Crítica | 100 Meters (2025)

À primeira vista, quando vemos a capa do filme de animação japonesa 100 Meters, estamos à espera de ver um filme rápido, curto e direto, com uma ação e intensidade típicas dos sports anime. Assumimos que nesta 1h46 haja o tiro de partida, a aceleração endiabrada, uma troca de olhares entre rivais, e num instante chegamos à meta com um glorioso vencedor. Felizmente, este filme acaba por subverter essas assunções e faz do sprint fugaz de uma corrida de cem metros, uma maratona emocional e introspetiva.

Este filme, escrito por Yasuyuki Muto e realizado por Kenji Iwaisawa, não está interessado em ganhar uma medalha de ouro de melhor animação ou melhor argumento, está sim interessado em mostrar o que a perseguição de um sonho poderá significar para cada um de nós, e que mesmo quando duas pessoas perseguem o mesmo objetivo e se deparam com os mesmos obstáculos, são as suas ideologias e posturas que as fazem cruzar metas distintas, sobretudo no que as espera depois das mesmas.

Baseado no manga Hyakuemu, do autor Uoto, o filme foca-se sobretudo em dois corredores cujas vidas se cruzam desde a infância. Togashi (V.O. Tôri Matsuzaka) é um talento natural que corre como se o corpo tivesse nascido para aquilo. Corre rápido de forma fácil, ganha de forma fácil, e talvez por isso mesmo nunca tenha de pensar no porquê que o faz. Já Komiya (V.O. Shôta Sometani) é o absoluto oposto, alguém que corre à custa de esforço, disciplina e teimosia pura, para fugir a um mundo que o parece sufocar a cada passo. Cada vitória custa, cada derrota pesa, cada metro é suado como se fosse o último.

Não deixa de ser a velha dicotomia do cinema desportivo do atleta dotado contra o atleta esforçado, mas aqui há um cruzamento de histórias, tempos e gerações distribuído em camadas complexas e cativantes.

O que torna 100 Meters especial é que nunca trata esta rivalidade como um duelo clássico. Nem Togashi é o génio arrogante, nem Komiya é o underdog choramingas. São dois miúdos com personalidades em definição, que crescem, erram, avançam e estagnam em momentos diferentes da vida. A corrida dos cem metros é apenas o espaço onde os corredores obtêm essas respostas, onde constroem o seu próprio mundo e onde vêm o mesmo cruzar-se com o dos seus adversários. Cem metros de pista transformam-se num campo de batalha silencioso, onde as emoções, ou a falta delas, guiam cada passada e fazem a maior parte do diálogo. A cada virar da esquina surge alguém mais rápido, mais dedicado, mais esclarecido, cruzando dinâmicas deliciosamente versáteis que não surgem só porque sim, nem se prolongam demasiado nesta encruzilhada da corrida contra o tempo e contra nós próprios. O mais bonito de tudo isto é que o filme não sente a necessidade de escolher “o melhor”, deixa-nos apreciar e viver a realidade de cada um destes corredores.

É nesta contenção que o filme ganha a sua força motora. Kenji Iwaisawa não exagera emoções, não explica demasiado os sentimentos, simplesmente confia no espectador e no poder da personalidade de cada personagem. São pouco faladores, mas os pequenos gestos, a postura na linha de partida, a forma de respirar, como e para onde olham, tudo é cinema que sussurra e, pouco a pouco, nos faz suar com as personagens, sentindo na pele dilemas que nos são próximos de uma maneira ou de outra.

Visualmente o filme é uma maravilha. Com um estilo próprio e algumas técnicas não tão convencionais, com uso de rotoscopia e pinceladas expressivas, as corridas e alguns momentos fortes ganham uma dinâmica impressionante que ficarão na memória. Cada passada tem peso, sentimos o vento que resiste, o horizonte que desfoca. Não temos em mão uma “pirotecnia visual” ao mesmo nível do que será uma das melhores animações de uma corrida como é o caso do segmento World Record no filme de animação The Animatrix (2003), mas 100 Meters faz-nos sentir o esforço, a ansiedade, a dor, a repetição exaustiva, mas também a esperança, o sonhar e a vontade de superação de quem corre, não porque gosta, mas porque precisa.

