Com poucas surpresas para quem é de lá (eu incluído), o Entroncamento foi um dos três concelhos onde a extrema-direita venceu a câmara municipal nas eleições autárquicas de 2025. Um recente fluxo de imigrantes aliado a algumas melhorias nos transportes públicos (particularmente o passe verde), um longo historial de tensões com as comunidades ciganas e o aumento da criminalidade, são algumas das razões apontadas pelos habitantes desta cidade-dormitório, conhecida por acolher grande parte dos trabalhadores de Lisboa, Santarém e outras grandes cidades. A segunda longa-metragem de Pedro Cabeleira, natural do Entroncamento, procura desconstruir esses conceitos.
Depois de uma tensa troca de droga, num dos bairros sociais com maior presença cigana, entre o casal “Gilinho” (Henrique Barbosa) e Nádia (Cleo Diára) num lado; e Matreno (Rafael Morais) e Kadima (André Simões) noutro, acompanhamos a chegada de Laura (Ana Vilaça) ao Entroncamento, vinda de comboio e recebida pelo primo Bruno (Sérgio Coragem). Ao instalar-se, começa de imediato a procurar trabalho, com pouco sucesso: os cafés e restaurantes não precisam de ninguém, os cabeleireiros exigem experiência e o que resta são os supermercados – e há muitos no Entroncamento. É no regresso a casa que Laura ouve uma conversa do primo que acaba por desencadear a sua entrada no mundo do crime, como se esse fosse o destino inevitável para quem lá vive.
Há uma aura sufocante em Entroncamento que se manifesta no diálogo naturalista e agressivo (não me lembro de outro filme com tantos palavrões) e na cinematografia de Leonor Teles, que volta a colaborar com o realizador depois da longa-metragem Verão Danado (2017) e a curta-metragem By Flávio (2022). À noite, domina a penumbra, num cinzento recortado apenas pelas luzes de néon da rua ou da discoteca; de dia, surgem espaços quase inabitados do Entroncamento ou dos bairros sociais. Esta dicotomia entre western e noir molda o ambiente da cidade: um lugar vazio, opressivo, onde pouco há para fazer além de ceder aos vícios mais primitivos: o álcool, as drogas e o sexo. Para além disso, as cenas de ação têm um nível de violência chocante, sendo um reflexo do progressivo desespero e correspondente delinquência destas personagens.
O filme retrata também a multiculturalidade do Entroncamento, as tensões entre etnias marginalizadas e, sobretudo, o racismo dos brancos. Numa das cenas, uma mãe fala com a professora sobre o bullying que a filha sofre pelo facto do padrasto ser cigano, ao que a professora responde “mas ele é mesmo cigano”, revelando uma normalização de racismo profundamente entranhado. Noutra, a figura racista é alguém que trabalha em Lisboa mas vive no Entroncamento, exemplificando o elitismo e a dualidade entre quem sai para trabalhar fora, usando a cidade apenas como dormitório, e quem fica sujeito ao trabalho precário local. Mais tarde, vemos um homem a associar o aumento de criminalidade a imigrantes sentado à mesa com o filho e a sobrinha, ambos brancos e os maiores responsáveis por organizar e cometer crimes ao longo da narrativa.
A obra reúne atores profissionais e não atores, criando uma combinação interessante entre a expressividade e intensidade emocional dos primeiros e o naturalismo e autenticidade dos segundos. Ana Vilaça é magnetizante como a intensa Laura, que assume um papel semelhante a uma femme fatale, mas quem mais surpreende é Henrique Barbosa, que no seu primeiro papel consegue dominar cada cena em que aparece, tal é a força da sua presença. Os não atores são maioritariamente membros das comunidades de migrantes, o que contribui para o realismo e a autenticidade das relações.
É interessante como neste mundo de violência e crime, tipicamente associado a homens, o filme surpreendentemente assuma a perspetiva feminina de Laura e de Cleo. O papel de mulher e mãe representa aqui alguma réstia de esperança para o futuro, numa cidade que é constantemente assombrada pela presença de comboios em pano de fundo, o símbolo do desejo de uma iminente fuga em busca de melhores condições.
O ponto menos positivo da obra é passar mais tempo a acompanhar a degeneração das personagens, do que propriamente as condições que as empurram para esse caminho. A narrativa resulta para uma audiência já consciente dos problemas destas comunidades, mas o foco quase exclusivo no crime e na violência pode afastar precisamente o público que mais importava alcançar. Um dos aspetos que Entroncamento não explora suficientemente é a ausência de arte, cultura ou qualquer outro tipo de atividades na cidade, um vazio que contribui para o sentimento generalizado de estagnação e falta de futuro. Além disso, a escassez de oportunidades de trabalho é mostrada apenas pela perspetiva de uma mulher branca, retirando nuance e complexidade que o filme poderia, e talvez devesse, oferecer.
Entroncamento é, no fim de contas, um filme competente e guiado por excelentes intenções, com interpretações sólidas e uma cinematografia incrível. A sua ambição, porém, acaba por não atingir o impacto transformador que pretende, em parte por não aprofundar as estruturas que sustentam a desigualdade que procura denunciar. Ainda assim, permanece um contributo relevante, capaz de dar visibilidade ao Entroncamento dentro e fora de Portugal, especialmente após a sua passagem pela sessão ACID em Cannes. É um ponto de partida importante, mesmo que não resolva tudo o que pretende, e um sinal de que vale a pena continuar a olhar para estas realidades com o rigor e a atenção que merecem.