Um Filme em Forma de Assim (2022)

de Pedro Ginja

Há uma magia na poesia. Palavras soltas, ordenadas de maneira aleatória que se juntam para formar algo com sentido ou sem sentido (pelo menos aparente), mas que acabam por tocar alguém de maneira profunda. Existem alguns poetas mais certeiros que outros e Alexandre O’Neill é sem dúvida um dos abençoados. O surrealismo, usado na escrita, era a sua maneira de “lutar” e a palavra era a maior arma ao dispor do cidadão para resistir e não se submeter. Homem dos sete ofícios a sua escrita passou do jornalismo, à criação de antologias, traduções, poesia, prosa e até trabalhos na publicidade o que lhe valeu muitas vezes problemas com a PIDE. Como o próprio dizia, preferia “estoirar a definhar” e assim viveu professando a liberdade e o viver sempre no limite seguindo os seus desejos.

Um Filme em Forma de Assim é o último filme de João Botelho e é um retrato livre do homem, Alexandre O’Neill, através do uso da sua própria voz, os seus textos. Condensá-lo numa sinopse é quase um crime, mas se tal fosse necessário podemos dizer que é um musical assumido mas sem grande vontade de assim se intitular. É uma história de um homem, o próprio O’Neill (Pedro Lacerda) que deambula pelos seus “lugares” enquanto reflete no que é a vida, as suas paixões, os seus desejos e a sua verdade.

Por ser um filme produzido durante a pandemia é genial no uso de uma localização, neste caso um armazém, para recriar uma Lisboa que não existe, mas é familiar. Os constrangimentos da pandemia nestas grandes produções criaram o ambiente ideal e permitem à fotografia de João Ribeiro uma liberdade total para criar a atmosfera surrealista, decadente e sedenta de prazer sem amarras patente na obra de O’Neill. O nível de controlo da iluminação e do espaço utilizado, que remetem para uma peça teatral, possibilitam a criação de metáforas visuais durante o filme e de alegorias do passado transportadas para a nossa realidade do dia-a-dia.

Botelho sabe que O’Neill era um provocador e o ambiente de desafio ao status quo do cinema nos dias de hoje é uma constante durante todo o filme e relembra o saudoso João César Monteiro, o eterno provocador em criar arte no cinema, nunca consensual, mas sempre original e criativo. À frente da câmara o talento é inegável, com Pedro Lacerda a comandar o filme como Alexandre (persona de O’Neill), juntamente com Cláudio da Silva no papel de um fotógrafo, que mais parece um alter-ego de O’Neill, ou podemos arriscar e dizer que todo o elenco é O’Neill, de corpo e alma, de prosa e poesia.

A transformação da palavra em música é orgânica e atravessa todo o panorama musical como, por exemplo, jazz, música clássica, dance music mas também canção popular portuguesa, sátiras musicadas, canto acapella (sem o uso de instrumentos musicais, apenas voz) alternando com declamação de poemas ou textos de O’Neill formando um singular caos longe das normas narrativas do cinema, demarcando um território único e original, por vezes incoerente mas sempre relevante.

João Botelho é um assumido fã do poeta Alexandre O’Neil e este Um Filme em Forma de Assim é a sua sentida homenagem a um dos grandes artistas do séc. XX. Baseado nos seus poemas e textos, João Botelho, cria um objeto artístico sem igual nos últimos tempos e confirma o seu estatuto de último maverick no atual panorama do cinema português.

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