You Won’t Be Alone (2022)

de João Iria

A raiz do sofrimento nasce violentamente nas solas da humanidade, infiltrando-se como veias sanguíneas pelas pernas, atribuindo um peso excessivo mental à nossa existência, arrastando esta lentamente e dolorosamente para uma finalidade inevitável, enterrada por familiares, coberta por uma camada de terra e abraçada pelo universo, com os olhos cerrados. Somente deitados na nossa morte, quando os olhos permanecem eternamente fechados, conseguimos compreender a poesia da nossa existência. Perante a melancolia de viver, desvendar motivos por persistir contra a consciência da malignidade que envolta os seres humanos, depende principalmente de uma perspectiva individual e do corpo que habitamos que promove essa visão particular. Aprisionados a uma pele cujo fado emocional e físico apresenta-se traçado por uma árvore genealógica e pela natureza que a rodeia.

No Século XIX, numa montanha isolada na Macedónia, Maria (Anamaria Marinca), uma Bruxa denominada como Comedora-de-Lobos pelos aldeões, observa o seu propósito nas lágrimas alheias de uma recém-nascida. Desesperada por manter a sua filha em segurança, a mãe desta criança cria um acordo com esta misteriosa figura cicatrizada, que desaparece carregando consigo a voz desta rapariga. Destinada a ser entregue a esta entidade tenebrosa, no seu 16º aniversário, a mãe procura fugir ao contrato de sangue, escondendo a sua recém-nascida numa gruta, distante do mundo, com as janelas de Deus a recordar-lhe das cores além da sua existência. Oposto à celebrada história da Bela Adormecida, Nevena (Sara Klimoska), acorda na sua juventude, liderada por Maria, para inaugurar o seu batizado como Bruxa e fundar uma nova vida.

You Won’t Be Alone é um conto de fadas macabro acerca da existência humana, a sua procura por significado e as correntes malévolas que amaldiçoam os seres à sua própria carne, alimentados pelo seu sangue. Para os pobres aldeões desta montanha, os seus corpos são a sua única posse. Sorriem no companheirismo feminino, masturbam-se através da imaginação, criam famílias por um sentido de dever que cresce para paixão, trabalham até o seu último batimento cardíaco. Para Nevena, uma inocente jovem com capacidades de transformação física, simultaneamente maravilhada e assustada com este novo mundo, o seu corpo é uma oportunidade de se aventurar, acidentalmente, pelos olhos destes desconhecidos, habitando diversos sujeitos enquanto procura compreender a humanidade e a sua própria pessoa.

A sua inocência comanda a sua viagem pessoal, influenciada pela sua curiosidade e necessidade de descobrir este expansivo espaço e os seus curiosos habitantes. Essa mesma ingenuidade assiste Nevena, transportada entre carne e violência, a emular os aldeões para perceber as suas ações, os seus medos, as suas gargalhadas e a sua felicidade entre uma existência miserável. Incapaz de verter “água dos olhos”, ou de interpretar o seu papel, conforme o corpo que ocupa, com genuíno gosto, a jovem estranha as diferenças de género, testemunhando os abusos físicos, emocionais e sexuais destas mulheres da montanha, que sobrevivem isoladas na sua comunidade, desconhecendo a sociedade além do vermelho que presenciam diariamente. Os homens selvagens, silenciosos, isentos de um guia paciente, cuja agressão determina um futuro cíclico, abrem espaço para uma vida dominante todavia sangrenta. Para a adolescente, a esperança persiste na juventude libertadora que nunca sentiu; no crescimento situado neste palco extenso que o nosso planeta oferece como recreio, descortinando as maravilhas que o desconhecido futuro reserva. Onde aprende a existir.

A estreia do realizador e argumentista, Goran Stolevski, nas longas-metragens, deambula ocasionalmente entre rostos, inevitavelmente produzindo uma sensação de repetição, e depende particularmente dos monólogos internos da sua protagonista, que arriscam constantemente em cair no pretensioso e desligar a audiência emocionalmente do seu núcleo narrativo principal. A sua delicadeza na realização, combinando o ambiente de fábula com uma atmosfera documental e experimental intensifica a jornada dramática solitária de Nevena, amplificada pelas diversas excelentes performances cuja naturalidade impressiona imediatamente, destacando Noomi Rapace, Alice Englert, Carloto Cotta e Sara Klimoska nesta majestosa pintura expressionista da condição humana.

Maria persegue Nevena como um fantasma; a sua pele queimada é uma recordação da crueldade humana e o possível destino desta jovem, que se empenha em descobrir a sua identidade por corpos alheios, desvendando camadas psicológicas pessoais em cada epiderme que veste. Na sua guerra com o negrume que a sua antecessora pincelou na sua matéria física, e com a angústia provocada pelos seres humanos que a rodeiam, Nevena esforça-se por escapar uma solidão insignificante, intensificada pela direção de fotografia extraordinária que enjaula a imagem num aspect ratio de 4:3, encurralando a protagonista numa visão contida deste planeta colossal. Os seus planos gerais grandiosos diminuem as personagens como meros insectos neste mundo cuja dimensão se expande além dos seus sonhos, do seu físico e da sua existência, elaborando uma contradição fascinante onde estas figuras permanecem o centro visual em frames íntimos e, simultaneamente, liliputianos perante a dimensão descomunal da natura. Somos protagonistas de um mundo com milhões de histórias, distantes dos nossos olhos; o escopo da nossa existência captada neste conceito visual, onde a humanidade é incapaz de atravessar as barreiras da sua visão periférica. Como compreender genuinamente um mundo e os seus seres face a esta inevitável limitação da existência?

You Won’t be Alone concebe uma sombria fábula sobre as vozes que ecoam em almas vazias. Para a sua protagonista muda, a comunicação surge através da interação física, do calor social e dos olhares compreensivos partilhados entre seres em sofrimento, que defrontam o seu tormento diariamente com aceitação. O significado perdura como um mistério, todavia a sua importância cessa após o afetuoso sorriso das ligações que criamos além das estirpes. Adormecemos essa melancolia de viver e persistimos em acordar até os olhos cerrarem eternamente; até absorvermos o infinito espectro de emoções que as raízes providenciam aos nossos corpos; até entregarmos a nossa existência inteiramente à natureza.

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