Criado por Kei Urana, com colaboração visual do artista de graffiti Hideyoshi Andou, Gachiakuta marca a estreia da autora numa série shounen e consolida a sua voz como uma das mais interessantes da nova geração. Depois de trabalhar como assistente de Atsushi Ohkubo no mangá Fire Force, Urana absorveu tanto o funcionamento da indústria como a confiança necessária para desenvolver uma obra autoral, inspirada por uma experiência pessoal simples, mas poderosa: perceber que objectos descartados carregam valor emocional. Essa ideia torna-se o núcleo temático desta série, que usa o lixo como metáfora social para desigualdade, exclusão e violência estrutural. A adaptação em anime, produzida pelo estúdio Bones Film, encerrou a sua primeira temporada em Dezembro de 2025 e rapidamente se destacou entre os lançamentos do ano.
A narrativa acompanha Rudo Surebrec (V.O. Aoi Ichikawa), um adolescente que vive no chamado Paraíso, uma sociedade dividida entre ricos e pobres, onde os habitantes do gueto são tratados como descendentes de criminosos. Órfão e constantemente julgado pelos crimes do pai, Rudo dedica-se a recuperar objectos descartados, valorizando aquilo que os privilegiados rejeitam. Após ser acusado injustamente do assassinato do seu pai adoptivo, Regto (V.O. Toshiyuki Morikawa), é condenado a ser lançado num abismo que serve tanto de punição como de depósito de lixo. Sobrevivendo à queda, Rudo descobre um mundo tóxico habitado por monstros formados a partir dos resíduos humanos e passa a lutar pela sobrevivência ao lado de um grupo que combate essas criaturas, enquanto alimenta o desejo de regressar ao Paraíso para se vingar de quem o condenou.
Embora Kei Urana não esteja directamente envolvida na produção do anime, o trabalho do director-chefe de animação e design de personagens, Satoshi Ishino, revela um cuidado notável em traduzir para o ecrã o estilo visual e a força expressiva do mangá. A série aposta numa mistura ousada de linguagens artísticas, que vai da colagem à sobreposição de texturas, passando pelo uso pontual de animação em 3D e, claro, pela presença marcante do graffiti. Essa diversidade estética não surge como mero adorno, mas como extensão da própria narrativa, dando forma ao caos e às tensões de uma sociedade construída à margem do Paraíso. O contraste visual é claro e eficaz: sobriedade nos espaços da elite, um realismo cru nos guetos e um ambiente poluído, agressivo e caótico no mundo esquecido para onde Rudo é lançado e onde a história, de facto, se desenrola.
O design de personagens é outro dos grandes destaques da obra. Costuma dizer-se que o segredo para criar figuras memoráveis em animes passa por olhos e cabelos marcantes e, em Gachiakuta, isso é levado a sério de forma quase meticulosa. Basta observar com atenção para perceber que os olhos de cada personagem são únicos, variando em cor, formato e intensidade. Quando existem semelhanças evidentes, elas costumam indicar algum tipo de ligação familiar ou narrativa. Essa atenção ao detalhe estende-se à expressividade corporal, não apenas nas feições, mas também na forma como cada personagem se move e ocupa o espaço. A fisicalidade comunica personalidade, estado emocional e história de vida, tornando cada figura imediatamente reconhecível. O resultado é um elenco que foge de arquétipos repetidos do género e consegue ser memorável precisamente pela sua singularidade.
As roupas funcionam também como uma linguagem própria dentro de Gachiakuta. Existe um cuidado evidente em traduzir, através das vestimentas, tanto a sociedade em que cada personagem está inserido como a sua personalidade. Há figurinos exuberantes, quase espaciais e futuristas, que refletem poder, privilégio e excesso, ao lado de roupas que expõem a pobreza extrema, construídas a partir de remendos, sobreposições e fragmentos de outras peças, como se cada corpo carregasse a história do que foi descartado. Mesmo assim, nada parece aleatório ou desleixado. Pelo contrário, essa mistura cria uma estética tão refinada quanto crua, que soa tanto verdadeira e quanto próxima do imaginário da alta-costura, reforçando o contraste constante entre abandono, identidade e expressão.
O esmero do estúdio Bones Film com a animação justifica plenamente o favoritismo de Kei Urana pelo estúdio. A qualidade do traço e do movimento mantém-se consistente mesmo nas sequências de acção mais rápidas, permitindo ao espectador acompanhar com clareza cada detalhe da coreografia das lutas, sem perder impacto ou fluidez. Além disso, há um cuidado notável na composição dos enquadramentos, que raramente existem apenas por estética. Cada plano carrega informações relevantes para a narrativa ou contribui directamente para a imersão naquele universo e para a compreensão emocional das personagens, reforçando a sensação de que forma e conteúdo caminham sempre lado a lado.
