The Little Mermaid (2023)

de Pedro Ginja

Este The Little Mermaid é mais uma das muitas adaptações de imagem real que a Disney pretende levar ao grande ecrã. Não digo isto com desdém, mas ponho muitas reticências quando uma empresa com tal poderio económico e, mais que isso, grande influência, decide jogar pelo seguro. A qualidade e a percepção destas adaptações tem sido muito variada e acima de tudo polémica. À excelente adaptação de Jungle Book (2016) – muitos dizem ser melhor que o original – seguiram-se falhanços na captura da magia do original como em The Lion King (2019), uma cópia descarada (frame por frame) do clássico. Outros geraram indiferença como Aladdin (2019) ou Beauty and the Beast (2017). O único ponto comum a todos estes exemplos foi o sucesso de bilheteiras a levar gerações de pais com os seus filhos ao cinema, numa espécie de passar a tocha para os seus descendentes. Chega, agora, The Little Mermaid e a principal questão é se justifica a sua existência.

Adaptado de um conto infantil de Hans Christian Andersen, The Little Mermaid acompanha uma jovem sereia, de nome Ariel (V.O. Halle Bailey, V.P. Soraia Tavares) com ânsia de explorar e aprender sobre o mundo acima da superfície do oceano. Conhece o príncipe Eric (V.O. Jonah Hauer-King, V.P. Ricardo Soler) e acaba por se apaixonar por ele. A impossibilidade de poderem ficar juntos leva-a a fazer um pacto com uma bruxa do mar, Úrsula (V.O. Melissa McCarthy, V.P. Tânia Alves) para poder caminhar em terra perdendo a voz no processo. Com a ajuda de Sebastian (V.O. Daveed Diggs, V.P. João Frizza), Flounder (V.O. Jacob Tremblay, V.P. Ricardo Lagartinho Lopes) e Scuttle (V.O. Awkwafina, V.P. Ana Cloé), Ariel tem 3 dias para conquistar o príncipe e alcançar a felicidade.

Impossível falar desta versão sem falar do original, que deu origem ao segundo período de ouro do estúdio de animação da Disney. Após a morte de Walt Disney, o estúdio andou sem rumo por mais de 20 anos até que surge The Little Mermaid (1989), um sucesso de bilheteira e crítica, e o relançamento para uma segunda era de ouro. A primeira boa decisão neste live-action foi chamar de volta um dos responsáveis por esse êxito – Alan Menken, compositor musical. Faz por isso sentido centrar esta crítica na música e nos vários momentos em que ela brilha ou, como também é o caso, falha.

“Part of Your World”, desta vez na voz de Halle Bailey, é uma belíssima actualização do clássico original. Com uma voz cristalina, a “gritar” espírito Disney por todos os poros, Halle Bailey é a escolha acertada e uma excelente aposta do estúdio. Conseguir aliar a inocência da personagem, a reverência a Julie Benson (voz da Ariel na versão original) e a intrepidez de uma exploradora apaixonada a completar a sua transição para o mundo dos dias de hoje, é um grande feito. Familiaridade e modernidade unidas na perfeição.

“Under the Sea” está também sobre intenso escrutínio por ser um dos momentos mais icónicos do original e por ter sido a vencedora desse ano do Óscar de melhor música original. A sua forma e sonoridade mantém-se, mas o momento musical reforça a maior fragilidade destas adaptações de imagem real. Ao transformar o animado em foto-realista, parece ficar num limbo onde não é uma coisa nem outra. A magia da animação perde-se e nunca se aproxima da verdadeira essência do mar, ainda mais quando recentemente tivemos Avatar: The Way of Water (2022) que inovou e levou as possibilidades dos efeitos digitais aquáticos para outro campeonato.

O maior problema neste foto-realismo continua a ser a actualização das personagens-animais, que nesta história com Sebastian, Flounder e Scuttle, como parte integrante da história, se torna mais gritante. Já tinha sido estranho ver Simba, Mufasa e Scar actualizados para o realismo, e a sensação não desaparece nesta produção. Isto nada tem a ver com a qualidade dos efeitos digitais ou da performance dos actores (muito boa para ambos), mas sim na perda da alma Disney. A nossa mente diz-nos sim, que os animais são assim na realidade, mas o coração tem de discordar.

“Poor Infortunate Souls”, é a antítese do que foi dito sobre a última canção. Tudo bate certo neste momento. Em primeiro lugar na reinvenção da personagem de Úrsula. A actualização foto-realista, principalmente nos tentáculos, também acontece mas é inteligente ao deixar a fantasia e alguma magia no processo (a bioluminescência dos tentáculos é extremamente impressionante). As cores e tonalidades fluorescentes, os efeitos visuais e, claro, Melissa McCarthy que interpreta Úrsula com uma malvadez requintada, exagerada q.b e um talento vocal nas entonações, em homenagem clara aos vilões clássicos da Disney, é a principal razão para esse sentimento. Demonstra, ainda, um talento musical admirável e alia-o a uma teatralidade primorosa e um range musical surpreendente. Sublime.

Consegui identificar duas novas músicas com a introdução musical de Eric em “Wild Uncharted Waters” onde a inspiração Piratas das Caraíbas, neste capítulo naval, é muito notória. Um upgrade, pela positiva, da versão original, mas Jonah Hauer-King não deslumbra ao nível de Bailey ou McCarthy. Todas as sequências de acção do original estão presentes, como a perseguição do tubarão, com Ariel e Flounder, ou o naufrágio do navio de Eric e o saldo é positivo no aumento da tensão e da espectacularidade.

Para terminar as novas referências musicais falo de “Scuttlebutt” e as notícias são bem piores, com um rap sofrível mas que, felizmente, termina rapidamente. No parágrafo das maiores desilusões não há como não falar da ausência da cena entre Sebastian e o cozinheiro do castelo de Eric do qual ansiava, pessoalmente por uma nova versão. Nunca chega e confirma os receios de a Disney continuar a ser uma empresa com aversão ao risco e, por isso, arredada do genial há demasiado tempo.

The Little Mermaid é pontuado com momentos sublimes e algumas desilusões. As renovadas e inspiradas sequências de acção e o trabalho de cenografia e fotografia vibrante (é um filme muito colorido) fazem-nos acreditar mas logo surge a dúvida, por vezes na cena seguinte, com a constante sensação de dèjá vu e a artificialidade das personagens-animais. No final de contas, não se dá pelo tempo passar (tem mais 1h de duração que o original) e consegue expandir, com sucesso, o universo para uma nova geração. A outra, dos anos 90′, continuará a idolatrar o traço clássico da Disney e está tudo bem com isso.

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