Tracing Utopia (2021)

de Antony Sousa

(Filme em exibição no Festival Política em Loulé)

Tracing Utopia, um documentário sobre a comunidade queer, destaca um grupo de adolescentes que se junta, virtualmente, para criar um espaço seguro onde podem ser quem querem ser e sentem ser. Um espaço onde, sem julgamentos e através de compreensão, eles se conseguem rever nas histórias uns dos outros.

Catarina de Sousa e Nick Tyson realizaram e produziram o filme, e merecem todo o crédito que receberem. A execução é dinâmica, com imagens de manifestações da comunidade LGBTQIA+, dos próprios a dar a cara, de criações do jogo Minecraft representando parte dos adolescentes entrevistados e um misto de conversa aberta entre os jovens e as perguntas de Nick Tyson que, na verdade, não soam nada a entrevista e são sim a oportunidade de ouvir mais das experiências da comunidade e dos conflitos diários que enfrentam na sociedade e em casa.

No entanto, o mais importante a reter do documentário, e a razão para o maior aplauso pela sua realização, é que acabamos Tracing Utopia com a convicção de que o futuro tem de pertencer à empatia, tem de pertencer à conversa e, neste caso em particular, à escuta profunda. O que acontece quando nos afastamos um pouco das nossas certezas e impressões instintivas dos outros é que ouvimos algo que não poderíamos prever ouvir, porque não é a nossa realidade, porque não aprendemos nada até nos calarmos e darmos espaço para a experiência de outros seres humanos nos ser comunicada.

Finalmente, compreendemos o sentido da máxima de que somos todos diferentes e todos iguais, todos nós nos podemos rever nos sentimentos do outro a qualquer momento da nossa vida. O meio para esse sentimento será sempre pessoal e único e todos temos um cérebro com potencial de autenticidade, mas, no final de contas, só teremos progredido enquanto espécie quando todos tiverem oportunidade para dar a sua voz. Vozes que não se sobrepõem à seguinte, que dancem juntas até se acrescentarem uma à outra, sem ego e ignorância. O ego e ignorância desvanecem quando genuinamente servimos e ajudamos alguém que precisa. E muitas vezes isso representa simplesmente ouvir.

Se podes ajudar alguém, fá-lo, é dito perto do fim e resume a utilidade do filme, resume, provavelmente, o próximo passo de uma longa caminhada que precisa de ser feita até chegarmos ao estado de consciência coletiva, de respeito e paz.

5/5
0 comentário
0

Related News

Deixa Um Comentário