The Holdovers (2023)

de Pedro Ginja

“You don’t tell a boy that was left behind at Christmas that nobody wants him. What is wrong with you?”

Havia um desejo grande em Alexander Payne de voltar a trabalhar com Paul Giamatti desde a sua última colaboração em Sideways (2004). Foram precisos quase 19 anos para encontrar a personagem que, segundo Payne, apenas Paul Giamatti poderia interpretar. Um professor zarolho com um prazer especial em torturar os seus alunos.

The Holdovers retrata duas semanas de férias de Natal, de um colégio interno privado, para um grupo de alunos que ficou para trás e não pode regressar a casa para o festejar com a família. Ficam encarregues da sua segurança e bem-estar, o professor Paul Hunham (Paul Giamatti) e a cozinheira Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph). Os festejos, tão naturais a esta época do ano, são substituídos pelas quezílias, pela tristeza e pelos arrependimentos pessoais. Conseguirá o espírito natalício prevalecer sobre tanta negatividade? Olhando para esta sinopse poderia passar a ideia deste ser um filme pesado e triste. Tal não poderia estar mais longe da realidade, mas como todos bem sabemos, o Natal nem sempre é um tempo de celebração e alegria. O filme opta, e bem, por criar uma “viagem” de introspecção e redenção para os seus três protagonistas, bem ao jeito dos mais belos contos natalícios.

O professor Paul Hunham ensina na Barton Academy e circula pelos seus corredores como uma extensão do seu próprio ser. Há, no seu interior, uma necessidade em desafiar o poder instalado, principalmente nos que nasceram em berço de ouro, como à primeira vista parece ser o caso de todos os seus estudantes. Isto é bem visível no prazer que retira em humilhar os seus alunos e de como a sua transformação é o ponto nevrálgico do argumento. Existem muitas opções felizes na sua personagem como, por exemplo, o “olho preguiçoso” de Paul, uma constante fonte de situações hilariantes mas não é o único exemplo (deixo os restantes para descobrirem por vós). Paul Giamatti cria uma personagem complexa do qual vai revelando, em incrementos subtilmente doseados, cada trauma, fraqueza ou inseguranças mas também ternura, lealdade e uma coragem surpreendente. Tal só é possível com um talento do calibre de Giamatti.

Nos alunos, a ênfase recaí sobre Angus, interpretado por Dominic Sessa, um adolescente abandonado pela própria mãe e desiludido com a vida. Consegue carregar essa dor à flor da pele a cada instante, e tem os momentos mais emocionais da história. Há também aqui muito carisma, o que lhe permite facilmente conquistar o coração do espectador mesmo quando as suas acções são altamente reprováveis. Para um primeiro grande papel no cinema, esta é uma estreia que promete voos maiores num futuro próximo. A concluir o trio, temos Mary Lamb, interpretada por Da’Vine Joy Randolph, uma mãe em luto que se refugia no seu trabalho de cozinheira. É a única que, voluntariamente, se sacrifica para trabalhar nesta época festiva, enterrando a sua dor bem fundo e fora do alcance dos que a rodeiam. Da’Vine mostra-a mesmo por detrás de cada sorriso e palavra de conforto. É a voz de consciência da história e por isso é triste quando, perto do final, a sua personagem aparenta concluir a sua “viagem” mas a mesma não tem o impacto e relevância dos restantes dois protagonistas. E é pena pois a sua personagem merecia bem mais.

Desta avalanche de temáticas pesadas, reflexões sobre a vida e a sua natureza arbitrária e injusta, o argumento equilibra-o com um apurado humor nas suas várias vertentes. Desde a ironia depreciativa de Paul Giamatti, acompanhado de uma expressividade facial de nos levar às lágrimas (de tanto rir, obviamente), do humor negro ancorado numa sinceridade implacável de Dominic Sessa e, claro, o humor cru e seco de Da’Vine Joy Randolph em sintonia com um sass irresistível. No trio de protagonistas há um inspirado timing cómico, revelando o instinto apurado de Alexander Payne de sempre usar actores cómicos em papéis claramente dramáticos. Existem ainda inúmeras situações de humor físico, sexual, melancólico, emocional e de tantos outros tipos que por vezes nem sabemos se rir ou chorar com o que se passa no ecrã. Alia a tudo isto uma recriação ao pormenor do cinema americano dos anos ’70, na banda sonora, nas roupas, nos diálogos e na direcção de fotografia a recriar o look cinematográfico dessa era com o recurso a luz natural, uma paleta visual esbatida mas colorida, e um aspecto granular típico do cinema analógico da altura. Mas é na reconstituição de um período da história do cinema, afastado dos grandes estúdios e mais centrado na emergência do movimento New Hollywood, em que o risco, a ousadia e a reflexão sobre temas controversos era a norma, que Payne parece evocar. É também uma espécie de chapada de luva branca na Hollywood dos dias de hoje, que na massificação do entretenimento neutro procura continuar a promover a estupidificação da sociedade americana, e pela sua relevância mundial, repetir a dose para o mundo inteiro. Cabe-nos a nós, espectadores, optar pela superação da mente, e não pela sua sedação, e dar a Hollywood o sinal de que precisou nos idos anos ’70 para se reinventar.

The Holdovers parece estrear fora de tempo (e de era), pois grita a cada segundo as saudades do Natal e de outro cinema. Alexander Payne e David Hemingson revestem a história de uma inteligência cómica, a relembrar as grandes comédias americanas dos anos ’70, ancorando-a na dura complexidade das relações humanas, numa melancolia de outros tempos e na desequilibrada sociedade em que vivemos. Apesar de tudo isto sentir-mo-nos, no final, como que envolvidos por um enorme abraço, é o maior elogio que alguém pode dar a este reconfortante regresso de Alexander Payne.

4/5
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