estágios da carreira, isso é o que o Tribeca sempre foi, e o Tribeca Festival Lisboa também será”, completou.

Rosenthal esteve com o CEO do Grupo Impresa, Francisco Balsemão, e o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, numa apresentação antes do almoço com um seleto grupo de convidados que incluiu artistas como Kim Cattrall e o onipresente Joaquim de Almeida, que circulou por todos os dias em eventos do festival. Moedas falou sobre as potencialidades que procuram desenvolver em Lisboa. Segundo ele, há mais um unicórnio, ou seja, uma empresa de tecnologia com valor de mercado superior a mil milhões de dólares, que está prestes a se estabelecer na cidade, a vir de São Francisco. “Yes, we can”, exclamou, a corrigir-se de imediato e a negar a intenção de ecoar o slogan da campanha de Barack Obama à presidência dos EUA.

Só o facto de estarmos todos na sala, juntos, tantas vozes diferentes, isso é parte do que as cidades e os países são. Essas vozes diferentes podem ser elevadas e contar histórias que podem mudar corações e mentes de formas diferentes do que os políticos podem, especialmente em tempos em que a estrada parece tão fora do eixo, como os EUA parecem agora, e na cidade de Nova Iorque. A voz dos artistas soa verdadeira, e existem essas vozes aqui que nós podemos celebrar em Lisboa, ao trazê-las para o Tribeca também”, avaliou Jane Rosenthal.

“YES, WE CAN” À LA TRIBECA.

Houve outros momentos de “yes, we can” genuínos no festival, como quando Matiss Kaza, produtor de Flow (2024), participou no podcastFilming in Portugal: See the Big Picture”, no palco The Studio. O entrevistador não perguntou nada efetivamente sobre filmar em Portugal, mas sobre a longa-metragem vencedora do Oscar de Melhor Filme de Animação em 2025. Kaza nasceu na Suécia, foi criado na Letónia e estudou cinema nos EUA. Com orçamento de 3,5 milhões de euros, Flow foi uma das produções mais caras da história da Letónia, só viável por também envolver produtores belgas e franceses. Kaza contou a sua trajetória dos documentários, para os filmes com atores e agora as animações, estágio este que deixa a sua mãe – realizadora formada no Moscow Film School – inconformada. “Porque é que estás agora a fazer filmes para crianças?”, ela questiona. Ele explica que trabalha com animação para adultos, mas revelou que, depois de receber o Oscar, ela ligou para lhe dar os parabéns e brincou: “Afinal, se os filmes são para adultos, porque é que só ganhaste o Óscar de animação?

O palco que reuniu o maior número de celebridades foi o Lisboa Stage, que contou com diversos debates como “O Politicamente Correto e a Cultura do Cancelamento”, com a participação de Ricardo Araújo Pereira, e “Histórias como Ponte para a Empatia”, que teve a estrela do filme O Riso e a Faca (2025), Cleo Diára, como uma das debatedoras. Foi no The Auditorium, no entanto, onde se podia conhecer melhor Lilian T. Mehrel, realizadora de Honeyjoon (2025), que estreou nesta edição do Tribeca. Em junho de 2024, Mehrel ganhou o prémio de 1 milhão de dólares do Tribeca AT&T Untold Stories, no Tribeca Festival, em Nova Iorque. O pitch de Honeyjoon, ainda como uma ideia, depois de ela ter feito uma viagem aos Açores, foi o escolhido, mas o desafio era realizar a sua primeira longa dentro de um ano, para esta ser apresentada no Tribeca Festival em junho de 2025.

Pela ideia apresentada pela realizadora, o desafio era ainda maior, por se tratar de uma produção internacional. Mehrel revelou que escreveu o argumento em três semanas e, sobre a experiência de filmar, particularmente um filme com muitas cenas ao ar livre e nos Açores, que tem um clima bastante instável, disse que “acidentes bonitos acontecem”. Ou seja, há muitos fatores que fogem ao controlo do realizador, mas para ela isso acaba por trazer mais verdade para a história. Em sintonia com Jane Rosenthal, ela destacou a necessidade de o artista descobrir a sua própria voz: “O cinema é uma arte referencial, então as pessoas vão para a escola de cinema para aprender a emular outras pessoas. É importante seres tu próprio.

CELEBRIDADES

Entre as estrelas de Hollywood, a que atraiu o maior número de fotógrafos foi Meg Ryan, diante de quem as questões sempre giram em torno das comédias românticas. A atriz mencionou ter feito “uns 40 filmes, só 8 comédias românticas, mas foram esses que ficaram”. “Imensas pessoas dizem que vêem os meus filmes quando estão doentes”, comentou para risos dos jornalistas. A sua filha de 21 anos vê comédias românticas, partilhou a atriz a lembrar a felicidade que teve de fazer os filmes memoráveis de Nora Ephron, como Sleepless in Seatle (1993) e You’ve Got Mail (1998). Isso para não falar de When Harry Met Sally (1989), escrito por Ephron e realizado por Rob Reiner, que será sempre lembrado pela cena de Meg Ryan com Billy Crystal na cafetaria. Pela primeira vez em Portugal, ela veio especialmente para o Tribeca Lisboa, mas revelou o desejo de ainda conhecer Nazaré, para ver se “aquelas ondas de 30 metros são mesmo reais”.

Giancarlo Esposito foi outro artista que chamou a atenção, com presença em diferentes dias e debates. Enviei mensagem ao meu filho de 20 anos a dizer que estava com Stan Edgar, de The Boys (2019-). Ele respondeu mais rápido do que sempre: “Gus Fring!”. O vilão de Breaking Bad (2008-2013) é muito atencioso e contou que vê um festival como o Tribeca pelo seu potencial de expandir mentes, além do seu impacto económico. Ele espera que Portugal, que disse ser um país com belas paisagens e um povo acolhedor, possa usar também o festival para aprender mais com quem “chegou lá”, para poder contar as suas próprias histórias.

A noite de abertura foi com o novo filme de Julian Schnabel, In the Hand of Dante (2025), com Oscar Isaac e participações de Martin Scorsese, Al Pacino, Gerard Butler, Jason Momoa, Gal Gadot e John Malkovich. Do debate com o realizador, no cinema montado no Convento do Beato, até à apresentação de Honeyjoon, no último dia, na tela instalada no Teatro Ibérico, tudo passou muito rápido. Das lições que a organização do festival aprendeu do ano passado, Francisco Balsemão celebrou a possibilidade de fazer um Tribeca Lisboa “o mais pluralista possível”, com conversas “ainda mais sobre storytelling e a possibilidade do público interagir com quem está no palco”. “Não podemos controlar tudo, não podemos controlar o clima, por exemplo (choveu muito no segundo dia). O que podemos fazer é sempre tentar aprimorar”, concluiu.

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1 comentário

Crítica | Jay Kelly (2025) - Fio Condutor 13 de Dezembro, 2025 - 23:33
[…] seres tu próprio.” Esta frase foi dita pela realizadora Lilian T. Mehrel, no Tribeca Lisboa de 2025. Ela talvez explique um pouco do desinteresse que Jay Kelly pode provocar no público. […]
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