Os sinais de que Meursault (Benjamin Voisin) é um estranho, numa terra estranha, são constantes. Como por exemplo um hijab, numa mulher que atravessa a rua, ou os constantes altifalantes em altos brados, que interrompem os colonizadores e convocam os locais para as várias orações diárias. É bem mais visível, no entanto, na segregação e no racismo sistémico sobre os argelinos. Meursault é, para todos os efeitos, um local nascido e criado em Argel, a capital do seu país, a Argélia. Ao mesmo tempo é apelidado de “pied-noir“, termo francês coloquial usado com tom depreciativo para descrever os cidadãos franceses descendentes de europeus (e também judeus sefarditas) que viviam na Argélia durante o período colonial. A sua verdadeira sina é ser apátrida em vários sentidos, de país e de sentimentos, e de como isso sela o seu destino.
Baseado na obra-prima homónima de Albert Camus, L’Étranger (O Estrangeiro) conta a história da acusação de assassinato que caí sobre Meursault. Em plenos anos ’30, em Argel, Meursault recebe a notícia que a sua mãe morreu, no lar onde vivia. Após o funeral regressa Argel e conhece Marie (Rebecca Marder) estabelecendo com ela uma relação amorosa. Mas algo parece desfasado da realidade normal que aparenta viver. Uma apatia crónica que aparentemente o consome mas que o liberta em igual medida. É essa qualidade que acaba por colocá-lo no banco dos réus, e em risco de vida, quando um fatídico encontro na praia o leva a assassinar um local.
A vida do seu protagonista e do próprio Camus confundem-se, e muito, no livro do autor. Também ele nascido e criado na Argélia, sempre buscou o sentimento do absurdo da nossa existência no que escrevia e de como somos incapazes de o contrariar. O argumento adaptado de François Ozon e Phillipe Piazzo assenta na eterna busca do ser humano em dar um sentido à sua existência em contraste constante com a indiferença cruel do universo. Esta filosofia de vida do autor é brilhantemente traduzida da palavra para a imagem nesta terceira adaptação para o cinema do romance de Albert Camus.
A principal razão para isto acontecer é a interpretação de Benjamin Voisin na personagem titular, Meursault. O olhar vazio, a apatia e a inabilidade de mentir eram amplas razões para não nos ligarmos a esta personagem, mas isso nunca impede o actor de o conseguir em todos os momentos. Em parte pela sua beleza natural, e carisma transbordante, mas também na maneira como os argumentistas dispõem as peças do imenso puzzle que é esta obra. Não que o puzzle seja particularmente difícil de montar, mas sim as implicações/considerações que carrega quando se materializam as intenções reais desta versão. É nessa altura que Benjamin Voisin se transcende emocionalmente, através da libertação das amarras que o prendem a esta existência, dando sentido ao que Camus apregoa como sem sentido.
Talvez o constante medo em pegar nesta obra, apelidada de inadaptável inúmeras vezes, tenha sido libertadora também para a dupla Ozon/Piazzo, inteligentes em não tentar explicitamente percorrer no argumento todos os temas presentes como o colonialismo, segregação, trauma, violência doméstica, família, religião ou amor, mas implicitamente torná-los parte de uma tapeçaria intricada de sinais e diálogos subtis, de onde podemos ir beber se assim o desejarmos. No essencial, esta é a história de um homem incompreendido e traumatizado que comete um crime e é julgado por isso. Vendo-o apenas por esse prisma é, ainda assim, fascinante conhecer Meursault e o percurso até à sua condenação/redenção. Inocente ou culpado? A beleza disto tudo é que o seu destino é aberto e dependente das convicções e valores de cada espectador.
Existem duas ideias bem distintas nesta adaptação. A mais clara é o enriquecimento das personagens femininas como Marie, interpretada por Rebecca Marder, desta vez bem mais que a nota de rodapé no romance e, transformada na mais trágica das personagens. Apaixona-se por quem não conhece ou sente amor para lá de uma pulsão biológica de companhia. Meursault nunca o esconde mas, mesmo assim, Marie nunca abandona essa ideia de felicidade futura. Essa luta, e sofrimento, estão sempre bem visíveis no olhar de Rebecca Marder, e são essenciais para o contrastar com a frieza do amante. As suas cenas de sexo são o espelho dessa realidade, belissimamente intensas e carnais, mas frias e mecânicas em igual medida. Surge ainda Djemila, interpretada por Hajar Bouzaouit, uma prostitua argelina com um pequeno papel mas, ainda assim, de crucial importância para dotar o filme de uma sensibilidade moderna e enriquecer o comentário social. Fazê-lo com duas cenas, poucos diálogos e um único riso sarcástico é obra.
Visualmente é, de longe, o filme mais belo de Ozon. As decisões de larga escala, como a opção pela fotografia a preto e branco revelam-se inspiradas pois mesmo retirando as cores fortes da paisagem argelina, como o amarelo do deserto e o azul marinho do mar, e homogeneizando o caos citadino de Argel, o que recebem em troca é muito maior. A lente de Manuel Dacosse e as escolhas de iluminação estão ao serviço da história em primeiro lugar, e só depois para a embelezar. A predominânica de luz natural é propositada e um reflexo da importânica do sol magrebino como catalizador do destino das personagens. Das exuberantes escolhas em interiores, com destaque para as cenas de sexo, surge também a luz artificial para envolver os corpos e realçar a beleza do momento. Ninguém filma o corpo humano como os franceses, desprovido de pudor, com respeito máximo e sempre com classe.
Como eterno fã da escrita e da profundidade do romance que lhe dá origem, L’Étranger era esperado com um misto de receio e esperança. O que François Ozon conjura é uma homenagem fiel e sentida à palavra de Camus, nunca a desvirtuando mas, ao mesmo tempo, adaptando-a às sensibilidades modernas. Não vai, por isso, ser consensual, principalmente com os puristas e com os acólitos fervorosos do absurdismo do autor. Esta aparente simplicidade, no entanto, esconde muito mais do que aparenta, com destaque para a exuberante direcção de fotografia de Manuel Dacosse e uma interpretação superlativa do seu protagonista, Benjamin Voisin. Talvez o maior crime de L’Étranger seja quase não se desviar um milímetro da palavra escrita por Camus. Mas podemos culpar o argumento por isso quando o livro se reveste de tamanha qualidade?