Tudo isto começou da paixão de Chris Stuckmann por filmes. Esta já dura há mais de uma década através do seu canal no Youtube onde partilha opiniões, críticas e considerações sobre a sétima arte. Após duas curtas-metragens premiadas, Auditorium 6 (2017) e Notes from Melanie (2019), chegou finalmente o tempo de avançar para a tão ambicionada longa-metragem com Shelby Oaks. Para isso, usou uma campanha numa conhecida plataforma de angariação de fundos para conseguir o dinheiro necessário e depressa se percebeu que a vontade de ver este filme era imensa. De um montante inicial projectado de 250 mil dólares, rapidamente alcançado, facilmente se ultrapassou a icónica marca de 1 milhão de dólares. Os dados estavam lançados e o filme era agora uma certeza absoluta.
A obra acompanha um grupo de investigação do paranormal que desaparece enquanto investiga a cidade abandonada de Shelby Oaks. Mia (Camille Sullivan), familiar de um dos membros do grupo, não se conforma e busca incessantemente pistas que lhe dêem informações sobre o que realmente aconteceu nesse fatídico dia, 10 anos antes, à sua irmã. Nem a revelação de um ser demoníaco, como responsável pelo desaparecimento, irá impedir Mia de descobrir a verdade.
Avaliar Shelby Oaks não pode estar dissociado da sua extensa, e em muitas ocasiões, brilhante, campanha de marketing. Desde a criação de canais alternativos no Youtube, sobre um grupo em busca de fenómenos sobrenaturais e alguns video-blogs de uma das protagonistas – Riley (Sarah Durn) – onde se conhece a sua intimidade. Tudo isto filmado num estilo reminiscente aos anos ’90 e claramente ancorado no universo The Blair Witch Project (1999), pensado, com certeza, para activar o efeito nostálgico e a curiosidade sobre esta nova criação num número grande de espectadores.
Foram quatro longos anos a conhecer estas personagens o que acabou por ter o efeito contrário, no aumento de tensão e hype desejado, quando o filme acabou por chegar. Apesar de ter recuperado facilmente o investimento, acabou por não ser o sucesso estrondoso que prometia. Em parte por trair o pressuposto de ser apenas, e exclusivamente, um filme found footage e misturá-lo com uma estrutura fílmica normalmente vista nos filmes de terror modernos. Não é tão mau como muitos comentários e críticas injustas parecem indicar, e, no fim de contas, acaba por ser um filme competente ainda que esquecível.
Das interpretações há apenas boas coisas a dizer, com um elenco secundário marcante e com relevância real no impacto da história, com destaque para a dupla humana de vilões Charlie Talbert e Robin Bartlett como Norma e Wilson Miles, respectivamente, e para Sarah Durn como Riley, o coração do filme. A liderar as operações, uma imponente Camille Sullivan, no papel de Mia, incansável na procura da irmã e em agarrar o espectador na teia montada pelo argumento. Mas é precisamente aqui que residem, infelizmente, os seus maiores problemas.
Visualmente o universo found footage é pré-determinado e pouco dado à inovação, com filmagens desfocadas e tremidas perfeitas para reforçar a aura de mistério e criar pontos de tensão. Ao optar por transformá-lo gradualmente numa estrutura fílmica de terror moderno acaba por, inadvertidamente, criar uma identidade própria e única, onde documentário se confunde com ficção. Os momentos de tensão surgem intensificados e o espectador fica cada vez mais investido no argumento e no destino das suas protagonistas. No entanto, a meio caminho, opta por cortar quase totalmente o lado que lhe deu notoriedade e o aspecto documental que o ancorava na realidade. O que fica é uma história de demónios, onde as sombras e a luz conspiram para sugerir terror e tensão, mas já foi tudo visto e feito de modo bem melhor em tantos outros filmes do género.
A nível de design sonoro existem algumas ideias interessantes, e com impacto na história, mas estas acabam por se perder nos clichês do terror com o uso de jump scares ocasionais, com silêncios que se transformam em sons desconcertantes, com uma banda sonora como veículo de tensão e até com o aspecto genérico do vilão principal revelado perto do final. Não poderia faltar ainda a icónica subida/descida a um sótão/cave com o suposto vilão – a quintessência do clichê no cinema de horror.
Misturar found footage, mockumentary, paranormal e possessão demoníaca, acaba por ser “demasiada areia para esta camioneta” de nome Shelby Oaks e para o seu criador Chris Stuckmann. De uns primeiros 17 minutos onde promete seguir as suas raízes e de uma primeira metade onde cria uma atmosfera credível de tensão e mistério, acaba por, no final, sucumbir aos trâmites habituais do terror moderno. Existe aqui paixão transbordante pelo terror por parte de Chris Stuckmann, mas esta é atraiçoada pela vontade de complicar e misturar demasiadas referências marcantes dentro do género. Ainda assim, este é um nome a recordar para o futuro.