O poder da ganância é um que caminha interligado com a evolução humana. Desde os primeiros passos do antepassado Australopithecus, ou melhor dizendo desde que o ser humano ganhou consciência, que este é motor para decisões onde a moralidade não parece habitar. É também um dos sete pecados capitais e, por isso, é também parte integrante de outro mecanismo do Homem para o seu próprio auto-controlo – a culpa e o consequente arrependimento, com a qual anda sempre de mão dada.
Esta curta-metragem, da autoria de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, transforma este dilema profundamente humano numa metáfora poderosa sobre o tema subjacente da ganância. Esta é a história de um rapaz, órfão e abandonado nas ruas de Montreal, que sobrevive de esmolas e luta, todos os dias, para ter o que comer e onde dormir. Um dia encontra uma casa abandonada, geminada com outra, onde vive uma rapariga, consumida pelo desgosto, que chora amargamente todas as noites. Neste caso em particular, essas lágrimas transformam-se em belíssimas pérolas de valor incalculável. Um sentimento parece crescer dentro dele e questiona-se se isto será aquilo chamado de amor que tanto falam mas que ele nunca sentiu. Movido pela necessidade acaba por usar as pérolas para proveito próprio e entra numa espiral de ganância. Conseguirá o amor prevalecer sobre a ganância?
Como todas as fábulas, desde o princípio dos tempos, serve como lição e aviso para os que sucumbem aos seus poderes. É um argumento que aposta na simplicidade e consegue, nos enxutos 17 minutos, dizer tudo o que tem a dizer, sem grandes subterfúgios. Isto não é uma crítica negativa mas sim um aviso, a quem quer entrar no mundo do cinema, de que por vezes o caminho linear é a escolha certa para o projecto. O facto de usar a clássica estrutura de alguém mais velho, um avô, contar a história à sua neta acaba por ser a cereja no topo do bolo – a quintessência da fábula.
A simplicidade fica, no entanto, restringida ao bom argumento pois a nível visual a complexidade de que se reveste é de assinalar e de uma beleza enorme. Desde logo na escolha da animação stop-motion para construir os cenários e mover as suas personagens. Já disse inúmeras vezes, nas minhas críticas, de este ser o método de animação de excelência e de ser o ideal na representação do ser humano. O único onde as impressões digitais, as imperfeições e o toque humano, sempre presente na sua elaboração, realçam ainda mais essas características. E a escolha de o fazer nesta forma de animação, em que meros segundos podem demorar semanas a filmar, nunca deixa de me impressionar e emocionar em igual medida.
Os cenários surgem sumptuosos em dimensão, onde o uso de textura adquire uma importância extrema. O uso de madeiras, pedra, têxteis e muitos outros materiais, na sua construção, criam uma experiência táctil difícil de negar e tornam o espectador numa parte integrante da narrativa. A música e o design sonoro conspiram nesse mesmo sentido e acompanham de modo sóbrio e competente toda a narrativa mas parece faltar algo que o distinga de tantas outras produções. Alguma pena de esse extremo cuidado, na construção deste mundo, não ter também passado para a demonstração de sentimentos das suas figuras, que surgem sem expressão na maior parte dos casos, retirando, por isso, a possibilidade de esta produção atingir outro nível mais elevado e de nos deixar envolver emocionalmente com as suas personagens.
Com a chegada do fim de The Girl Who Cried Pearls chega-nos a lição expectável, não a que esperávamos mas a que realmente precisamos nestes tempos de desinformação. Esta última decisão acaba por redimir as decisões menos felizes durante a sua duração e garantir uma qualidade acima da média. Desde um argumento simples mas eficaz até ao bom trabalho sonoro, é, no entanto, no design de produção e nas escolhas criativas que o filme brilha.