Um Dia Frio (2009)

de Janai Reis

O calor do íntimo

Esta curta-metragem de Claúdia Varejão é um conjunto de narrativas paralelas entre uma família composta pela mãe (Maria d’Aires), o pai (Adriano Luz) e dois filhos, um rapaz de 13 anos (Vicente Wallenstein) e uma rapariga mais velha (Ana Rodrigues). Seguimos o caminho de cada um deles, desde o acordar até o regresso a casa. Em cada uma destas quatro narrativas seguimos caminho para o íntimo, onde são revelados os segredos de cada um dos membros desta família. O pai, com um trabalho solitário e com a sua mãe doente, com uma possível demência. A mãe preocupada com a sua saúde, a fazer exames ao corpo. O rapaz, que falta às aulas para poder dormir mais um pouco, ficar em casa a divertir-se enquanto aguarda pelos efeitos da puberdade. A rapariga, que também falta às aulas para se encontrar com uma amiga e desenvolver a sua relação. Contudo, logo desde o início do filme repara-se em algo frio.

Não só a cor, maioritariamente azulada, mas também a forma como a família interage entre si. Falam-se com poucas palavras –  o primeiro “bom dia” é ouvido quando estão todos reunidos na cozinha, mas isolados em si mesmos. Não é que exista uma falta de carinho, muito pelo contrário, o carinho é demostrado com alguns gestos entre eles – a mãe a acordar o filho, a irmã que diz ao irmão “eu saio contigo” quando este se despede da família, entre outros momentos – contudo, esse carinho parece distante. E é nesta distância que se foca o filme. A distância do “mundo exterior” que afeta parcialmente cada membro da família e o modo de se relacionarem. Mas, então, o conflito? O antagonista? A resolução da narrativa? Não há. Não há propriamente um conflito ou um antagonista – a própria vida apenas acontece – e, em relação à resolução, essa fica para a nossa imaginação, pois um filme termina de forma semiaberta. O filme acaba apenas com um dia frio.

Tendo em conta a montagem paralela, esta é uma obra que vive bem o seu ritmo dando tempo ao tempo e ao espectador que a observa. Partindo do princípio que esta história não tem um arco narrativo, ou que não segue o modelo dos três atos, é possível afirmar que este é um filme que respira da narrativa suspensa – quando o filme pausa a narrativa para mostrar apenas um momento, sentimento, estado de espírito, entre outras ideias, de um personagem. Claúdia Varejão não faz nem mais nem menos do que partilhar este espaço caloroso do íntimo de cada uma das personagens que nos é tão familiar de algum modo.

O reduzido diálogo e a lente bem próxima dos rostos e das mãos, em grande plano, transforma estas imagens em traços de rostidade, imagens de afeção (Deleuze, 2016). Desta forma, a realizadora transporta-nos para este lugar do íntimo e do individual, ao mesmo tempo que transforma o individual em coletivo: no universo fílmico com a utilização da montagem paralela, e no diálogo com o espectador que observa a obra. Quando o dispositivo se torna tão próximo de um objeto, a ponto de alcançar a contemplação do mesmo, parece certo dizer que é fácil criar a relação de intimidade entre o observador e o observado, entre a própria intimidade do espectador e a intimidade do personagem.

Uma curta-metragem que acompanha a mente e o coração para lá dos seus 27 minutos de duração, para fora do ecrã, que abre portas e convida qualquer pessoa a abrandar o ritmo e a mergulhar no seu íntimo racional, sensorial, emocional ou todos estes, em simultâneo.

Esta crítica é acompanhada por um ensaio audiovisual de estrutura simples com o intuito de colocar a trilogia de Claúdia Varejão em diálogo. Desta forma é possível contemplar a estética dos filmes em separado, comparar os seus momentos nas questões narrativas e formais ou fazer as duas coisas em simultâneo. Ainda que este ensaio possua um lado analítico e lógico, foi construído também a pensar nas sensações e na experiência desta trilogia dos (des)encontros.

4/5
2 comentários
2

Related News

2 comentários

Luz da Manhã (2012) - Fio Condutor 20 de Dezembro, 2023 - 20:33

[…] de Cláudia Varejão do (des)encontro familiar, que inclui os filmes Fim-de-Semana (2007) e Um Dia Frio (2009), e fá-lo de forma mais sensorial. No silêncio da rotina quotidiana, observamos a relação […]

Responder
Fim-de-Semana (2007) - Fio Condutor 2 de Junho, 2023 - 22:33

[…] Varejão, e o primeiro de uma trilogia de desencontros familiares. Esta prequela espiritual de Um Dia Frio (2009), passa-se numa casa de ferias durante um fim-de-semana onde o silêncio que prevalece traz […]

Responder

Deixa Um Comentário