Crítica | Becoming Madonna (2024)

“Being a female in American culture is that you’re supposed to be a whore but you’re not supposed to say you’re a whore.” – Sharon Oreck

Becoming Madonna mostra como uma jovem de 19 anos conquista o coração da cultura underground dos anos 80 e leva a vibrante cena gay dos bares e clubs de Nova Iorque para o mundo, através de um Pop provocador, empoderado e muito dançável.

A sua perspicácia está presente desde o início e percebemos que foi determinante para ter alcançado o sucesso. Desde os primeiros minutos do documentário, é claro como a sua personalidade é demasiado grande para ser personagem secundária. Isto reflete-se não só nas letras das canções e atuações ousadas, mas também nas decisões arrojadas que tomou para a carreira.

A ascensão da rainha da pop começou com um sonho, muita ambição e a convicção de que iria “rock the world”. Deixou a seu agente e foi, de forma destemida, atuar de discoteca em discoteca em vez de ceder à pressão das editoras, para estar mais perto das pessoas influentes, dos taste makers, dos gays! Atuava com uma tenacidade característica de quem está disposta a fazer tudo e a qualquer custo para alcançar os seus objectivos, noite após noite, guiada por uma visão clara e uma mensagem de amor e tolerância que a fazia desafiar os papéis de género, os conceitos de sexualidade e a religião.

A sua estratégia pouco convencional não passou apenas por deixar de correr atrás das editoras. Apesar de jovem, estava sempre atenta às tendências, e a sua astúcia fez com que fosse das primeiras artistas a reparar no potencial dos videoclips. Depois de Michael Jackson estrear o seu vídeo na MTV, percebeu que este formato seria muito melhor do que simplesmente passar as músicas na rádio. Este meio foi crucial para conseguir fazer chegar a essência de Madonna a todos os cantos.

Para além da história principal, seguimos as linhas tangentes mas tão influentes na sua vida. Vemos o peso da presença do irmão, e a importância do momento em que chega a Nova Iorque. A cidade estava no seu auge e através do seu melhor amigo, Martin, que foi sempre um grande apoio emocional e não só, ligou-se ao círculo cool de artistas New Wave, aquela que se tornou a sua maior base de fãs e onde se integrou tão bem. Por isso, quando a crise da SIDA apanhou Nova Iorque, foi um golpe muito duro para ela que perdeu muitos amigos e a cidade deixou de ser uma festa. Aqui o seu papel como ícone desta comunidade, foi reforçado pela forma como lutou para criar maior consciencialização. Tentou reverter o estigma sobre a doença, angariando dinheiro para a investigação e nunca deixou de o fazer mesmo quando a imprensa usava isso contra ela.

Claro que é quase impossível ter um documentário sobre personalidades famosas sem ter o enredo paralelo do seu mediatismo que, neste caso, usou todas as oportunidades para criticar, de forma abjeta, a artista com palavras cruéis e uma misoginia chocante.  

O filme ainda passa de forma breve pela sua relação com Sean Penn e os ataques às suas formas de arte, com o cancelamento de alguns shows da tour por terem alegadamente conteúdo pornográfico e a onda de indignação gerada pelo lançamento do seu livro Sex.

O trabalho de Michael Ogden é competente, mas não impressiona. Prende-se a demasiados clichés do género e faz com que pareça uma peça de reportagem de um canal televisivo e não uma obra digna de ser vista no grande ecrã. O documentário é declaradamente sobre um período específico da carreira da artísta e acaba por parecer mais uma bonita homenagem à comunidade LGBTQIA+ do que uma celebração do seu trabalho. No entanto, a sua maior falha acaba por ser o facto de não seguir um arco narrativo que nos prenda, contado de forma simplista e linear, o que faz parecer, no final, apenas incompleto.

Talvez este seja realmente um produto para retribuir tudo o que lhe foi dado pela comunidade gay, pois tive alguma dificuldade em sentir-me conectada à própria Madonna através do documentário. Apesar de todas as coisas impressionante e louváveis que são mostradas, a maioria das histórias já são conhecidas e acho que isto pode afastar os seus fãs e ao mesmo tempo as pessoas que não são grandes seguidores, porque existe uma grande distância emocional entre o espectador e a artista. Ainda assim, não podemos deixar de ficar agradecidos pelo que ela fez pelo movimento de libertação sexual e todo o legado que deixou. Acho que gostava de ter visto mais disso!

Most people wanna call me trash and a slut because I’m open about what I’m doing.  I don’t wanna have any sense of shame about it, and I don’t wanna have any sense of regret.  Why should I?” – Madonna

Becoming Madonna não é o derradeiro documentário sobre a artista, mas mostra a sua ascensão enquanto faz uma homenagem à comunidade gay e à cidade que escolheu para lhe dar palco, Nova Iorque. Depois de tudo o que lhe deram, ela retribuiu dando-lhes Madonna.

3/5

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