As qualidades técnicas já seriam suficientes para colocar Gachiakuta em destaque entre as produções de 2025, mas é na sua base narrativa que a obra revela uma ambição ainda maior. A construção de mundo e do seu sistema de poderes é simultaneamente simples, complexa e profundamente criativa. Neste universo dominado pelo lixo, existem pessoas conhecidas como givers, indivíduos que cuidam de objectos com tamanha devoção que acabam por lhes atribuir uma alma, transformando-os em armas poderosas. Esses artefactos recebem o nome de jinkis, ou, na tradução portuguesa, instrumentos vitais. Esta lógica não serve apenas como motor para combates visualmente impactantes, mas estabelece um sistema narrativo fértil, capaz de gerar conflitos, emoções e momentos marcantes que se expandem muito para além da primeira temporada.
Mesmo com este sistema de poderes bem definido, a narrativa não se apoia exclusivamente nele para construir as cenas de acção. Há momentos em que os confrontos deixam de ser apenas uma disputa de força entre instrumentos vitais e passam a funcionar como choques entre vivências e visões distintas sobre o mundo. No arco final da temporada, duas personagens chegam mesmo a abandonar as suas jinkis e a resolver o conflito através da força física, dando origem a uma das sequências de luta mais cruas e impactantes da obra. Quando uma delas percebe que não tem capacidade física para vencer, recorre a uma alternativa extrema que choca o espectador e reforça a ideia de que este universo procura ser brutalmente realista, onde a sobrevivência se impõe acima de qualquer código moral.
A construção desse mundo realista aprofunda-se ainda mais quando a narrativa passa a explorar os conflitos internos e externos das personagens, sobretudo os de Rudo. A sua personalidade reflecte com clareza a vida que levava no Paraíso: embora carregue raiva e desejo de vingança por ter sido rejeitado, estigmatizado e ferido tanto pelo pai biológico como pela sociedade que o rodeava, existe nele uma camada profunda de empatia e cuidado por aqueles que se mostram dispostos a aproximar-se. Esse traço nasce directamente da convivência com o pai adoptivo, Regto, a única figura que lhe ofereceu afecto genuíno nesta época. A tensão entre o ódio dirigido a um sistema injusto e o desejo íntimo de criar laços, de amar e ser amado, torna-se uma das dinâmicas mais densas e emocionais da série, conferindo humanidade a um protagonista que poderia facilmente resvalar para o arquétipo do herói movido apenas pela violência como solução para tudo.
O desenvolvimento das personagens é consistente e cuidadosamente construído. Em séries longas, como muitos animes, é comum que acontecimentos impactantes ocorram apenas para, logo a seguir, os protagonistas regressarem ao mesmo ponto emocional, criando um ciclo artificial de aprendizagem e retrocesso que serve apenas para prolongar a narrativa. Esse não é o caso de Gachiakuta. Ao longo da série, observamos mudanças reais e duradouras, tanto nas relações pessoais como na forma como cada personagem se posiciona socialmente. À medida que novos conflitos surgem e o elenco se expande, os vínculos entre as personagens aprofundam-se, as suas visões do mundo transformam-se e o amadurecimento acontece sem amarras narrativas. O resultado é uma sensação constante de progresso, em que a história avança de forma orgânica e recompensadora para quem acompanha.
Um dos momentos mais impactantes da série surge no arco dedicado à personagem Amo (V.O. Kana Hanazawa). À primeira vista, ela parece encaixar-se num estereótipo recorrente dos animes, uma figura leviana e hipersexualizada. Essa leitura superficial não é apenas partilhada pelo espectador, mas também pelos próprios protagonistas, que a observam com desdém e preconceito. Tudo muda, porém, quando Amo revela a sua história, emocionalmente devastadora. A direcção artística acerta em cheio ao recorrer a uma estética que remete para desenhos infantis, suavizando visualmente cenas pesadas sem jamais esvaziar o seu peso emocional. Pelo contrário, esse contraste torna os traumas da personagem ainda mais dolorosos e ajuda a compreender as marcas psicológicas que justificam o seu comportamento e até o seu próprio design. O impacto dessa revelação é tão forte que não abala apenas o público, mas também as personagens. Rudo, que até então reagira com raiva e violência perante Amo, passa por uma mudança decisiva, revendo não só a forma como se relaciona com ela, mas também a maneira como encara a vida e o mundo que o rodeia.
Como conjunto, Gachiakuta revela-se uma obra rara no panorama actual dos animes, ao conseguir equilibrar uma execução técnica de alto nível com um olhar profundamente humanizado sobre os seus personagens. A animação ousada, o design marcante e a direcção artística experimental colocam a série num patamar visual que se destaca claramente entre as produções contemporâneas, mas é na consistência do seu desenvolvimento narrativo e emocional que reside a sua verdadeira força. As personagens evoluem de forma orgânica, são moldadas pelas consequências das suas acções e carregam marcas reais dos conflitos que enfrentam, sem regressos artificiais ao ponto de partida.