Fora da segurança das salas de cinema convencionais, existe uma selva cinematográfica marginal e transgressora de valores e padrões das suas indústrias. Quem se atrever a explorá-la irá ao encontro dos limites da fantasia humana, experienciando sem filtros, obras com as mais diversas temáticas tabus, populares da sua época.
Este paracinema, à semelhança da audiência que o desbrava, começou a ganhar um estatuto de culto através do seu fascínio pelo provocador e sensacionalista, que encontravam nas grindhouses e drive-ins o seu templo psíquico despido de constrangimentos morais e culturais. Filmes como Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965), Night of the Living Dead (1968) e Cannibal Holocaust (1980) recorriam a sexo, violência, gore, canibalismo e, até mesmo, a elementos sobrenaturais como zombies enquanto peças basilares da sua narrativa. Assim, o seu sucesso comercial não dependia necessariamente das suas qualidades formais, mas da introdução de novos objetos de estudo ao grande ecrã que chocassem as suas audiências. Os exemplos mencionados, seja pela exploração destas temáticas ao extremo ou pelo seu papel histórico no desenvolvimento de géneros cinematográficos, conseguiram, apesar de tudo, imortalizar estes desviantes no cânone.
Contudo, são diversas as obras que elevam esta lógica de exploitation a outros patamares abdicando, por completo, da sua coerência narrativa e estética em prol de um cocktail de temáticas sonantes. O resultado materializa-se em filmes como Raw Force que nos convidam a navegar num cruzeiro pelo Oceano Pacífico, acompanhados de um grupo amador de artistas marciais em direção à mítica Ilha dos Guerreiros. O único problema? A ilha é habitada por monges canibais que traficam jovens prostitutas com a ajuda de um nazi para assim realizarem rituais mágicos e acordar antigos samurais do seu descanso eterno.
Se a sinopse desta coprodução filipino-americana parece confusa, é garantido que o filme excederá essas expectativas, contudo, torna-se fútil criticar as escolhas formais do realizador Edward D. Murphy e restante equipa que resultaram nesta amálgama absurdista. Ao longo do filme, torna-se percetível que o objetivo nunca passou por construir uma obra alinhada com os padrões dos filmes de ação e comédia da década de 80, mas sim apresentar uma alternativa com uma proposta totalmente diferente: encher os 82 minutos da sua duração com o máximo de momentos indutores de dopamina possíveis.
Este feito foi atingido com uma sucessão de eventos progressivamente mais absurdos que culminam numa catarse extremamente camp derivada de escolhas formais bizarras que incluem slowmotion, cortes abruptos, sonoplastia desregulada e atuações de nível pornográfico que impedem a audiência de tirar os olhos do ecrã com receio de perder a próxima decisão criativa. Decisões essas complementadas por um argumento hilariante alinhado na perfeição com a excentricidade em tela. De igual modo, os nossos heróis do clube de Karaté de Burbank executam satisfatoriamente as coreografias marciais, equilibrando os elementos de ação e comédia com eficácia.
Raw Force é certamente um filme contextual. Uma obra que surge no fim da era dourada do cinema de exploitation e que, por isso, bebe de toda a influência que lhe antecedeu. Naturalmente, entende-se que não é um filme que eleva a sétima arte de algum modo, mas é uma obra que, pelo seu total desprezo pela coerência artística e restantes conceções formais, consegue desprender-se do expectável e criar uma experiência de consumo divertida e envolvente, não sendo surpreendente a elevação da obra a estatuto de culto entre aficionados do(s) género(s).