Crítica | Shelby Oaks (2025)

Tudo isto começou da paixão de Chris Stuckmann por filmes. Esta já dura há mais de uma década através do seu canal no Youtube onde partilha opiniões, críticas e considerações sobre a sétima arte. Após duas curtas-metragens premiadas, Auditorium 6 (2017) e Notes from Melanie (2019), chegou finalmente o tempo de avançar para a tão ambicionada longa-metragem com Shelby Oaks. Para isso, usou uma campanha numa conhecida plataforma de angariação de fundos para conseguir o dinheiro necessário e depressa se percebeu que a vontade de ver este filme era imensa. De um montante inicial projectado de 250 mil dólares, rapidamente alcançado, facilmente se ultrapassou a icónica marca de 1 milhão de dólares. Os dados estavam lançados e o filme era agora uma certeza absoluta.

A obra acompanha um grupo de investigação do paranormal que desaparece enquanto investiga a cidade abandonada de Shelby Oaks. Mia (Camille Sullivan), familiar de um dos membros do grupo, não se conforma e busca incessantemente pistas que lhe dêem informações sobre o que realmente aconteceu nesse fatídico dia, 10 anos antes, à sua irmã. Nem a revelação de um ser demoníaco, como responsável pelo desaparecimento, irá impedir Mia de descobrir a verdade.

Avaliar Shelby Oaks não pode estar dissociado da sua extensa, e em muitas ocasiões, brilhante, campanha de marketing. Desde a criação de canais alternativos no Youtube, sobre um grupo em busca de fenómenos sobrenaturais e alguns video-blogs de uma das protagonistas – Riley (Sarah Durn) – onde se conhece a sua intimidade. Tudo isto filmado num estilo reminiscente aos anos ’90 e claramente ancorado no universo The Blair Witch Project (1999), pensado, com certeza, para activar o efeito nostálgico e a curiosidade sobre esta nova criação num número grande de espectadores.

Foram quatro longos anos a conhecer estas personagens o que acabou por ter o efeito contrário, no aumento de tensão e hype desejado, quando o filme acabou por chegar. Apesar de ter recuperado facilmente o investimento, acabou por não ser o sucesso estrondoso que prometia. Em parte por trair o pressuposto de ser apenas, e exclusivamente, um filme found footage e misturá-lo com uma estrutura fílmica normalmente vista nos filmes de terror modernos. Não é tão mau como muitos comentários e críticas injustas parecem indicar, e, no fim de contas, acaba por ser um filme competente ainda que esquecível.

Das interpretações há apenas boas coisas a dizer, com um elenco secundário marcante e com relevância real no impacto da história, com destaque para a dupla humana de vilões Charlie Talbert e Robin Bartlett como Norma e Wilson Miles, respectivamente, e para Sarah Durn como Riley, o coração do filme. A liderar as operações, uma imponente Camille Sullivan, no papel de Mia, incansável na procura da irmã e em agarrar o espectador na teia montada pelo argumento. Mas é precisamente aqui que residem, infelizmente, os seus maiores problemas.

Visualmente o universo found footage é pré-determinado e pouco dado à inovação, com filmagens desfocadas e tremidas perfeitas para reforçar a aura de mistério e criar pontos de tensão. Ao optar por transformá-lo gradualmente numa estrutura fílmica de terror moderno acaba por, inadvertidamente, criar uma identidade própria e única, onde documentário se confunde com ficção. Os momentos de tensão surgem intensificados e o espectador fica cada vez mais investido no argumento e no destino das suas protagonistas. No entanto, a meio caminho, opta por cortar quase totalmente o lado que lhe deu notoriedade e o aspecto documental que o ancorava na realidade. O que fica é uma história de demónios, onde as sombras e a luz conspiram para sugerir terror e tensão, mas já foi tudo visto e feito de modo bem melhor em tantos outros filmes do género.

A nível de design sonoro existem algumas ideias interessantes, e com impacto na história, mas estas acabam por se perder nos clichês do terror com o uso de jump scares ocasionais, com silêncios que se transformam em sons desconcertantes, com uma banda sonora como veículo de tensão e até com o aspecto genérico do vilão principal revelado perto do final. Não poderia faltar ainda a icónica subida/descida a um sótão/cave com o suposto vilão – a quintessência do clichê no cinema de horror.

Misturar found footage, mockumentary, paranormal e possessão demoníaca, acaba por ser “demasiada areia para esta camioneta” de nome Shelby Oaks e para o seu criador Chris Stuckmann. De uns primeiros 17 minutos onde promete seguir as suas raízes e de uma primeira metade onde cria uma atmosfera credível de tensão e mistério, acaba por, no final, sucumbir aos trâmites habituais do terror moderno. Existe aqui paixão transbordante pelo terror por parte de Chris Stuckmann, mas esta é atraiçoada pela vontade de complicar e misturar demasiadas referências marcantes dentro do género. Ainda assim, este é um nome a recordar para o futuro.

3/5

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