Lançado em 1973 e realizado por Nicolas Roeg, Don’t Look Now surge num momento de viragem do cinema britânico e europeu, em que as convenções narrativas tradicionais começam a ser questionadas e a dar lugar a abordagens mais fragmentadas, ambíguas e orientadas para a experiência sensorial. Uma adaptação de um conto de Daphne du Maurier, o filme mistura thriller psicológico, terror e drama ao mesmo tempo que explora um lado sombrio da cidade de Veneza, um reflexo do estado emocional das suas personagens.
O filme abre com a morte acidental por afogamento de Christine (Sharon Williams), filha de John Baxter (Donald Sutherland) e Laura Baxter (Julie Christie). Algum tempo depois, o casal desloca-se para Veneza, após John aceitar um trabalho de restauro numa igreja antiga. Durante a estadia, conhecem num restaurante duas irmãs idosas, Heather (Hilary Mason) e Wendy (Clelia Matania). Cega e medium, Heather revela a Laura que consegue comunicar com a filha falecida do casal.
O impacto psicológico do luto, bem como a tensão entre espiritualidade e racionalidade, são os pontos centrais do filme. John, incapaz de processar a morte da filha, reage através da negação e rejeita qualquer dimensão espiritual, enquanto Laura encontra precisamente nessa abertura ao transcendente uma forma mais eficaz de lidar com a perda. John procura apoio em diferentes instituições como forma de reconstituir ordem, controlo e racionalidade. A polícia, o padre e até o administrador do hotel surgem como figuras de autoridade às quais John recorre na esperança de encontrar explicações objetivas para aquilo que o inquieta. No entanto, estas instituições mostram-se ineficazes, burocráticas ou indiferentes, incapazes de responder ao sofrimento íntimo.
O filme funciona também como um comentário subtil sobre a masculinidade e a incapacidade de lidar com emoções. É precisamente John, que mal demonstra qualquer emoção, quem acaba por se descontrolar psicologicamente, passando a alucinar, a identificar o casaco vermelho da filha pelos becos de Veneza e a mergulhar progressivamente num estado de paranoia constante.
A cidade de Veneza é despida da sua imagem turística e romântica, sendo filmada como um espaço opressivo, labiríntico e claustrofóbico. As ruas estreitas, os becos sem saída e as fachadas em ruína, sobretudo filmadas durante a noite, ganham uma dimensão fantasmagórica e funcionam como uma extensão do estado psicológico de John. Este retrato é tão sombrio e perturbador que o filme chegou a ser encarado como um insulto para muitos venezianos.
O filme também é forte no seu simbolismo, especialmente na forma como o usa como premonição de um destino inescapável. A água em que Christine se afoga e onde são encontradas duas mulheres assassinadas, a cor vermelha associada ao sangue e ao casaco vermelho de Christine, os espelhos e reflexos, a visão e a cegueira, a igreja, o tempo fragmentado e o perigo iminente de morte, são tudo símbolos recorrentes. Estes elementos constroem uma rede de presságios que conduz inevitavelmente ao desfecho trágico e reforça a ideia de que o futuro está inscrito no presente, mesmo quando as personagens se recusam a reconhecê-lo.
É impossível não falar da montagem deste filme, que contribui de forma decisiva para o seu caráter revolucionário. Desde a cena da morte da Christine, antecipada pelo derrame de água por cima de um detalhe vermelho de uma fotografia, criando a ilusão de uma mancha de sangue, passando pela extensa cena de sexo dividida com cortes para a próxima cena do casal a vestir-se, até ao momento em que John é confrontado com uma visão que só mais tarde ganha sentido. A montagem mistura presente, passado e futuro de forma fluida e desorientadora, transformando o tempo num elemento moldado pela memória, pelo trauma e pela premonição e reforça a sensação de fatalismo que atravessa toda a narrativa.
Contudo, alguns pontos narrativos do filme sentem-se excessivamente soltos. A cena de sexo, considerada controversa pela crítica da época por ser demasiado gráfica e não parecer simulada, pouco acrescenta à narrativa para além do jogo da montagem com imagens do futuro. A linha narrativa do assassino que afoga as mulheres também carece de alguma conclusão clara, servindo sobretudo como simbolismo. Por fim, o filme constrói uma tensão profundamente absorvente, mas opta por um desfecho mais sensacionalista do que esclarecedor, algo que funciona a nível sensorial mas não deixa de ser desapontante.
Don’t Look Now afirma-se como uma obra inquietante, onde a forma e conteúdo se entrelaçam de maneira singular. É um filme que recusa dar respostas claras, procurando antes transmitir a experiência do luto como agoniante, onde a percepção do tempo e espaço se encontram distorcidos pelo trauma. O sofrimento profundo das personagens é transformado numa experiência sensorial para o espectador e reforça a ideia de que recusar aceitar o luto não é o mesmo que o ultrapassar.