Crítica | As Meninas Exemplares (2025)

Quem se lembraria de misturar o universo da pintora Paula Rego com um dos livros mais célebres da Condessa de Ségur? Em Portugal apenas um nome me ocorreria para levar a bom porto esta amálgama de referências – João Botelho. Um dos poucos realizadores a trabalhar em Portugal com a capacidade para se transformar a cada projecto e de se adaptar à história que quer contar – o verdadeiro maverick do cinema Português. Goste-se ou não do estilo, e do ritmo que impõe às suas histórias, nunca lhe poderá ser negado, principalmente nos filmes mais recentes, esse facto incontestável.

As Meninas Exemplares trilha o caminho que tem seguido desde sempre, o do universo literário de grandes escritores. Depois de nomes como Diderot, Eça de Queiroz, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Fernão Mendes Pinto, Alexandre O’Neill e, claro, o seu querido Fernando Pessoa, agora é a vez de Condessa de Ségur. Como é apanágio de João Botelho, no seu argumento escrito a meias com Leonor Pinhão, há uma alteração inesperada. O twist com que nos brinda é o uso de actores/actrizes adultos no papel de cada criança. Acompanhamos a história de Camila (Crista Alfaiate), Madalena (Catarina Wallenstein) e Margarida (Joana Botelho), as chamadas “meninas exemplares”, e de Sofia (Rita Durão) que não parece partilhar do comportamento irrepreensíveldas amigas. Uma odisseia que mistura regras da sociedade, tipos de educação e os equilíbrios “políticos” ténues no tão particular mundo das crianças.

É uma decisão arriscada que poderia ter falhado nas mãos de um realizador inexperiente, ou com actores menos talentosos, mas não é o caso para nenhuma destas situações. Por um lado, João Botelho não leva os assuntos tratados, que se revestem de alguma seriedade, à letra e infunde o argumento com um humor nonsense, físico sempre que possível, corrosivo a espaços e com laivos de comédia negra quando é imprescindível chocar ou interpelar o espectador. É uma narrativa onde a comédia prevalece, mas onde o drama é usado como reflexão sobre a condição e o papel de cada criança na sociedade. Quase como um manual para os pais, através de um prisma infantil, em que o trauma tem o papel principal, mas onde a bondade acaba por tirar, gesto a gesto, o seu protagonismo.

Por outro lado, nos intérpretes, o talento está presente em todo o elenco mas nem todos o conseguem transformar da melhor maneira e com o sentido claro que o argumento quer transmitir. Felizmente, as “meninas exemplares” estão em sintonia no tom desejado e é uma delícia ver as suas tropelias e os exageros dramáticos com que revestem as suas personagens. Falo claro de Crista Alfaiate, Catarina Wallenstein, Joana Botelho e Rita Durão, que dividem entre si o manto de carregar o filme. Sente-se o espírito do livro nas palavras ditas e o uso de actores adultos, nas personagens infantis, acaba por fazer todo o sentido pois um dos pontos mais estranhos do livro é a linguagem demasiado formal das crianças, quando estas têm apenas entre 4 e 8 anos. O talento revela-se no uso fenomenal da comédia slapstick, na recriação do espírito livre, próprio das crianças, mas também na manutenção de um coração adulto nas cenas mais duras, onde os sentimentos negativos necessitam de prevalecer. Existem muitas outras personagens que entram e saem da narrativa, mas apenas uma fica na memória no lado das personagens adultas, a madrasta de Sofia, interpretada por Rita Blanco. Não porque haja algo de errado com os restantes intérpretes mas porque Rita Blanco é absolutamente fenomenal, como sempre.

A verdadeira vitória das opções criativas apresentadas é, no entanto, a infusão do imaginário visual da pintora Paula Rego como ponto nevrálgico da narrativa, de uma profunda feminilidade. As personagens masculinas são meros adereços, muitas vezes apenas para um passo de dança, enquanto noutras ocasiões surgem apenas como facilitadores da vontade feminina, principalmente para Sofia – a personagem pela qual a história se desenrola. Os conhecedores da obra da pintora vão identificá-la no guarda-roupa, onde os vestidos de cores simples dominam, nos fundos pastel reminiscentes dos seus quadros, na disposição dos adereços e nos cenários,muitas vezes tirados a papel químico de obras célebres da pintora. Onde, no entanto, a sua verdadeira essência transparece é no ambiente avassalador de sofrimento no feminino e no revelar de experiências traumáticas, onde o belo se mistura com o grotesco. A violência é parte fundamental desta equação e nunca se coíbe de mostrar a malvadez escondida, mesmo na mais pura e inocente das criaturas – a criança. O mesmo se poderia dizer nas escolhas musicais onde surge melódica e etérea, reminiscente do lado fantasioso sempre presente na obra da pintora, e martelada e sufocante, num diálogo dissonante entre cordas e sopro, concebido para desarmar o espectador e testar os limites do desconforto. Haverá sentimentos mais verdadeiros para definir a obra de Paula Rego?

Uma mulher, a narradora de serviço, espreita pelo buraco da fechadura no início do filme. Dentro dela encontra este invulgar mundo das crianças onde fantasia, comédia e drama se misturam no seu dia-a-dia. Existe riso, brincadeiras e traquinices, próprias das crianças, mas estas estão longe de ser inocentes ou simplificadas na demonstração dos seus sentimentos e experiências. É particularmente incisivo no modo como revela a educação, como pilar na edificação de cada indivíduo, e a subverte para mostrar o que a falta de valores, o moralismo bacoco e a influência que os adultos podem ter na repressão da vontade e dos desejos das mesmas. Estas crianças-adulto, segundo Paula Rego, são o epitáfio do autoritarismo na educação. Porque a criança só cresce se puder sonhar ou no minímo dançar, livre de amarras. Paula Rego ficaria com certeza orgulhosa.

 

4/5

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