The Mitchells vs The Machines (2021)

de João Iria

Quando The Mitchells vs the Machines iniciou o seu processo de marketing nas redes sociais, foi partilhada uma imagem desta longa-metragem que revelava a família desta narrativa, à mesa de jantar, concentrada nos seus dispositivos de comunicação e um pai desapontado pelos restantes membros estarem desligados do momento. A resposta online surgiu com similar desilusão, todavia, por motivos contrários pois o frame publicitário prometia uma comédia típica acerca da internet desconectar indivíduos da realidade, uma ideia repetida ad nauseam pelos nossos pais, antes de aderirem ao facebook e perderem-se, prazerosamente, em memes de minions e informação formatada em clickbait. Após a sua estreia na Netflix, a família Mitchell conseguiu comprovar que tinha muito mais para oferecer do que uma simples fotografia sugeria.

Essa visão incompreendida persegue Katie Mitchell (V.O. Abbi Jacobson/V.P Rita Tristão), uma adolescente com o sonho de criar cinema, que dedica o seu tempo à produção de vídeos online, com histórias protagonizadas pelo seu estranho cão, Monchi. Desde criança que se sentia deslocada no seu ambiente, motivando a procura da sua identidade, sonhos, objetivos e amizades nesta rede mundial. A sua vida está na internet. Rick Mitchell (V.O. Danny McBride/V.P. Mário Redondo) é o seu pai e a sua vida está no exterior. Um homem tecnofóbico que se distancia gradualmente da sua filha, pois apesar de ambos residirem na mesma casa, colocam-se em mundos separados. Os pequenos filmes de Katie são uma linguagem technicolor alienígena para o homem desta família que simplesmente não consegue compreender a sua paixão ou acreditar na sua perseguição. Consciente desta separação e dos possíveis danos que irão ocorrer quando a sua filha chegar à faculdade de cinema, na California, Rick decide embarcar a família inteira numa viagem de carro, até à universidade, para restaurarem a sua ligação. Tudo parece encaminhado até serem interrompidos pelo Apocalipse tecnológico.

Realmente é uma premissa que aparenta o conceito cansativo insinuado pelo marketing. Uma narrativa que nas mãos erradas seria somente outra película para adicionar aos restos defuntos da Sony Pictures como The Emoji Movie (2017) ou The Angry Birds Movie (2016). Felizmente, a equipa responsável por esta longa-metragem demonstra filmografias exemplares e visionárias que refrescam este argumento com perspetivas inteligentes e esperançosas acerca da nossa realidade, e destacam esta obra visual com uma presença original e apaixonante acerca deste género e do futuro da sétima arte. 

Um desses membros é o realizador e co-argumentista, Mike Rianda (Gravity Falls 2012-2016), que elabora The Mitchells vs the Machines como uma aventura única e sublime, homenageando e incentivando a criatividade juvenil da nossa atualidade, através da fusão de animação 3D e 2D, assemelhando-se a sketches e rascunhos coloridos, relacionados com o ato inicial da criação, que produz visuais retirados da mente de Katie Mitchell e recordam a edição frenética comum de vídeos no Youtube. Este elemento híbrido proporciona uma personalidade e imaginação invulgar que destaca esta obra dos seus contemporâneos. Os produtores Phil Lord e Chris Miller, familiarizados com a construção de narrativas entusiasmantes através de ideias fatigantes como The Lego Movie (2014) e 21 Jump Street (2012), oferecem a sua magia distinta revertendo as tropes habituais destes enredos e impedindo o filme de ser abatido pelos caminhos repetitivos deste género com o seu engenho singular. 

O espírito desta produção separa os Mitchell de formulas triviais, desenvolvendo uma forte relação fraternal entre Katie e o seu, igualmente excêntrico, irmão, Aeron (V.O. Michael Rianda/V.P. Luís Lobão) e uma de compreensão pela sua carinhosa mãe, Linda (V.O. Maya Rudolph/V.P. Mónica Garcez), insegura da imagem que esta família transmite. Apesar do seu foco principal situar-se na ligação entre Katie e o seu pai, Rick, todos os membros são importantes e relevantes nesta história. Incluindo os dois robots defeituosos que tentam, hilariantemente, disfarçar-se de seres humanos conhecidos como Eric (V.O. Beck Bennett/V.P. Romeu Vala) e Deborahbot 5000 (V.O. Fred Armisen/V.P. Tomás Alves). Todos servem um propósito nesta batalha contra as aplicações controladas pela Inteligência Artificial, PAL (V.O. Olivia Colman/V.P. Rita Ruaz), uma vilã formada pelo desejo de vingança contra os seres humanos.

O seu argumento zeloso importa-se seriamente com todas as suas personagens, criando viagens emocionais próprias para cada elemento e preenchendo o ecrã com movimento constante, sub-enredos particulares e uma quantidade exuberante de temas, conceitos e ideias exploradas na longa-metragem. The Mitchells vs the Machines pode ser acusado de ser too much para audiências gerais, devido à possível exaustão do seu pacing, contudo, são componentes perdoáveis justificados pela natureza da sua protagonista e da mensagem principal desta história. Os jovens são too much, o processo criativo destes artistas é too much. Faz parte da sua beleza. Esta narrativa sucede precisamente por compreender, respeitar e amar esse entusiasmo e a paixão viral desta comunidade salva pelo mundo online

Quando voltamos a olhar para aquele frame publicitário, recordamos o comportamento ocasional da internet em julgar negativamente uma imagem destituída de contexto. Encarar arte ou uma pessoa de forma reacionária é retirar as suas dimensões e complexidades; é retirar a sua beleza e representar esta somente como um produto, definido como estranho. Essa é uma das falácias de diversos utilizadores online e da própria família Mitchell, que por ausência de compreensão, limita a sua visão.

Num momento climático, uma das personagens secundárias menciona “It’s just a movie” como método de pacificar outra pessoa, perto de lágrimas. The Mitchells vs the Machines reputa essa frase com consciência que It’s not just a movie. Nunca é. É muito mais do que uma imagem publicitária. Mais do que um produto. É uma forma artística de conexão. Rianda compõe uma história acerca da procura pelo contacto online e offline no nosso mundo, o ambiente que eleva a paixão e criatividade pessoal, e incentiva a aceitação das nossas singularidades. É sobre uma família a aprender que, perante problemas de ligação, uma das opções é desligar e voltar a ligar.

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