Como continuar uma história que capturava na perfeição o tempo que todos vivíamos em plena pandemia? Greenland (2020) chegou num momento em que o mundo tinha parado e que se assemelhava ao fim do mundo como o conhecíamos até ali. A pandemia de COVID retirou-nos a liberdade e com isso a possibilidade de escolher como e onde nos divertíamos. A única possibilidade era nos ecrãs disponíveis em casa. A televisão, e por conseguinte, o entretenimento tornou-se de vital importância para suportar e, acima de tudo, manter a nossa sanidade mental. Tudo isto conspirou para uma tempestade perfeita que acabou por trazer um filme que, provavelmente, em condições normais estaria vetado a segunda ou terceira opção nas escolhas dos espectadores. E teria sido esse o seu destino inevitável mas o universo tinha outros planos e acabou, muito graças a um argumento enxuto e verdadeiro, por se tornar um êxito inesperado.
O chamado “fim do mundo”, que o filme inicial prometia, terminava em confinamento e na espera de um possível recomeço num futuro não muito distante. Ora, 5 anos depois, é tempo de sair para o mundo novamente e, apesar dos efeitos nefastos sobre o planeta, procurar uma nova casa longe do bunker na Gronelândia que lhes tinha dado outra oportunidade para a vida. Os rumores de um local assim começam a circular mas as certezas são poucas. A necessidade premente acaba por imperar e começa a migração para a “terra prometida” – Mito ou Realidade? Isto é Greenland 2: Migration, uma sequela inevitável mas fica a pergunta se era realmente necessária a sua existência.
Numa primeira instância a resposta a essa pergunta é um sim, fruto de um ambiente mundial onde o ser humano parece ter perdido o norte e acima de tudo a esperança num futuro melhor, mas no final do filme é provável que a resposta seja outra bem diferente. Apesar dos 5 anos de intervalo entre os projectos este parece, desde logo, uma produção apressada. Começa muito bem com algumas sequências de acção impressionantes, para abrir as hostilidades, mas mesmo estas parecem reduzir ou mesmo desaparecer em quantidade e qualidade de produção, com o avançar dos minutos. Quase como se o orçamento tivesse terminado mais depressa do que o esperado e tenha sido preciso abreviar ou simplificar soluções para concluir a história.
Tanto Gerald Butler como Morena Baccarin estão de regresso e continuam de forma bem-sucedida o arco narrativo das suas personagens. Reconheço não ser o maior fã do actor mas este defende bem a personagem e cria mesmo novas avenidas emocionais para lá do óbvio e do esperado. Morena Baccarin é uma actriz injustamente pouco considerada, fruto do tipo de papéis que escolhe, mas o talento e a capacidade de tocar o espectador e o puxar para a história está sempre lá. Em relação à opção de mudar o filhos de ambos, Nathan, para Roman Griffin Davis as dúvidas começam a surgir. Provavelmente uma decisão de conveniência mas mudar para pior, com uma interpretação sofrível na melhor das hipóteses, numa personagem que é a âncora central do argumento acaba por ser um erro imperdoável. Os actores secundários fazem o seu papel, de carne para canhão, chegando, debitando umas frases e desaparecendo num abrir e piscar de olhos. Isto acaba também por, de certa maneira, telegrafar o final quase desde o início como uma previsível inevitabilidade. Ainda assim consegue manter um ténue nível de tensão, enraizado fundamentalmente a nível emocional, mas não estamos em 2020 e a oferta é muito melhor e bem mais diversificada.
Ric Roman Waugh está de regresso, 5 anos depois, para terminar a saga com Greenland 2: Migration mas o mundo não é o mesmo e o espectador também não. Continuamos a querer estar com a família Garrity e a desejar um final feliz para a sua viagem, fruto principalmente do duo de protagonistas e de uma primeira meia hora onde a acção e o espectáculo visual são reis, mas é sol de pouca dura.
Apropriado terminar com uma citação do grande T.S. Elliot, relativo ao fim do mundo – “É assim que o mundo acaba / Não com um estrondo mas com um gemido”. Para bom entendedor meia palavra basta.