Crítica | Come See Me in the Good Light (2025)

“My story is one about happiness being easier to find once we realize we do not have forever to find it.”

Aos quatro minutos, com o verso supra, retirado do seu pequeno poema Life Anthem, poeta e ativista Andrea Gibson manifesta prontamente a maior inspiração e ambição que se retira de Come See Me in the Good Light, marcando o início de um dos filmes mais comoventes e cheios de vida, pelo menos para amantes de poesia e pessoas sentimentais, no geral.

Neste arrebatador documentário, vencedor do Festival Favorite Award no Sundace Film Festival e nomeado para um Oscar, seguimos Gibson, uma das vozes mais influentes e impactantes na poesia falada moderna, na sua luta contra o cancro nos ovários, ao lado da estimada poeta Megan Falley, a sua esposa. É narrada uma história de amor alegre, terna e quotidiana entre o par inseparável, naquele que pode ser o seu último ano junto, enquanto refletem sobre a sua vida e a mortalidade, transformando a dor em propósito e celebração da resiliência.

Andrea Gibson, uma pessoa não-binária natural de Calais, em Maine, nos EUA, após uma batalha de quatro anos contra a sua doença terminal, faleceu em julho de 2025, aos 49 anos. Apesar de ter dito várias vezes que apenas conhece cinco palavras e os seus poemas são todos desconstruções das mesmas cinco, a sua poesia é muito rica e variada, e transborda uma profunda compaixão pela vasta condição humana, tratando temas como identidade de género, política e a efemeridade, mas eterna beleza, da vida.

Ryan White, o realizador, aborda a história com uma delicadeza que brilha através do ecrã; a câmara permanece próxima mas nunca de forma evasiva, permitindo que o casal viva o seu dia a dia sem desonestidade e desconforto. Este documentário foi uma maneira de Gibson, na sua rotina exaustiva de tratamentos e quimioterapia, poder continuar a criar e manifestar a sua arte, a tocar outras pessoas, sem demasiado esforço físico. Assim, Gibson, Falley e toda a equipa envolvida na produção de Come See Me in the Good Light, criam um espaço reconfortante onde a conversa, a poesia e a vulnerabilidade fluem naturalmente, sem transmitir a sensação de uma narrativa fabricada.

Proveniente de um meio religioso e conservador, que não aceita a fluidez de género, Andrea Gibson foi vítima de bullying, e sofreu de depressão durante grande parte da sua vida. Deste modo, encontrou um refúgio na poesia, servindo de inspiração para muitas pessoas pela força das suas palavras, apesar do seu medo de palco. O documentário, então, navega lindamente esta jornada, utilizando fotografias e vídeos, com a ocasional leitura de poemas intimamente relacionados com o tema. Concede, também, uma reflexão emocionante e catártica sobre como a perspetiva de Gibson mudou após o seu diagnóstico, uma vez que deixou de se incomodar quando se referiam a si pelo género incorreto. Confessou apenas: “Eu só quero ter um corpo” (…) “Não me importo com a sua aparência.”

Neste contexto, os relacionamentos de Andrea Gibson são, igualmente, algo bastante mencionado em Come See Me in the Good Light, como forma de mostrar a transigência e abertura normalmente muito sentidas no amor e nas amizades sáficas e queer. O facto de as ex-namoradas de Gibson permanecerem na sua vida e se tornarem num grupo de apoio tanto para si como, surpreendentemente, para a atual esposa, mostra como é possível manter estas conexões havendo um respeito, confiança e intimidade mútuos. O documentário, em termos técnicos, é bom mas não surpreende; o que o torna encantador é, sem dúvida, a relação entre Gibson e Falley. Tanto as cenas divertidas e rotinas diárias como os diálogos mais introspetivos e momentos dolorosos entre o par atraem e fascinam a audiência, devido ao seu carisma e magnetismo contagiantes.

É de salientar, ainda, a presença de Megan Falley em si e a referência feita às inseguranças que enfrentou durante a adolescência, uma abordagem necessária quando analisada considerando a importância em entender a perspetiva de Andrea Gibson quanto à própria mortalidade. Percebemos, assim, como a sua mulher lida com esta realidade, desde a sua admiração pela visão de Gibson do mundo até à inspiração que encontra no seu estilo de vida. Durante o período em questão, são explorados temas como a culpa que Falley sente por tirar um tempo para si mesma, e até mesmo a sua carreira poética, um elemento essencial para entender o início da relação do casal.

Come See Me in the Good Light mostra o lado público de Andrea Gibson, a sua intensidade e profunda humanidade, especialmente quando cogita a possibilidade de fazer um último espetáculo enquanto processa a ideia de nunca poder sentir a dor e o dom de envelhecer, mas também o seu lado mais pessoal e lúdico, com uma energia leve que nem sempre aparece no palco e pela qual Falley se apaixonou. Momentos deste género revelam como, mesmo nos dias mais difíceis, permanecia sempre um impulso para rir.  

Como Andrea Gibson dizia, quando alguém morre, a sua alma fica, porque vive nas pessoas que fizeram parte da sua vivência. No poema Tainted Heart, refere que a alma até sente saudade da dor, o que acaba por solidificar ainda mais a sua forma de encarar a vida. Para si, tudo o que sentimos devemos chamá-lo de amor; seja tristeza, medo ou dor.

Temos muita sorte em ter pessoas que nos relembram das alegrias da vida, sejam os poetas que as articulam, os nossos entes-queridos ou os cineastas que, no fim, juntam tudo e criam filmes como este.

4.5/5

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