The Teachers’ Lounge (2023)

de Bruno Sant'Anna

A estabilidade emocional de uma escola alemã é abalada após denúncias de roubos a ocorrer na sala dos professores. A atmosfera de desconfiança e tensão entre todos os envolvidos na instituição de ensino, só aumenta quando a direção começa a aplicar métodos nada ortodoxos para encontrar o culpado, tais como pressionar os líderes das turmas a denunciar colegas que são possíveis suspeitos, e vistorias humilhantes aos alunos e alunas durante as aulas. O desconforto é geral, mas afeta profundamente Carla Nowak (Leonie Benesch), professora do 7º ano, que identifica as ações dos seus superiores como símbolos de um sistema burocrático, opressivo e preconceituoso. Após um dos seus pupilos – filho de imigrantes turcos – ser acusado e exposto sem nenhuma prova concreta, Nowak inicia uma investigação por conta própria, que irá mergulhar o local de trabalho num mal-estar coletivo ainda maior, só que com ela no centro de todos os conflitos.

Representante da Alemanha na categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares 2024, The Teachers Lounge (em português, A Sala de Professores) é um thriller tanto psicológico quanto social, muito semelhante ao estilo de narrativa presente nas produções do também alemão Michael Haneke. O público é apresentado a um cenário aparentemente corriqueiro, como interações familiares ou locais de trabalho, e a tensão virá do conjunto de comportamentos normalizados entre as personagens, que carregam um forte simbolismo da sociedade em que estão inseridas. Em obras deste tipo, os conflitos não vêm de super-vilões ou do embate dicotómico entre o bem e o mal: aparecem através de complexos sentimentos humanos, como a indiferença, o preconceito e valores morais.

A longa-metragem realizada por Ilker Çatak é ambientada numa escola justamente para construir uma alegoria sobre as arrevesadas relações hierárquicas que compõem uma sociedade e como esses níveis sociais se chocam uns com os outros. Temos a classe dominante representada pela direção da instituição, a camada mais vulnerável são os estudantes e tanto os professores quanto os pais são diferentes mediadores entre o topo e a base da pirâmide. Há uma estrutura extremamente rígida imposta para que tudo funcione, a simbolizar um sistema administrativo burocrático e nacionalista, e qualquer conduta fora de ordem acarreta uma represália para todos que vivem na margem, porém, com mais ênfase naqueles considerados “desvios” de padrões, como migrantes ou pessoas pobres.

A mensagem mais intrigante de The Teachers Lounge é que qualquer tipo de mudança dentro de um grupo, mesmo que seja bem intencionada, pode culminar em todos os setores (mesmo os dominados) voltarem-se contra essas modificações. A personagem da professora é inclinada a combater atitudes que ela julga preconceituosas vindas da direção, porém, a forma como tenta resolver a questão do roubo deixa-a num imenso desconforto com todas as pessoas da escola. A sua autoridade e índole são questionados e confrontados por professores, pais e até pelos seus próprios alunos, tornando-a uma pária pelas pessoas que ela mesma defende.

Um dos maiores trunfos da obra é a escalada de tensão que se vai construindo a cada pequena e grande ação da personagem principal, junto com as respostas das personagens secundárias. Desde os primeiros minutos até o fim, a sensação de ansiedade e imprevisibilidade aumenta, deixando o espectador vidrado naqueles acontecimentos e com o coração apertado a cada desdobramento da história. As atuações competentes aumentam ainda mais o envolvimento do público, em especial a protagonista Leonie Benesch, que compõe um arco complexo e sensível para a professora que interpreta.

Embora o argumento seja competente no desenvolvimento da tensão, peca em outros quesitos. Para que os conflitos continuem a escalar e tomar proporções maiores, muitas atitudes questionáveis são tomadas pelas personagens. A professora Carla transforma-se quase numa mártir, sendo que o método que adotou para identificar o ladrão é extremamente antiético e ela, de certa forma, tenta exonerar-se disso. Ao mesmo tempo, outras personagens sofrem drásticas transformações nas personalidades para que a empatia com a protagonista continue, como todos os alunos que se viram contra ela de forma infundada e sem explicação aparente.

Colocando todas estas considerações na balança, The Teacher s Lounge cristaliza-se como um thriller extremamente eficaz e profundo. É capaz de deixar o espectador extremamente aflito e envolvido, provocando inúmeras reflexões durante muito tempo após os créditos finais aparecerem. Um filme interessantíssimo que consegue destacar-se no meio de tantos bons lançamentos que tivemos em 2023.

4/5
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