Pillion é a primeira longa-metragem do realizador Harry Lighton, ainda que nada no filme o denuncie. E poucas estreias seriam tão audazes: retratar a interseção entre a comunidade LGBT+ e o universo BDSM, sem filtros nem condescendência. O filme acompanha Colin (Harry Melling), um homem gay tímido e inexperiente, que trabalha a passar multas de estacionamento e tem como hobby cantar. A sua vida muda quando se começa a relacionar com Ray (Alexander Skarsgård), um biker tão atraente como indecifrável. Se numa fase inicial parece que Ray está apenas a aproveitar-se da ingenuidade de Colin, a relação acaba por evoluir para uma dinâmica de dominador-submisso que desafia ambos de formas inesperadas.
O filme aborda esta dinâmica BDSM da perspectiva de Colin, o submisso da relação, mas nunca cai na armadilha do moralismo, sendo consciente o suficiente para que isso não aconteça. A principal questão que Harry Lighton nos coloca é onde se traça o limite entre consentimento genuíno e manipulação emocional: até que ponto é que Colin entrega controlo porque é isso que deseja, ou porque simplesmente nunca aprendeu a valorizar-se o suficiente para exigir outra coisa.
Apesar de filmes com temas semelhantes muitas vezes serem criticados pelas cenas sexuais se sentirem gratuitas ou servirem apenas o erotismo, Pillion contraria isso ao fazer delas uma das partes mais importantes do filme. Seja nos olhares, em algumas escolhas de ângulos de câmara, ou nas posições sexuais, cada cena tem o seu propósito e acrescenta imenso ao filme. Servem para expor as vulnerabilidades que as personagens nem sempre demonstram na dinâmica algo performativa da relação, onde cada um tem o seu papel definido.
Um dos grandes trunfos de Pillion é o seu humor, que funciona como uma porta de entrada para um mundo que, à partida, poderia afastar uma boa parte do público. O filme encontra comédia no contraste entre a dinâmica dom-sub de Colin e Ray e a domesticidade suburbana dos pais de Colin, sem nunca ridicularizar as personagens ou o universo em que se inserem. Muito desse humor vem do facto de Colin estar a experienciar tudo pela primeira vez e vê-lo tentar navegar as regras e os códigos deste novo mundo gera momentos genuinamente engraçados. Lighton equilibra com destreza o hilariante e o sincero, por vezes na mesma cena, e é essa a alternância que dá ao filme o seu tom tão peculiar, conseguindo que nos riamos sem nunca sentirmos que o filme está a diminuir o que retrata.
Harry Melling entrega aquela que é a sua melhor interpretação até à data. Há uma vulnerabilidade e uma fisicalidade no modo como habita Colin que torna impossível não torcer por ele, e a forma como acompanha o arco da personagem, de alguém completamente ingénuo para alguém que começa a descobrir o que quer e o que não está disposto a aceitar, é feita com uma subtileza impressionante. Skarsgård, por seu lado, tem a tarefa mais ingrata de dar vida a uma personagem deliberadamente opaca, mas fá-lo com uma presença magnética que oscila entre a intimidação e efémeros momentos de ternura que deixam sempre a sensação de que há algo por baixo da superfície. A química entre os dois é elétrica e Lighton tira enorme partido do contraste entre estas duas presenças em cena, transformando conversas banais em momentos carregados de tensão.
Apesar da competência técnica clara, a cinematografia de Nick Morris é talvez o aspeto mais frustrante de Pillion. Para um filme que vive de contrastes tão fortes entre mundos, a câmara opta demasiadas vezes por um registo convencional que não está à altura do material. Há momentos pontuais de beleza, sobretudo nas cenas de sexo já referidas ou nas cenas de mota que captam a liberdade e entrega de Colin, mas no geral fica a sensação de que havia espaço para uma abordagem visual mais ousada e artística, que explorasse com maior inventividade a intimidade e as dinâmicas de poder que o filme tão bem constrói noutras frentes.
Contudo, Pillion não deixa de ser um excelente filme sobre o crescimento de uma personagem que, ao longo da narrativa, descobre os seus próprios limites, não só o que deseja, mas sobretudo o que não está disposto a aceitar. É uma estreia surpreendente de Harry Lighton, que demonstra uma maturidade rara para um primeiro filme na forma como navega um território que facilmente poderia descambar no sensacionalismo ou moralismo. A força do argumento, o equilíbrio entre humor e emoção, e as duas interpretações que se complementam de forma irrepreensível, fazem deste um dos romances mais originais e mais honestos dos últimos anos. Lighton não nos dá respostas fáceis, e é precisamente por isso que o filme permanece connosco depois de terminar.