Crítica | When You Finish Saving the World (2023)

When You Finish Saving the World é um retrato original, ainda que desconfortável, do nosso tempo, em que todos falam, mas poucos comunicam. A empatia existe como conceito, sinal de virtude, mas na prática é frágil e, ao invés da compreensão, gera ruído. O filme mostra como a falta de empatia não aparece apenas em grandes conflitos ou em pessoas “más”. Aparece no banal, nos diálogos interrompidos, na impaciência disfarçada de pragmatismo, na incapacidade de olhar verdadeiramente o outro sem o reduzir a um pré-conceito. E o mais difícil é perceber que, muitas vezes, a pessoa mais distante pode ser aquela sentada mesmo ao nosso lado.

A história acompanha Evelyn (Julianne Moore), uma mãe que mantém um abrigo para vítimas de violência doméstica, e Ziggy (Finn Wolfhard), o seu filho adolescente, que vive mergulhado num universo virtual, a criar música para pessoas de diversas partes do mundo, todas distantes. Enquanto Evelyn se convence de que está a “salvar” pessoas pelo meio do seu trabalho e das suas causas, Ziggy constrói uma identidade que parece altruísta e consciente, mas que na verdade esconde carências profundas e uma enorme solidão. No centro do filme está a relação entre os dois: próxima em presença física, mas distante em entendimento – como se falassem idiomas diferentes dentro da mesma casa.

Esta foi a estreia na realização de Jesse Eisenberg, mais conhecido por interpretar Mark Zuckerberg em The Social Network (2010). O resultado é uma longa-metragem que surpreende pelo cuidado com que evita cair em moralismos fáceis. Ele filma a incomunicabilidade contemporânea como algo subtil, quotidiano e quase inevitável – sem transformar as personagens em caricaturas. A abordagem mostra um realizador que está mais interessado em pessoas do que em mensagens. Há delicadeza na forma como se expõe a contradição humana de querer fazer o bem e, ainda assim, ser incapaz de olhar para quem está perto. Todas essas características que ele aprofundaria na sua segunda experiência como realizador, no ótimo A Real Pain (2024).

Julianne Moore carrega o filme com a sua conhecida capacidade de tornar uma personagem difícil em profundamente humana. Isso pelo menos desde as suas parcerias com Paul Thomas Anderson em Boogie Nights (1997) e Magnolia (1999), até a mais recente com Pedro Almodóvar em The Room Next Door (2024). A sua Evelyn não é uma má mãe, nem uma heroína. É alguém real: bem-intencionada, activa, inteligente – e, ao mesmo tempo, cega em pontos essenciais. O jovem actor, revelado na série Stranger Things (2016-2025), diferentemente dos personagens, encaixa-se em perfeita sintonia com a sua “antagonista”, até porque evita o cliché do adolescente só irritante. Ele é, claro, frágil como a maioria dos meninos da sua idade, assim como também é sensível e inseguro.

A história é mais uma produção com a marca da A24, que costuma apostar em histórias mais ancoradas no desconforto da realidade do que na espetacularidade do inimaginável. Não se trata de grandes reviravoltas, mas de pequenas fricções que vão acumulando até doer. É cinema que aposta no subtexto, na tensão moral, na vergonha e na auto-justificação. Isso talvez seja uma marca da produtora: histórias onde o conflito não vem de vilões claros, mas do atrito entre boas intenções e maus resultados.

Todo o mundo visto de perto tem problemas, mas aqueles de que pouco sabemos podem parecer perfeitos. Esse é um dos pontos mais interessantes do filme, como desmonta essa ilusão provocada pelo distanciamento. O desconhecido parece sempre mais íntegro, mais fascinante, mais “salvável”. O que está longe pode ser idealizado. O que está perto exige o trabalho que cultivar um relacionamento dá. Nessa ironia, Evelyn dá-se inteira a uma causa e a pessoas que mal conhece, mas não consegue reconhecer o próprio filho. Ziggy, por sua vez, procura essa visibilidade fora, em seguidores online, a partir da imagem que constrói antes mesmo de saber exatamente quem é. Só a intimidade é capaz de revelar essas fraturas morais. A questão é que o amadurecimento emocional não está em negar ou fugir disso, mas em ficar e lidar com isso.

Ao mesmo tempo, When You Finish Saving the World trabalha um contraste que é quase filosófico: de um lado, a promessa lúdica do sonho e da poesia – de viver com significado. Do outro, o peso prático do mundo real, o instinto de sobrevivência do indivíduo – a necessidade de produzir, justificar, performar, “ser útil”. Ambas as personagens principais são atravessadas por isso. Evelyn vive no idealismo da coletividade, mas muitas vezes usa-o como forma de superioridade moral e autossustento identitário. Ziggy vive na estética da sensibilidade, mas tudo nele está contaminado pelo utilitarismo da atenção: dizer o que rende, sentir o que dá estatuto, existir como produto. O sonho, aqui, não é inocente. O idealismo também pode revelar o ego. E o utilitarismo não é apenas capitalismo económico – é também capitalismo emocional: o que é que a minha dor me rende?

No fim, o que mais fica não é o conflito em si – é a sensação de vazio. As personagens tentam preencher buracos com causas, com validação, com controlo, com discurso, com projectos. Mas falta-lhes o essencial: uma conversa honesta consigo mesmas. E isso traduz-se na tragédia silenciosa do auto-abandono. Quando alguém não se escuta por dentro, procura desesperadamente ruído por fora. Só que, no processo, perde o mundo real – e pode perder as pessoas que mais importam. O filme fala desse medo com muita precisão, porque muitas vezes a perda não acontece num momento dramático. Ela dá-se lentamente, em pequenas desistências diárias, no não perguntar, não reparar.

Assim, o filme é sobre o terror discreto da vida moderna: estar presente, mas ausente. E perceber tarde demais que, entre a ideia de salvar o mundo e o gesto simples de salvar uma relação, escolhemos quase sempre o que dá menos trabalho emocional. Não é uma obra perfeita, mas bem realizada e que provoca reflexão.

3/5

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