Crítica | Mother (2009)

Parasite (2019) representou uma verdadeira revolução cultural. Tornou-se o primeiro filme não falado em inglês a ganhar o Óscar de Melhor Filme, quebrou uma barreira histórica dos prémios e mostrou que um filme legendado pode alcançar sucesso global. É a prova que uma história local pode atingir a universalidade sem perder identidade, sobretudo ao abordar temas transversais como a desigualdade social. No fundo, o filme ajudou a normalizar o cinema não-anglófono como cinema mainstream e não como uma categoria à parte. Perante este feito, torna-se quase essencial compreender o percurso que levou Bong Joon-ho até este ponto.

Um dos marcos fundamentais da sua cinematografia é Mother. O filme acompanha a história de uma mãe viúva (Kim Hye-ja) com um filho com deficiência intelectual, Do-joon (Won Bin), acusado do homicídio da jovem Moon (Moon Hee-ra). Convicta da inocência do filho, a mãe lança-se numa investigação para provar que ele não cometeu o crime com a ajuda de Jin-tae (Jin Goo), o amigo marginal do filho.

O neo-noir já não é território estranho para Bong Joon-ho, depois do aclamado Memories of Murder (2003), e isso é particularmente visível na forma como o filme nos cola ao ecrã, sempre à espera da próxima peça do puzzle, mantendo a tensão até ao fim. Bong é dos poucos realizadores contemporâneos que consegue conjugar drama, comentário sociopolítico e até comédia e, apesar da gravidade dos temas abordados, essa mistura também se faz sentir em Mother.

Existe uma clara ambição em abordar a masculinidade como uma força corrosiva, quase como um vírus que nem uma mãe obsessivamente protetora consegue conter. As personagens masculinas surgem como apáticas, moralmente impotentes e oportunistas, em contraste direto com a figura da mãe, que tudo faz para absorver e proteger o filho, custe o que custar. Pelo contrário, uma das personagens femininas mais relevantes, a rapariga assassinada, é negligenciada pela mãe, vinda de uma família pobre e marginalizada, e empurrada para a prostitução como forma de sobrevivência. A vítima do assassinato é facilmente descartável, um detalhe funcional do enredo policial, um corpo para desencadear a ação cuja justiça envolve mais encontrar um culpado conveniente do que confrontar as falhas estruturais que tornaram o crime possível.

A cinematografia de Hong Kyung-pyo faz questão de isolar a personagem da mãe em paisagens rurais, ruas desertas ou casas marginalizadas. A câmera acompanha-a quase permanentemente em deslocação, num movimento contínuo que espelha a sua busca incessante pela verdade. O seu papel como curandeira e herbalista reforça a sua ligação à natureza: ela é guiada por um instinto maternal primitivo, quase animal, colocando a proteção do seu filho acima de qualquer princípio ético ou social, configurando um dos grandes dilemas centrais do filme.

A atuação de Kim Hye-ja é o verdadeiro eixo emocional e moral de Mother. Bong Joon-ho constrói o filme a partir do seu ponto de vista e é através da sua fisicalidade cansada, do olhar inquieto e da constante tensão entre fragilidade e determinação que a atriz nos conduz brilhantemente pela narrativa. Esta identificação com a mãe transforma o espectador num cúmplice involuntário: acreditamos no que ela acredita, queremos o que ela quer e recusamos aceitar as verdades que ameaçam destruir o seu mundo. É precisamente esta fusão entre interpretação e ponto de vista que o filme atinge o seu maior desconforto, ao fazer-nos perceber que a empatia pode ser moralmente perigosa quando nasce do medo e do amor absoluto.

O filme expõe também a necessidade urgente de deixar de vitimizar comportamentos masculinos estruturalmente violentos e irresponsáveis, uma tendência que é associada diretamente às instituições que deveriam garantir justiça e proteção. A polícia, a justiça e até a comunidade local estão mais interessados em encerrar o caso rapidamente do que em compreender as circunstâncias do crime, quando uma leitura mais profunda poderia contribuir para a prevenção de crimes futuros. O foco na deficiência do filho acusado funciona simultaneamente como denúncia da discriminação de que é alvo e como crítica à forma como esse critério é instrumentalizado para o ilibar automaticamente de qualquer responsabilidade, o que em si também é uma forma de discriminação.

No conjunto, Mother afirma-se como uma obra-chave para compreender não só a evolução temática e formal de Bong Joon-ho, mas também a coerência moral que atravessa a sua cinematografia. O filme não é só um thriller policial mas também um estudo perturbador sobre maternidade, culpa e falhas institucionais, onde somos confrontados com o limite da empatia. Visto à luz de Parasite, é claro como os temas universais já lá estavam muito antes, antecipando o olhar crítico que viria a alcançar reconhecimento global. Mother permanece incómodo muito depois de terminado, precisamente porque nos devolve a pergunta central: até que ponto estamos dispostos a fechar os olhos para proteger aquilo que amamos?

4.5/5

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