Sabem quando estão a tentar dormir e repentinamente surgem todas as nossas piores memórias, os nossos momentos mais humilhantes e os nossos arrependimentos? Quando tudo o que de horrível fizemos ou nos fizeram irrompe no instante em que fechamos os olhos e simplesmente temos de batalhar contra estes pensamentos intrusivos para conseguirmos finalmente adormecer. Quando o nosso corpo ansioso por repouso é recluso da nossa mente que derrete entre tristeza, vergonha, raiva, gargalhadas mas principalmente por um vazio que aumenta gradualmente até consumir a nossa cama. Friendship captura diabolicamente esta sensação, sendo uma versão maléfica de I Love You, Man (2009), uma comédia simultaneamente hilariante e devastadora, completamente constrangedora, que usufrui do sentido de humor peculiar de Tim Robinson para explorar o conceito de amizades masculinas contemporâneas. É possível homens serem realmente amigos?
Craig (Tim Robinson) é um homem normal. Aliás, aparenta ser um homem normal: tem uma família, um emprego estável, está entusiasmado pelo próximo filme da Marvel (There’s a new Marvel out that’s supposed to be nuts!) – aspectos regulares da pessoa comum. No entanto, existe uma profunda solidão. As suas noites são dedicadas a estar sentado no sofá, a olhar para o seu telemóvel, desligado do mundo. Assim é a sua rotina até conhecer o seu novo vizinho, Austin (Paul Rudd), um metereologista charmoso que convida Craig para uma noite de cervejas e uma inesperada aventura pelos esgotos. Assim é criada uma ligação que melhora a vida de ambos: Austin sobe na sua carreira através dos seus conselhos, enquanto Craig ganha uma apreciação pela sua própria existência, afectando positivamente a sua família. É uma conexão especial e o nosso protagonista não consegue evitar imaginar um futuro onde mesmo perante o apocalipse, esta amizade permanece forte. Parece perfeito. Até Craig destruir tudo acidentalmente numa situação demasiado insana para o grupo de amigos de Austin. Desta forma, um bromance transforma-se num breakup movie.
Desesperado para reaver o que perdeu, um sentido de comunidade, esta personagem cai num buraco existencial sem compreender que continua em queda livre, arrastando tudo no seu caminho. Obviamente, para a audiência, a vida de Craig é estranha desde o início: a sua esposa Tami (Kate Mara) menciona incessantemente como a sua presente proximidade com o seu ex-namorado Devon a ajudou a superar o seu cancro; o seu filho beija a sua mãe na boca e queixa-se das complicações financeiras de ter várias namoradas; Craig compra as suas roupas num restaurante e a sua obsessão com os spoilers da Marvel atinge proporções quase violentas. O normal nunca é exactamente normal. Craig é apenas uma vítima desta condição mundial, atormentado por um segredo que a sociedade e os seus habitantes escondem dele, aflito para ser aceite pelos outros, para ser uma pessoa supostamente normal. O seu emprego em marketing implica transformar produtos e pessoas em algo essencial para a nossa felicidade, estabelecer uma exigida dependência nestes para podermos prosseguir nos nossos dias – uma apta alegoria para a percepção de Craig sobre o mundo, as suas relações e a sua ideia de normalidade.
Friendship sobressai na sua comédia absurdista sem abandonar o seu cenário realista, idêntico ao nosso mundano. É como se Gregor Samsa de The Metamorphosis (1915) fosse incapaz de reconhecer a sua metamorfose. Andrew DeYoung, realizador e argumentista, escreveu este protagonista propositadamente para o comediante Tim Robinson – celebrado pela sua brilhante série de sketches I Think You Should Leave (2019-2023) e a mais recente fantástica surpresa The Chair Company (2025-) –, cuja marca de humor reside neste componente humano, especificamente masculino, de constrangimento, raiva e impotência, onde os seus seres procuram desesperadamente encaixar numa sociedade com regras autoimpostas impossíveis de decifrar. Quando fracassam, a solução nunca é parar ou afastar, é continuar até as barreiras fazerem parte do chão.
Tim Robinson é um dos melhores comediantes desta década – consigo assistir ao actor a gritar durante horas, sem parar de sorrir –, e a sua performance como Craig é histericamente engraçada, provocando enormes gargalhadas somente com as suas reações. DeYoung produz uma simbiose ideal entre narrativa e actor, entregando a Robinson sequências igualmente divertidas e tresloucadas para ele nadar à sua vontade – uma cena com um sapo tem uma puchline genial que quase me matou a rir. Paul Rudd é uma escolha incrivel para o acompanhar, sendo um mestre de piadas awkward, todavia, ao contrário do protagonista, nunca perdendo o seu carisma e amabilidade. É um casting perfeito porque denota as claras semelhanças e diferenças que marcam as personas dos actores. As personagens de Rudd demonstram as suas inseguranças navegando pela maré, com receio mas também jovialidade e um rosto irresistivel que age como a sua bússola, enquanto as de Robinson exibem os seus medos ao gritar contra as ondas, confusas com a função do próprio barco.
Contudo, Andrew DeYoung recusa-se a depender apenas do talento cómico, reforçando os conceitos desta longa-metragem através da direção de fotografia de Andy Rydzewski, que banha as imagens com contrastes intensos e sombras fortes, usando o ambiente invernal para salientar a solidão, a frieza e a tristeza coberta pelas gargalhadas disparatadas, e através da banda sonora de Keegan DeWitt que usufrui de um coro masculino para iluminar os temas de masculinidade, e de sons electrónicos que recordam os clássicos de aventura, onde rapazes construiam ligações eternas nas suas jornadas pelo desconhecido. Friendship é uma comédia hilariante com a iluminação de uma obra de terror sinistra e com a composição musical de um coming of age moderno abandonado a meio da sua viagem. São estes elementos que elevam o filme e o destacam como uma das melhores criações contemporâneas dentro deste género.
No fundo, atrás do rídiculo, Friendship revela receios que todos partilhamos: o nosso pavor dos códigos sociais desconhecidos, a nossa vontade de participar, a necessidade de pertencer, de fazer parte da piada mesmo quando não percebemos a piada. Compreendemos a aversão que as pessoas alheias sentem perante o comportamento deste homem mas sabemos paralelamente que estamos à beira desta sua espiral, onde cada passo feito para emendar os nossos erros acaba por infectar ainda mais a ferida aberta. Não existe nada particularmente especial em Austin, além do charme inevitável de Paul Rudd, aliás existem imensas características humilhantes e dignas de comparação entre as duas personagens. Todavia, para este protagonista, é uma amizade que representa tudo o que ele sempre careceu. Sentir-se aceite. Nesse sentido, somos todos como o Craig.