Saudade, essa palavra tão cara à língua portuguesa e tão bem representada pelo mar e os mistérios que ele traz para quem parte, talvez seja a melhor definição para Honeyjoon. O filme é uma viagem ao passado e, num plano mais literal, aos Açores, numa história que transborda tanta tristeza que poderia ser cantada em fado, não fossem as doses de bom humor que a temperam.
Lela (Amira Casar, de Call Me By Your Name – 2017), uma mãe curda-persa, e a sua jovem filha June (Ayden Mayeri, “uma Anne Hathaway iraniana”, na definição da realizadora), duas pessoas muito diferentes que já não vivem juntas na mesma casa, viajam para tentar lidar com o luto. Sem saber, hospedam-se num hotel conhecido por receber casais em lua-de-mel. Para não participarem nas atividades programadas para este público, elas contratam um guia local (José Condessa, de Rabo de Peixe, 2023-), para levá-las a conhecer a ilha.
A ideia da primeira longa-metragem de Lilian T. Mehrel surgiu de seu próprio luto, pela perda do pai. Assim, ela venceu, em 2024, o pitch do Tribeca Festival AT&T Untold Stories, uma competição que lhe rendeu 1 milhão de dólares para fazer este filme. O desafio era produzir uma longa-metragem em menos de um ano, para estrear na próxima edição do Tribeca Festival de Nova Iorque, em 2025. A realizadora cumpriu a missão com louvor, considerando que entregou uma história com um arco perfeito e contada por um casting que surpreende: um astro português em ascensão, José Condessa, em excelente química com uma estrela já estabelecida em papeis menores de Hollywood, Ayden Mayeri, e uma das principais atrizes de uma das produções mais aplaudidas de anos recentes, Amira Casar.
Do ponto de vista artístico, entretanto, a falta de ritmo é um problema que precisa de ser apontado em Honeyjoon. O produto final tem apenas 75 minutos, quase sem conseguir ser apresentado como uma longa-metragem. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais a realizadora não imprimiu mais velocidade às cenas, que podia ter conferido mais dinamismo a todo o filme. Até porque o argumento é da própria Lilian T. Mehrel. Conduzido por outra maestrina, até pelas ambições no campo da comédia que o filme parece ter, é certo que seria necessária uma revisão do argumento, para adicionar mais cenas. Com o arco principal bem estabelecido, a solução poderia passar por acrescentar diálogos sobre qualquer tema para aprofundar o mundo ou as personagens, como fazem mestres de estilos tão diversos como Woody Allen e Quentin Tarantino.
No ritmo em que se apresenta, o filme desponta ainda mais dramático no ecrâ, com mesmo a comédia a soar, se não como mera parte da tragédia inelutável da vida, como melancolia, essa forma de tristeza que não se assume como tal. E que fica, mesmo quando se chega ao Paraíso.