Os ecos dos E.U.A. actuais reverberam bem alto no novo filme de Francis Lawrence. Não é preciso ser um génio, ou ter o dom da adivinhação, para perceber que a política norte americana caminha, cada vez mais, para um precipício ético e moral, num momento da história humana em que a empatia e a decência humana são um “luxo” cada vez mais difícil de obter. A sociedade distópica, presente neste The Long Walk, não parece tanto uma miragem mas quase uma certeza futura. Este seria o tempo ideal para colocar o dedo na ferida e de provocar uma reacção nos espectadores, com este argumento. As prioridades ainda são outras e só esperamos, para o bem de todos, que mudem brevemente. Para o bem do planeta Terra.
Numa América dilacerada por uma grande Guerra, num futuro não muito longínquo, existe um concurso anual chamado “The Long Walk” a que jovens masculinos podem-se candidatar a participar voluntariamente. Após uma selecção aleatória, entre os milhares de concorrentes, são escolhidos 50 para lutar pela vitória e receber o grande prémio final. Esta é uma caminhada sem meta definida onde apenas o mais forte sobreviverá.
JT Mollner (argumentista) promete uma revolução com a adaptação do livro de Stephen King (mais um, é verdade), mas o que obtemos é algo bem diferente, e as notícias não são boas. Seria sempre uma adaptação difícil da página para a imagem, com uma narrativa passada dentro dos confins de uma estrada, que conta com um número finito de personagens e uma meta não definida. Tudo dependeria das suas personagens, das suas motivações e dificuldades e da revelação do mundo distópico em que se deslocam. Se no lado das personagens existem alguns bons sinais, com um elenco talentoso mas nem sempre bem aproveitado na sua totalidade, no lado da construção do mundo em que se deslocam é um rotundo falhanço. Nunca se sente, durante a caminhada, o que está em jogo para cada um deles para além do prémio monetário e de uma aparente vida melhor. Com a excepção de Raymond, interpretado por Cooper Hoffman, todos os voluntários parecem órfãos de uma âncora emocional, telegrafando totalmente quase todo o argumento do filme para o espectador. As mortes vão-se sucedendo, previsivelmente, uma a uma sem grande impacto emocional e sem grande sentido de entretenimento.
A repetição é um sentimento constante mas a salvação acaba por chegar pelo diálogo estabelecido e a camaradagem criada entre Raymond e Peter, este interpretado por David Jonsson, que quase opera o milagre sem grande ajuda da narrativa. O herói é a personagem de Cooper Hoffman mas o olhar gravita sempre para Jonsson, um verdadeiro ilustre desconhecido. Mark Hamill, interpretando “The Major”, também está aqui mas é a maior desilusão do elenco não pela falta de talento, que o tem a rodos, mas devido ao uso que o argumento lhe dá. Era um papel fundamental para pintar a liderança desta América, perdida de valores e de empatia mas apenas lhe é dado um miserável tempo de ecrã e meia dúzia de frases, carregada de lugares comuns, para o fazer. É insuficiente e prejudica a ligação do espectador com os seus heróis e com a mudança que pretendem operar no seu mundo. Visualmente é aborrecido, sem vislumbres ou tentativas de mostrar algo diferente e optando sempre pelas mesmas soluções, competente sem dúvida mas cansativo ao fim de pouco tempo. A nível sonoro existem sinais de qualidade superior e uma maior atenção ao ambiente criado, e no equilíbrio entre os silêncio e os sons impactantes para a acção.
The Long Walk falha em retratar o futuro distópico em que estes 50 jovens caminham para sobreviver. Apesar do impacto emocional, fruto em grande parte da química entre Hoffman e Jonsson, este não é o virar de página que o conto de Stephen King merecia.