The Whale (2022)

de João Iria

Escrever uma crítica de The Whale é atribulado. Uma crítica nunca funciona como uma verdade absoluta, é uma verdade pessoal. Maleável conforme a experiência de uma pessoa, as suas emoções, a sua disposição, o seu dia, a sua pessoa. Através desta introdução sinto a necessidade de providenciar contexto e descrever-me nas seguintes palavras: um homem perto da obesidade mórbida, careca no rebentar da adolescência e, com a exceção dos leves anos antes de atingir uma maturidade que me endividou com novas preocupações, sentimentos e responsabilidades, um indivíduo cujo volume corporal sempre ultrapassou a média. Uma pessoa que após a pandemia, isolou-se no seu quarto, iluminado somente pelo ecrã do seu deteriorado portátil aparafusado. O escuro providencia segurança; sair em público exige um esforço indescritível – não devido ao físico, por motivos emocionais. Termina-se este parágrafo, então, com uma confissão de uma caminhada pela autodestruição física até uma morte prematura, pois sente-se uma parasítica ideia de ser desmerecedor de viver.

Autodestruição é um tema que percorre o cinema de Darren Aronofsky. A ligação entre obsessão e vício, entre o desgosto pessoal e o desejo por uma melhor existência, são conceitos espelhados na sua filmografia. De semelhante familiaridade ao realizador como as suas metáforas religiosas e um estilo individual de desmembrar as suas películas com uma visão melancolicamente denegrida acerca da relação entre o “eu” e o corpo. Aronofsky esventra as componentes cinemáticas visuais e auditivas das suas narrativas, como um artista obcecado por desvendar a verdade entre frames. Em The Whale, o cineasta encontra o seu novo corpo.

Charlie (Brendan Fraser) é um homem morbidamente obeso, que sofre de um transtorno de compulsão alimentar, exilado na sua casa com um emprego de professor de um curso online que permite esconder a sua figura numa sala com justificações de uma webcam danificada. Desculpa e lamento são as palavras recorrentes de uma pessoa que sente necessidade de pedir perdão pela sua própria existência, consciente do fardo que os seus entes queridos carregam ao manter uma conexão consigo. A sua amiga enfermeira, Liz (Hong Chau), empenha-se em assisti-lo nesta descida a um inferno de sadismo gordurento; Thomas (Ty Simpkins) dedica-se a salvar a sua alma com a sua igreja, New Life. O único ser que oferece resistência em conviver com Charlie é a sua filha abandonada, Ellie (Sadie Sink) – uma rapariga perdida no ato de rebeldia contra o mundo – com quem ele tenta retomar uma relação.

Este elenco é preenchido por personagens em processo de autodestruição, com os seus métodos exclusivos de negar a sua oportunidade de encontrar felicidade; a submissão ao sofrimento de um amigo próximo cuja tortura produz memórias dolorosas; a incorporação de um cinismo desumano; ou comer a sua dor até à morte. É difícil mas é mais fácil.

O ato do renascimento espiritual como tese deste argumento, opera impecavelmente na produção desta longa-metragem com a escolha de casting de Brendan Fraser, um ator desprezado por Hollywood na última década, que renasce em The Whale com uma das melhores performances deste ano. Atuações similares colocam uma constante dúvida nos limites dos atores pois geralmente os body suits e as intensas caracterizações comunicam mecanicamente a emoção das personagens. Esta é uma interpretação física que não pertence somente ao impressionante trabalho de efeitos prostéticos; é o ator que revela o sofrimento de Charlie, a sua compaixão, sentido de humor, otimismo e amor por uma vida que nega a si próprio, no seu vulnerável olhar. Ele sente o peso da personagem literalmente e metaforicamente e entrega-se completamente ao seu corpo.

Fraser é a estrela desta criação, todavia um excelente elenco acompanha o ator com incríveis atuações que vivenciam a alma destas personalidades como Hong Chau e Sadie Sink. Ellie acompanha o seu pai numa viagem incorpórea pelos seus arrependimentos; a relação entre os dois é o coração desta narrativa. Aronofsky impede que os tons exagerados de uma adolescente maldosa sobressaiam como maléficos ao colocar esta história nos olhos de Charlie. Um homem incapaz de encontrar crueldade mesmo que esta o humilhasse nas redes sociais com uma fotografia privada e um texto insultuoso. Ele apenas consegue ver vergonha em si próprio. Neste sentido, a conexão entre audiência e este ensemble revela-se como inconsequente, pois a perspetiva de Charlie e os seus sentimentos ditam a visão desta obra.

Aronofsky surpreende na sua compreensão deste aspeto essencial acerca do seu protagonista e, assim, contém-se nos seus visuais, mantendo o ambiente numa única localização distante da edição frenética e dos seus movimentos de câmara maníacos. Similar a uma peça de teatro – esta é, afinal, uma adaptação de uma peça de teatro – o realizador concebe imagens desprovidas de movimento, como a rotina estática de Charlie. A sua casa é destituída de vida, um espaço frio onde as paredes emitem um cheiro a mofo, a mobília apresenta-se como defunta e os quartos como um limbo de negrume onde a iluminação é restringida a um nível vampírico. É claustrofóbico, desconfortável e exaustivo na sua longa duração de duas horas. 

Se Aronofsky se retém nos visuais, compensa na construção impecável dos seus frames compostos como um diário e nos restantes aspetos da sétima arte. A banda sonora de Rob Simonsen ultrapassa proporções do género de terror, invadindo os instantes dramáticos com uma impulsão exorbitante; a edição de som quebra silêncios com a intensidade de um jumpscare, representando a antecipação da aguardada morte. Na vida de Charlie, as impressões são potentes e cada segundo é um momento de espera. Os seus dias estão no seu trabalho, nos seus livros, ensaios, nas suas palavras. Portanto, são as palavras que o realizador intensifica até à equivalência das emoções desta personagem.

Nada em The Whale é subtil. É uma história previsível para admiradores do cineasta, que descobrem de imediato a presença dos seus pontos narrativos favoritos. Diversos temas permanecem no escuro enquanto os principais são mencionados diretamente em diálogos como as óbvias metáforas de renascimento espiritual mas Aronofsky é um realizador de emoções, e esta é uma obra de profundidade emocional devastadora.

A arte da manipulação está enraizada no cinema; a sua essência está em encontrar honestidade neste ilusionismo. Nestes textos, a sétima arte é desconstruída em frases; na sala de cinema é para sentir, para viver. Se uma crítica é uma verdade pessoal, ninguém pode retirar a sensação de ser finalmente compreendido nem o poder de um último frame que entrega uma claridade fundamental para a audiência sentir a sua própria existência. A realidade é que nada nos pertence, os corpos entram em deterioração até à sua inevitável decomposição. As memórias escapam com a fragilidade da mente. Tudo o que temos são palavras. Estas são as minhas.

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