O som e a música trabalham no mesmo registo. O silêncio é tão importante quanto a deliciosa e motivadora banda sonora de Hiroaki Tsutsumi. O ritmo cardíaco, a respiração, o som dos pés na pista, tudo contribui para uma sensação constante de tensão interna em oposição aos momentos chave de grito catártico e êxtase melódico. Não é um filme que nos empurra emocionalmente, é um filme que nos acompanha lado a lado, como aquele amigo que não diz nada, mas percebe exatamente o que estamos a sentir e que te diz “vai, mas ao teu tempo.

O voice acting, na versão original japonesa, é nada mais do que perfeito em cada personagem. Por muito que numa animação a história e os visuais sejam interessantes, se não sentirmos a personalidade de cada personagem na sua voz, facilmente nos desligamos do mundo criado, mas neste caso os atores dão-nos performances apaixonantes, que no caso de Togashi e Komiya, que passam por várias idades, é ainda mais de louvar no amadurecimento credível das suas resoluções através da voz que ganham e se vai transformando.  

No panorama da animação japonesa contemporânea, 100 Meters encaixa numa linhagem muito específica: a do cinema intimista que usa o movimento para falar de identidade. Há ecos claros de obras como Ping Pong the Animation (2014) na forma como o desporto revela carácter, The First Slam Dunk (2022) na fisicalidade e no peso emocional da entrega atlética, e até mesmo 5 Centimeters per Second (2007) não pelo romance, mas pela obsessão com a distância e com o tempo que passa sem pedir licença. Não há cá superpoderes, técnicas secretas ou câmaras lentas à Zack Snyder, o que temos aqui é aquele sentimento muito realista de que, às vezes, a corrida mais difícil não é contra o adversário, mas sim contra as expectaticas que criamos de nos próprios.

Estreado discretamente na Netflix no final de dezembro de 2025, o filme surgiu numa data que parece estranha mas, propositadamente ou não, é aquele momento em que olhamos para o que fizemos no ano, para o que queremos mudar no ano vindouro, e que realmente essa reflexão é tão importante, não só quanto às metas estabelecidas, mas sobretudo no porquê de as termos estabelecido e qual o caminho que nos poderá levar a atravessar as mesmas.

É também curioso que tenha surgido num panorama da animação japonesa onde se destacam dois extremos: grandes produções cheias de espetáculo com um following estabelecido como Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Infinity Castle (2025) e obras mais pequenas, autorais, e quase tímidas como Look Back (2024) que acabam também por ganhar notoriedade pela sobriedade intimista da sua qualidade. Neste caso 100 Meters posiciona-se claramente no segundo grupo, em que não quer quebrar recordes, simplesmente quer encontrar quem esteja disposto a parar, respirar, ver, sentir e refletir.

Claro que esta postura tem um custo, pois com um título como “100 metros” o público geral certamente estará à espera das grandes reviravoltas narrativas, conflitos explosivos e emoções hiperbolizadas dos sports anime convencionais, talvez até de forma ainda mais intensa, no entanto é o inesperado tom deliberadamente seco, direto e quase minimalista, que faz com que a corrida seja só o contexto para esta reflexão. É com esta animação madura, sensível e fisicamente envolvente que, pouco a pouco, somos libertados da ideia de estarmos a ver um filme desportivo e progressivamente começamos a inalar a lição principal que o mesmo nos propõem: nunca parar de correr em direção à nossa “meta”, mas ao mesmo tempo, em anos que parecem passar em instantes, não perdermos no caminho o “porquê” de estarmos nessa corrida.

4.5/5

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