Crítica | Dead Man’s Wire (2026)

Oito anos depois, Gus Van Sant regressa ao formato de longa-metragem para nos trazer uma história verídica, passada nos anos ’70 no estado de Indianapolis, sobre um homem que ganhou a atenção de todo o país na sua tentativa de fazer justiça pelas próprias mãos. Pode dizer-se que há momentos em que a nossa atenção está presa por um fio, mas um inconformado Bill Skarsgärd impede que essa ligação rompa e mantém-nos entretidos no nosso lugar enquanto cresce a incerteza sobre como tudo irá acabar.

No dia 8 de Fevereiro de 1977, Tony Kiritsis (Bill Skarsgärd) sequestrou Richard Hall (Dacre Montgomery), filho de M. L. Hall (Al Pacino), dono da empresa Meridian Mortgage, com o intuito de reaver o dinheiro que havia perdido num negócio que correu mal e, segundo Tony, onde foi enganado pela dita empresa. Os métodos utilizados pelo raptor foram eternizados pelas imagens dos meios de comunicação da época que deixaram o país colado ao ecrã durante dias.

A impressão que temos do próximo é pouco fiável quando a mesma é baseado em aparências e opiniões alheias. Uma pessoa a partir do momento em que entra na esfera do conhecimento público vagueia entre caracterizações tão distintas quanto ladrão e herói nacional, ou alguém íntegro e um perigo para a sociedade. O enredo é muito simples e passa por poucas variações, sendo a diversidade de reacções de elementos policiais e imprensa perante a anomalia que Tony Kiritsis representa em relação a um acto de sequestro “comum” o que confere dinâmica à trama.

A composição musical de Danny Elfman contribui para a alusão de um ritmo mais condizente a um thriller, não obstante boa parte do filme se passar com os dois protagonistas sozinhos num apartamento, sem grandes diálogos, deixando maioritariamente a acção e conversa para o sequestrador. Frequentemente a edição opta por imagens que pretendem relembrar-nos da veracidade da história, apesar da sua aparente insanidade, o que aguça a nossa curiosidade e coloca mais peso nos acontecimentos. De um modo geral, os vários departamentos são competentes e remam para o mesmo lado, mesmo não atingindo brilhantismo.

Al Pacino tem uma participação especial (porque ainda podermos ver Al Pacino representar é especial); Dacre Montgomery é cirúrgico na gestão dos olhares, da energia de uma pessoa numa situação fragilizada, do medo que um pico de raiva faça Tony explodir e ao mesmo tempo da tentativa de empatar com o seu raptor de modo a fazê-lo baixar a guarda, e Colman Domingo é a pura definição de cool com o seu Fred Temple, locutor de rádio local altamente respeitado pela comunidade e em particular por Tony Kiritsis. Mas estes actores e o restante elenco acabam por ser tão convidados quanto nós no espetáculo à parte protagonizado por Bill Skarsgärd.

O actor sueco encontra neste projecto uma nova oportunidade para exibir o seu vasto arsenal de atributos, conduzindo a sua performance com uma voz e fisicalidade bem diferentes das suas, algo já habitual no seu trabalho. A imprevisibilidade que imprime na personagem faz-nos conjugar alguns sentimentos contraditórios em relação a si. Ora sentimos vontade de o defender e de o associar a um Robin Hood, ora sentimos pena por ser uma vítima da sua própria ignorância e por isso mesmo ser explorado por pessoas poderosas e insensíveis às consequências provocadas nas vidas de pessoas menos letradas; como num instante já sentimos estar a assistir a um comboio desgovernado e a um homem desligado do bom senso, involuntariamente a fazer uma cama de pregos para se deitar. Com base nas suas escolhas, o que se seguirá na carreira de Skarsgärd pode não ser material considerado pela academia, mas enfadonho não será certamente.

Dead Man’s Wire conta uma história com quase 50 anos, no entanto revela muitos dos problemas que enfrentamos na realidade actual, como desigualdade e falta de empatia. O ser humano anda tanto em círculos quanto um rato de laboratório e as conclusões dessas voltas sem fim não parecem acrescentar sabedoria. Valham-nos os Skarsgärd desta vida para nos entreterem entre as curvas.

3.5/5

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