Crítica | Anaconda (2025)

Provavelmente a necessidade de existir uma espécie de sequela do filme Anaconda (1997) é diametralmente proporcional à dimensão do dito animal. Porém, esta não é, na verdade, uma sequela, nem um remake, nem um spin off, nem uma prequela, nem uma história de origem. É um tributo à realização do homónimo original, juntamente com um espírito meta que leva esta produção para um universo mais cómico do que assustador, intencionalmente.

Um grupo de amigos frustrados com o estado actual das suas vidas decide aventurar-se pela floresta amazónica para realizar o sonho de fazer cinema em conjunto ao produzir uma “sequela espiritual” do filme Anaconda. O que não estava nos planos era que uma anaconda gigante transformasse a experiência em algo demasiado real para o guião que tinham escrito.

Inception (2010) provou ser um filme profundo, abordando o fascinante mundo dos sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos. Anaconda não joga no mesmo campeonato, mas nem por isso deixa de mergulhar uns bons metros em águas semelhantes. No fundo, é um filme dentro de um filme, que recorda outro filme e ainda muda de filme a meio do filme. Confusos? O melhor é verem esta comédia de terror para compreenderem esta sequência de palavras. O que é certo é que Tom Gormican volta a surpreender. Depois de ter escrito e realizado o absurdamente engraçado e diferente The Unbearable Weight of Massive Talent (2022), o cineasta regressa às mesmas funções para nos trazer uma nova versão meta de um ícone. Neste caso não falamos de Nicolas Cage, mas sim da cobra de dimensões extraordinárias com um instinto particular para assassinar pessoas. Nada do que vemos no ecrã é para ser levado a sério, apenas desse modo poderemos desfrutar a 100% do humor e entretenimento que nos é proporcionado, que não é pouco. Existe um fio condutor no enredo, com pontos interessantes no argumento no que diz respeito à acção que nos cativa, contudo, o principal objectivo é divertir o público. E especialmente para fãs do registo de Jack Black e Paul Rudd, esta é um óptima solução para se rirem de parvoíces inofensivas e trabalhadas com coração.

Grande parte do que faz a comédia resultar em Anaconda é a química entre o elenco principal. Acaba por ser mais desafiante não gostar das personagens do que nos entregarmos ao que estamos habituados a receber destes actores. À empatia que criamos por Doug (Jack Black) e Griffin (Paul Rudd), junta-se um Kenny (Steve Zahn) propositadamente fora da caixa, que neste contexto funciona na perfeição, uma Claire (Thandiwe Newton) que acrescenta equilíbrio entre estas peças todas, e um Selton Mello que faz um show à parte com o seu Santiago Braga, o treinador de cobras errático, imprevisível e desconcertante. Muitas das gargalhadas resultam da liberdade que se sentiu do actor brasileiro para explorar o absurdo de cada cena ao máximo. No meio disto tudo não podemos esquecer a “nossa” Daniela Melchior, que mais uma vez espalha o bom nome de Portugal num filme de grande escala, fazendo-o com uma personagem que, além de relevante para a trama, revela um lado até aqui menos conhecido da actriz. A sua Ana é fria, pragmática e letal, adaptando-se às circunstâncias sem aparente dificuldade, mostrando uma faceta mais aproximada de uma antagonista em comparação com os mais recentes papéis em The Suicide Squad (2021), Guardians of the Galaxy Vol. 3 (2023) ou Road House (2024). Ter a função de ser o símbolo que liga o nonsense com a parte da história que nos faz querer saber sobre as consequências das decisões dos protagonistas, é um trabalho ingrato, mas Daniela Melchior abraçou-o com competência e naturalidade. Saltando de português do Brasil para inglês com confiança, convive em harmonia entre grandes nomes de Hollywood, deixando expectativas para o que os projectos que se seguem trarão.

Sendo este um filme de terror de origem, esta recriação não exclui o género na sua execução. Só não a privilegia em relação à comédia, respeitando ainda assim o medo exigido pela criatura enorme através de jumpscares pouco inovadores, mas eficazes. Os efeitos visuais estão dentro do exigido e a banda sonora aproveita alguns momentos para enriquecer a nossa experiência. Por vezes não perdemos nada em aceitar quando uma história é construída com o quase isolado intuito de nos fazer rir e passar um bom bocado. Seria um desperdício de tempo procurar um maior significado para os cerca de 100 minutos de Anaconda. Do início ao fim a prioridade reside na piada que alcança o nosso riso com maior sucesso, não obstante esse facto ser mais valioso pelo facto de efectivamente existir um laço de amizade pelo qual ganhamos simpatia e pelo qual torcemos.

Este não remake, não sequela nem prequela, faz a sua piscadela de olho ao filme dos anos 90 à sua maneira, vivendo numa dimensão muito própria e despreocupada. Afinal de contas, relembremos que se trata de uma história de sobrevivência a uma cobra de proporções impossíveis. Passávamos bem sem esta versão? Sim. Mas passamos ainda melhor o tempo com a visualização desta versão.

3.5/5

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