Crítica | Primate (2026)

Dentro do sub-sub-subgénero de chimpanzés assassinos no cinema, Primate é possivelmente um dos melhores filmes de sempre. Divertido, sádico, repleto de gore e sem espaço para macacadas narrativas – abre as portas, exibe o seu espectáculo, e fecha o recinto em apenas 90 minutos. Actualmente, os chefes de estúdios em Hollywood atiram fezes uns aos outros, à procura de marcar o seu território nas bilheteiras americanas e globais, investindo centenas de milhões de dólares em propriedade intelectual, criando assim blockbusters vazios, enquanto batem no seu peito e gritam para o mercado acionista, mas eis que surge uma pequena obra de horror simples e completamente ciente das suas intenções e da sua identidade cinemática que triunfa precisamente por esse motivo, por compreender que o seu valor principal está no entretenimento sangrento e rídiculo. Primate é um filme de terror sobre um chimpanzé mortífero. Mais nada. É excelente.

Um ano após a morte da sua mãe, Lucy (Johnny Sequoyah) regressa à sua casa no Hawaii para desfrutar de umas férias com o seu pai, Adam (Troy Kotsur), um celebrado e workaholic autor surdo, a sua irmã, Erin (Gia Hunter), que se sente abandonada e sozinha neste lar, e Ben (Miguel Torres Umba) um chimpanzé e o animal de estimação desta família que aprendeu a comunicar através da falecida mãe de Lucy, uma professora de linguística. Nesta visita é acompanhada pelas vítimas – peço desculpa –, pela sua melhor amiga, Kate (Victoria Wyant), a sua paixão secreta, Nick (Benjamin Cheng) e uma convidada inesperada, amiga da sua amiga, Hannah (Jessica Alexander), interessada na sua crush. Tudo parece perfeito para uma festa: estão numa isolada mansão com uma piscina, o pai vai estar a trabalhar, o clima é tropical e um chimpanzé acabou de apanhar raiva. Inicia-se, então, uma noite pesadelo com jovens encurralados por um símio assassino.

Naturalmente, sendo a pessoa que sou, encontrei ideias intrigantes nesta história, maioritariamente associadas à capacidade de comunicação. Um animal expressa as suas emoções num tablet equipado com um soundboard; um pai surdo esforça-se para ouvir as suas filhas e uma família parece estar fragilizada perante a dor do seu luto e a sua dificuldade em manifestar esta interioridade. Nada disto é exactamente explorado, todos estes elementos dramáticos são adereços superficiais imediatamente afugentados pelo primata – esta árvore genealógica é invadida por um George demasiado curioso. No entanto, é um aspecto que impede as personagens de serem somente carne para macaco. Aliás, permite aos actores demonstrarem o seu talento – ou o seu potencial.

Surpreendentemente, o elenco é decente. Troy Kotsur é uma presença sempre agradável no cinema – obviamente o principal destaque no acting –, contudo, os restantes actores também conseguem inserir credibilidade às personalidades de papel das suas respectivas figuras. Ninguém é fantástico, mas ninguém é péssimo ou medíocre – memórias trágicas de I Know What You Did Last Summer (2025). Contrariamente aos slashers genéricos antigos, que transformavam os seus protagonistas e seres secundários em criaturas detestáveis para a audiência poder desfrutar da carnificina, nenhum destes jovens é irritante ou desagradável – mesmo quando exibem atitudes questionáveis permanecem minimamente humanos –, um componente que enseja o ensemble nas suas actuações. Infelizmente, neste filme, a sua competição é um chimpanzé assassino. Não existe talento suficiente em Hollywood para impedir o público de apoiar um chimpanzé assassino, especialmente um que solta uma gargalhada maléfica e que parece divertir-se imenso na sua matança. Miguel Torres Umba, que interpreta Ben através de caracterização, próteses (excelentes efeitos práticos e visuais) e um fato macaco (literalmente), merece o Oscar dos Símios.

A única característica desapontante neste filme sobre um chimpanzé assassino é a sua iluminação péssima e aborrecida. Eu sei que parece uma crítica absurda, mas qual é o objectivo de criar mortes inventivas se o espectador não consegue ver nada? Existem cenas onde é impossível discernir o que está a acontecer ou sequer distinguir as actrizes. É um elemento profundamente frustrante, sintoma de uma moda moderna de fotografia digital sem camadas ou textura que visa a capturar uma imagem realista – porque aparentemente o filme do chimpanzé assassino precisa de ser realista? – que esquece que o cinema é uma fantasia, um sonho, uma visão artística do nosso mundo. Recordo um instante famoso que ocorreu durante as filmagens da trilogia de The Lord of the Rings, onde o actor Sean Astin perguntou ao director de fotografia, Andrew Lesnie: “Where is the light coming from?“. A sua resposta foi perfeita: “Same place as the music.

Neste caso, a falta de beleza não mata a besta. Apesar da péssima filmografia de Johannes Roberts reverter audiências até à era dos pitecos, Primate é uma vitória complementada com uma banda sonora electrónica reminiscente de John Carpenter – Monkey Myers –, um argumento sedento por sangue e um excelente símio serial killer que nem a Jane Goodall conseguiria resgatar. Pode não ser um Robbie Williams ou um Dev Patel ou até um planeta completamente habitado por macacos, mas é mais do que suficiente para uma experiência divertidamente violenta. Podem esquecer a visita ao jardim zoológico, aproveitem o Primate.

3/5

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