Em The Elixir, realizado por Kimo Stamboel e co-escrito por Agasyah Karim e Khalid Kashogi, o novo filme indonésio disponível na Netflix leva-nos até uma vila isolada onde Sadimin (Lukman Sardi), um humilde herbalista, tenta sustentar a família através dos seus remédios naturais. No entanto, ao descobrir uma misteriosa fórmula capaz de reverter o envelhecimento humano, a sua vida transforma-se num pesadelo. O que começa como um drama familiar sobre legado, amor e ressentimento, rapidamente se distorce num thriller de sobrevivência com tons de body horror e elementos de zombie outbreak, onde a busca pela juventude eterna se revela uma maldição.
O realizador indonésio aposta aqui numa mistura ambiciosa de géneros, combinando o drama intimista com o terror grotesco, e é precisamente nessa mistura que o filme mais surpreende e, ao mesmo tempo, mais se perde. Visualmente, The Elixir é um exercício impressionante de textura e atmosfera: a fotografia húmida e escura reforça a decadência física das personagens e a deterioração moral que o elixir provoca. Stamboel mostra-se competente na forma como utiliza o espaço rural e a sua luz natural para construir desconforto, e há planos que ecoam o cinema de David Cronenberg e Na Hong-jin, mas com uma sensibilidade local que lhe dá identidade própria.
Onde o filme começa a fraquejar é no argumento e na direção de atores. Sadimin (Lukman Sardi) carrega o filme com um desempenho convincente, conseguindo expressar o desespero e a culpa de quem vê a própria criação fugir-lhe das mãos. No entanto, o resto do elenco nem sempre acompanha a mesma intensidade: Karina (Putri Ayudya), no papel da esposa, parece limitada pelo guião, e Kens (Yoga Pratama), como o amigo próximo, serve mais como engrenagem da narrativa do que como personagem com vida própria. O drama familiar, que poderia ser o coração do filme, acaba por ficar soterrado debaixo das repetições e de um ritmo que se torna cada vez mais previsível.
Tal como Old (2021), de M. Night Shyamalan, também The Elixir procura explorar a passagem do tempo através da deterioração física e do medo existencial que daí resulta. Ambos os filmes abordam o tema da mortalidade e da obsessão humana por controlar o inevitável, misturando elementos de thriller psicológico, body horror e terror filosófico. No entanto, partilham igualmente as suas fragilidades: uma escrita que não acompanha a força do conceito e interpretações que raramente conferem verdadeira profundidade emocional às personagens. Tanto Shyamalan como Stamboel constroem universos visuais interessantes, mas acabam por tropeçar na execução, deixando ideias fascinantes à superfície sem nunca as desenvolver plenamente.
O grande problema deste filme é também o seu tom irregular. Por vezes leva-se demasiado a sério, outras vezes abraça o absurdo do seu conceito, criando um desequilíbrio que impede o espectador de se envolver por completo. A narrativa arranca com força, mas vai perdendo fôlego à medida que o horror cresce, e o que começa por ser uma reflexão sobre a ambição humana transforma-se num desfile de efeitos visuais eficazes, mas vazios. Mesmo assim, há mérito na tentativa de trazer o cinema de género indonésio para um terreno mais internacional – e Stamboel, apesar das falhas, prova ser um realizador com visão e ambição.
Com uma premissa promissora e um visual marcante, The Elixir acaba por ser uma experiência curiosa, ainda que desigual. Não atinge o terror puro, nem o drama profundo que promete, mas oferece o suficiente para entreter quem procura um zombie flick exótico e bem filmado. No fim, é um filme que não aterroriza, mas entretém – um elixir que promete juventude, mas cuja fórmula ainda precisa de maturar.