People We Meet on Vacation foi um dos maiores sucessos literários dos últimos anos, um clássico friends-to-lovers que conquistou o booktok e acabou por saltar para os ecrãs. Estreou diretamente na Netflix e conta com a realização Brett Haley (The Hero, 2017 e Hearts Beat Loud, 2018) que faz um trabalho insípido a transcrever esta história para imagens. O potencial cinematográfico do livro escrito por Emily Henry era evidente, um romance repleto de viagens resultaria, sem dúvida, em quadros bonitos de destinos paradisíacos e aventuras inspiradoras, no entanto o resultado é um mar de purpurinas mas com pouquíssima profundidade.
A história dá-nos a conhecer Poppy (Emily Bader), uma jovem adulta que tem aquilo que a maioria de nós pode considerar o emprego de sonho: viajar e escrever peças apaixonantes sobre as suas visitas. No entanto, percebemos que as coisas não estão a correr muito bem ainda que esteja, tecnicamente, a viver o sonho. No meio da azáfama da sua rotina, entre chegadas e partidas, recebe a chamada de um amigo a questiona-la sobre a sua presença no seu casamento que aconteceria dentro de alguns dias em Barcelona. Apesar de alguma reticência inicial, acaba por ceder quando descobre que Alex (Tom Blyth) está novamente solteiro.
A narrativa desenvolve-se em várias linhas temporais, a atualidade onde acompanhamos Poppy no fim‑de‑semana do casamento e os flashbacks que vão revelando quem é este amigo, Alex. As visitas ao passado começam no momento em que se conhecem na faculdade e logo a partir daqui conseguimos perceber como as personalidades de ambos são completamente opostas. Ela tem vontade de conhecer o mundo e ele apenas o desejo de ficar na sua pequena terra mas, apesar disso, desenvolvem uma relação improvável que nasce de um desafio para fazer uma viagem. Poppy obriga Alex a escolher um sítio qualquer no mundo e mesmo com muita dificuldade para arrancar uma resposta de Alex, este acaba por revelar um destino e embarcar nessa aventura, aí nasce o “Vacation Alex” uma versão mais divertida e livre dele.
A partir desse momento desenvolve-se uma relação entre eles, ancorada na promessa de que iriam continuar a viajar juntos uma semana por ano, todos os anos, independentemente de onde estiverem. E é assim que a ação vai avançando, entre memórias dessas viagens e o seu reencontro em Espanha. Tudo culmina, claro, num momento de alta intensidade romântica, pelo menos no livro, em que finalmente admitem os seus sentimentos, e atenção, não estou a fazer qualquer tipo de spoiler uma vez que esse é a premissa da história!
Infelizmente, este momento de climax não se traduz com a mesma intensidade que no livro. Como seria de esperar, a adaptação tem algumas diferenças relativamente ao original mas algumas acabam por prejudicar o filme e fazem com que se torne mais vazio e superficial.
Conhecemos bem as regras deste tipo de trope, mas falta-nos o contexto e um pouco mais de “strangers-to-friends”. Perdemos momentos cruciais da formação desta amizade que acaba por parecer um pouco forçada. Assim como muitos detalhes do caráter de algumas personagens – o que não afeta muito a personagem da Poppy, muito graças à excelente interpretação de Emily Bader que consegue captar bem a sua personalidade numa interpretação muito fiel ao que os leitores esperavam. Por outro lado, e de forma quase oposta, uma das maiores falhas do filme é a criação da personagem de Alex o que acontece não tanto por falha do ator, Tom Blyth, que faz um trabalho competente, mas principalmente por falta de contexto, ao cortarem algumas cenas do livros importantes para o seu desenvolvimento e que justificam melhor as suas ações. Este vazio faz com que muitas vezes pareça ser apenas frio e insensível o que pode desapontar um pouco quem leu o livro.
Não seria de esperar que este filme nos fizesse questionar o sentido da vida, mas Emily Henry conseguiu conquistar o coração de muitos leitores com uma história romântica com mais nuance, repleta de momentos divertidos e um Alex que adora ler, mas muito disso não se viu na longa-metragem, e o resultado é mais uma produção banal da Netflix para ver e esquecer.
Acredito que o filme funcione melhor para quem não tem o termo de comparação, mas ainda assim não deixa de ser uma comédia romântica muito morna que contribui apenas para a má reputação do género.